19/07/2018

Desculpas legítimas para plagiar ensaios de filosofia


O professor de filosofia Travis Timmerman queixava-se, num post que publicou no blog McSweeney, que apanha todos os anos alguns dos seus alunos a plagiar ensaios de filosofia e que todos os anos apresentam as piores desculpas pelo plágio. Tipicamente dizem algo como “Não sabia que estava a plagiar, assim não posso ser responsabilizado por isso”. Contudo, isso não os isenta de responsabilidade por razões óbvias. Tendo em conta que ninguém ainda lhe ofereceu uma desculpa para plagiar que pudesse aceitar, o professor Travis propõe que há melhores desculpas:
  • Para um ensaio sobre o ceticismo: “O professor acha que plagiei, mas não pode descartar a possibilidade de que um génio maligno esteja a implantar-lhe falsas memórias para fazer parecer que o meu trabalho é idêntico ao de um outro aluno. Se não pode provar que um génio maligno não lhe está a implantar essas falsas memórias, então não pode saber que plagiei.”
  • Para um ensaio sobre o altruísmo eficaz: “Sim, eu fiz plágio, mas teria sido moralmente errado não o fazer. Se escrevesse um ensaio original, não conseguiria arranjar tempo para trabalhar de forma a ganhar um extra de 200€ para doar para uma caridade eficaz. O professor ao solicitar para eu escrever um ensaio original, está basicamente a pedir-me para matar uma criança.”
  • Para um ensaio sobre o livre-arbítrio: “O determinismo e o incompatibilismo são ambos verdadeiros. Uma vez que fiz plágio, daí se segue que era impossível não plagiar. Eu não poderia violar as leis da física!”
  • Para um ensaio sobre metaética: “A teoria do erro de Mackie tem-se revelado verdadeira. Não há razões morais e não há verdade moral. Enquanto fazia plágio, não tinha absolutamente qualquer razão moral para não o fazer e o professor não pode dizer honestamente que agi de forma moralmente errada ao plagiar”.
  • Para um ensaio sobre metafísica: “O professor afirma que este é exatamente o mesmo ensaio que o de outro aluno; mas não é. Repare: eu usei contrações e o outro aluno não. Por exemplo, sempre que ele escreve <em um> eu escrevo <num>. Ora, dada a Lei de Leibniz, a Indiscernibilidade de Idênticos, estes são na verdade ensaios diferentes.”
  • Para um ensaio sobre viagens no tempo: “Eu não fiz plágio do ensaio que David Lewis publicou em 1976 na revista American Philosophical Quarterly. Pelo contrário, em 1975 ele viajou para o futuro e plagiou-me!”
  • Para um ensaio sobre o problema do mal: “Sim, plagiei o ensaio em que defendo que a versão indutiva do problema do mal é bem-sucedida; mas plagiei por uma boa razão. O ensaio é uma peça de filosofia performativa: ele serve como um excelente exemplo do problema que está a ser discutido neste ensaio.”
  • Para um ensaio sobre a filosofia da mente: “Não plagiei esse ensaio! Tudo nele foi fruto da minha própria mente estendida, nomeadamente do meu cérebro e de trechos da Wikipedia encontrados no meu iPhone (tal como defende David Chalmers)!”
  • Para um ensaio sobre o niilismo mereológico: “O professor diz que fiz plágio de um ensaio de um outro aluno, mas esse ensaio não existe! Pois, não existem seres compostos, só simples.”
Podemos acrescentar mais algumas desculpas de plágio à presente lista. O professor Manuel João Pires acrescenta as seguintes desculpas:
  • Para um ensaio sobre filosofia da religião: “Se o ser maior do que o qual nada pode ser pensado sabe que eu plagiei, podia ter impedido que eu plagiasse e não pode permitir qualquer mal que seja injustificado ou sem sentido, então o meu plágio deverá estar inscrito como um elemento indispensável do melhor dos mundos possíveis.”
  • Para um ensaio sobre filosofia do conhecimento: "É verdade que plagiei, no entanto essa verdade é contingente, ou seja, a sua negação não é contraditória nem apresenta qualquer caráter ininteligível. Por isso, num mundo possível análogo eu não teria plagiado. Ora, assumindo que o conhecimento substancial acerca do mundo implica acedermos a verdades necessárias, que são o caso em todos os mundos possíveis, o professor não tem conhecimento substancial sobre o facto de eu ter plagiado. Logo, não pode responsabilizar-me por algo que na verdade não sabe de modo substancial se eu fiz ou não."
  • Para um ensaio sobre a deontologia kantiana: “Não nego que plagiei, até porque dizer a verdade é um dever incondicional. No entanto, a máxima que presidiu à minha ação - faz algo que te beneficie e não prejudique ninguém - é algo que posso querer que se torne uma lei universal. Repare que mesmo que as consequências fossem negativas, esse é um factor que não acrescenta nem retira NADA ao valor moral da ação. Além disso, tratei o autor do texto como um meio mas não APENAS como um meio. Portanto, há uma expectativa razoável de que, a minha ação de plagiar possa passar no teste das duas formulações do imperativo categórico. Portanto, o professor não tem  fundamento para considerar eticamente injustificável o meu plágio.”
Acrescente outras desculpas filosoficamente relevantes na caixa de comentários.


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