16/07/2018

Teorias do Conhecimento depois de Gettier


De acordo com a definição tradicional de conhecimento, também conhecida como definição tripartida do conhecimento (CVJ), em que se visa estabelecer condições necessárias e conjuntamente suficientes para que um sujeito S conheça uma dada proposição p, defende-se a seguinte teoria do conhecimento:
(CVJ) S sabe que p sse: (i) S acredita que p, (ii) p é verdadeira, e (iii) S está justificado a acreditar que p.
Esta teoria foi proposta por Platão no Teeteto (§291) e no Ménon (§98), e foi considerada uma definição plausível de conhecimento ao longo da história, sendo mais contemporaneamente defendida por Roderick Chisholm e Alfred Ayer. Contudo, Edmund Gettier no influente artigo “Is Justified True Belief Knowledge?”, publicado na revista Analysis (v.23, pp.121-3) em 1963, apresenta dois contraexemplos à teoria CVJ, criticando a suficiência da CVJ para haver conhecimento.

O Caso 1, o qual pode ser nomeado como “Moedas”, é apresentado por Gettier desta forma: enquanto aguardava por uma entrevista de emprego, a Maria viu o José a contar quantas moedas tinha no bolso: 10 moedas. Ela também ouviu o patrão ao telefone a dizer a alguém que o José é a pessoa que vai ter o emprego. Com base dessa evidência, a Maria acredita justificadamente na seguinte conjunção:

(1) O José vai conseguir o emprego, e o José tem 10 moedas no seu bolso.

Com base na sua crença justificada (1), a Maria deduz e passa a acreditar justificadamente que:

(2) A pessoa que vai conseguir o emprego tem 10 moedas no seu bolso.

Contudo, apesar da evidência da Maria, (1) é falsa; o patrão enganou-se ao telefone. Além disso, é a Maria, não o José, quem vai conseguir o emprego; e por puro acaso, a Maria tem exatamente 10 moedas no seu bolso. Ora, a Maria tem uma CVJ em (2), mas não tem conhecimento (pois essa crença é afinal verdadeira por mero acaso).

Quando ao Caso 2, que podemos designar como “Ford”, Gettier parte da suposição de que a Maria tem a seguinte evidência: o José guarda uma Ford na sua garagem; o José foi visto a conduzir um Ford; o José disse que tem um Ford e tem sido honesto e fiável no passado, etc. Ora, a partir dessa evidência a Maria forma a crença de que:

(3) O José tem um Ford.

Com base nessa crença justificada, a Maria deduz justificadamente e passa acreditar na seguinte disjunção:

(4) O José tem um Ford ou o seu amigo Sousa está em Barcelona.

Apesar de ignorar por completo o paradeiro do Sousa, por pura coincidência o Sousa está em Barcelona. Além disso, por acaso o José já não tem um Ford (recentemente vendeu-o). Ora, a crença da Maria em (4) é uma CVJ. Todavia, intuitivamente a crença da Maria não pode ser conhecimento; é por mera sorte que a sua crença é verdadeira.

Com base nestes dois exemplos consegue-se mostrar que podemos ter uma crença verdadeira justificada (CVJ) mas não ter conhecimento; ou seja, não é suficiente ter uma CVJ para se ter conhecimento. Por isso, a definição tradicional de conhecimento não está em ordem. Como resolver, então, o problema da definição do conhecimento? Este problema é conhecido como “problema Gettier”.

Como formular uma teoria do conhecimento que responda plausivelmente ao problema Gettier? Ou seja, precisamos de uma teoria do conhecimento que ultrapasse de alguma forma os contraexemplos apresentados por Gettier. Como reação a esse problema surgiram dois tipos de resposta bastante diferentes.

Por um lado, temos as respostas não-reducionistas que visam defender que o conhecimento não é suscetível de análise em termos de condições necessárias e suficientes. Por exemplo, Wittgenstein (1957) defende a tese de que não há sequer um conceito unificado de conhecimento que seja suscetível de análise: há apenas uma série de conceitos diferentes mas semelhantes uns aos outros. Numa linha de raciocínio semelhante Linda Zagzebski (1994) defende que o problema Gettier é insolúvel. E, mais recentemente e de forma influente, Timothy Williamson (2000) defende que o conceito de conhecimento é primitivo e, por isso, não pode ser reduzido a conceitos mais básicos como o de “crença”, “verdade”, e “justificação”.

Por outro lado, as respostas reducionistas, as quais se apresentam como mais optimistas para oferecer uma solução ao problema Gettier, têm como objetivo fortalecer a condição (iii) ou adicionar uma nova condição (iv) à definição tradicional de conhecimento. Neste tipo de resposta são oferecidas várias possíveis condições, tal como alguma das seguintes: infalibilidade, sem fundamentos falsos, causa apropriada, fiabilismo, sensibilidade, ou segurança. 

Vale a pena considerar com pormenor cada uma destas respostas e avaliar qual é a mais plausível. Para ler uma análise crítica e pormenorizada que escrevi sobre todas essas teorias do conhecimento formuladas depois de Gettier clique aqui.


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