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Segunda-feira, 29 de Agosto de 2011
Segunda-feira, 15 de Agosto de 2011
Uma vida sem reflexão não merece a pena ser vivida
"Sócrates disse, celebremente, que uma vida sem reflexão não merece a pena ser vivida. Queria ele dizer que uma vida vivida sem ponderação nem princípio é uma vida tão vulnerável ao acaso e tão dependente das escolhas e acções de terceiros que pouco valor real tem para a pessoa que a vive. Queria ainda dizer que uma vida bem vivida é aquela que possui objectivos e integridade, que é escolhida e orientada pelo que a vive, tanto quanto isso é possível a um agente humano enredado nas teias da sociedade e da História.
Segunda-feira, 11 de Julho de 2011
Sábado, 25 de Junho de 2011
Terça-feira, 19 de Abril de 2011
O mal da credulidade
"Se me permito acreditar seja no que for com indícios insuficientes, da mera crença pode não resultar grande mal; pode afinal ser verdadeira, ou posso nunca ter ocasião de a manifestar em acções públicas. Mas não deixo de cometer este grande mal contra o Homem: o de me tornar crédulo. O perigo para a sociedade não é meramente o de acreditar em coisas erradas, embora isso seja suficientemente mau; mas o de se tornar crédula e perder o hábito de testar as coisas e de as investigar; pois então reincidirá forçosamente na selvajaria.
Sábado, 9 de Abril de 2011
Filosofia da Religião
"Podemos compreender melhor o que é a filosofia da religião começando pelo que não é. Em primeiro lugar, não se pode confundir a filosofia da religião com o estudo da história das principais religiões de acordo com as quais os seres humanos têm vivido. (...) Em segundo lugar, não se pode confundir a filosofia da religião com a teologia. (...) A filosofia da religião, ao contrário da teologia, não é fundamentalmente uma disciplina interior à religião, mas uma disciplina que estuda a religião de um ponto de vista abrangente. (...)
Podemos caracterizar melhor a filosofia da religião como o exame crítico das crenças e dos conceitos religiosos fundamentais. A filosofia da religião examina criticamente conceitos religiosos fundamentais como o conceito de Deus, o conceito de fé, a noção de milagre e a ideia de omnipotência. (...)
A filosofia da religião examina criticamente as crenças religiosas fundamentais: a crença que Deus existe, de que há vida depois da morte, de que Deus sabe, mesmo antes de nascermos, o que iremos fazer, de que a existência do mal é de algum modo consistente com o amor de Deus pelas suas criaturas. Examinar criticamente uma crença religiosa envolve explicar a crença e examinar as razões que têm sido apresentadas a favor e contra a crença, tendo em vista determinar se há ou não qualquer justificação racional para afirmar que essa crença é verdadeira ou falsa".
Fonte: livro Introdução à Filosofia da Religião, de William L. Rowe. Tradução de Vítor Guerreiro. Lisboa: Verbo, 2011, pp.15-17.
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Segunda-feira, 28 de Março de 2011
A justiça como equidade – John Rawls
“Na teoria da justiça como equidade, a posição da igualdade original corresponde ao estado de natureza na teoria tradicional do contrato social. Esta posição original não é, evidentemente, concebida como uma situação histórica concreta, muito menos como um estado cultural primitivo. Deve ser vista como uma situação puramente hipotética, caracterizada de forma a conduzir a uma certa concepção de justiça. Entre as características essenciais está o facto de que ninguém conhece a sua posição na sociedade, a sua situação de classe ou estatuto social, bem como a parte que lhe cabe na distribuição dos atributos e talentos naturais, como a sua inteligência, a sua força e outras qualidades semelhantes. Parto inclusivamente do princípio de que as partes desconhecem as suas concepções de bem ou as suas tendências psicológicas particulares. Os princípios da justiça são escolhidos cobertos de um véu de ignorância. Assim se garante que ninguém é beneficiado ou prejudicado na escolha daqueles princípios pelos resultados do acaso natural ou pela contingência das circunstâncias sociais. Uma vez que todos os participantes estão numa situação semelhante e que ninguém está em posição de designar princípios que beneficiem a sua situação particular, os princípios da justiça são resultado de um acordo ou negociação equitativa.
Sexta-feira, 11 de Março de 2011
MacIntyre explica a justificação aristotélica do estado
Aristóteles defende no primeiro livro da "Política" que o ser humano não se desenvolve isoladamente, mas sempre em comunidade, sobretudo na comunidade mais completa e perfeita que é a polis (cidade-estado). Portanto, de acordo com Aristóteles a vida na cidade-estado corresponde a uma necessidade natural dos seres humanos e, assim, o estado tem uma justificação natural.
Alasdair MacIntyre no seu livro "Whose justice? Whiche rationality" (1988) aborda e explica de uma forma telegráfica esta teoria naturalista de Aristóteles:
Terça-feira, 8 de Março de 2011
A importância da filosofia política
“Os filósofos discutem a política por uma boa razão. Na filosofia política, ao contrário do que acontece noutras áreas da filosofia, não há refúgios. Na filosofia, o agnosticismo é muitas vezes uma posição respeitável. Talvez eu não descubra uma posição satisfatória relativamente à questão da existência ou inexistência de livre-arbítrio e, por isso, não professe qualquer perspectiva. Num contexto mais vasto, isto quase nada interessa. Mas na filosofia política o agnosticismo anula-se a si próprio. Pode não interessar se uma sociedade não tem uma política oficial sobre a solução para o problema do livre-arbítrio, mas em todas as sociedades há alguém que detém o poder político e a riqueza encontra-se distribuída de uma forma ou de outra. Claro que a influência de um indivíduo sobre as decisões da sociedade será provavelmente ínfima. Mas, potencialmente, todos temos algo a dizer, se não através do voto, então dando a conhecer as nossas opiniões através do debate e da discussão, quer na arena pública quer de forma «subterrânea». Aqueles que preferem não participar verão as decisões políticas serem tomadas por si, quer gostem delas quer não. Nada dizer ou fazer é, na prática, dar aval à situação actual, por insatisfatória que seja”.
Wolff, Jonathan (2004) Introdução à filosofia política. Lisboa: Gradiva, pp. 14-15.
Quinta-feira, 7 de Outubro de 2010
Concepção mínima de moralidade
James Rachel (1941-2003) escreveu uma brilhante introdução à filosofia moral (Elementos de Filosofia Moral) onde aborda de uma forma muito clara e precisa as quatro principais teorias éticas: Ética Utilitarista, Kantiana, Contrato Social, e Ética das Virtudes. Este filósofo não se limita a fazer uma apresentação destas teorias, mas tenta avaliar a sua plausibilidade recorrendo a objecções e a contra-exemplos. Para além disso, aborda outros assuntos relacionados com a metaética: egoísmo psicológico, egoísmo ético, relativismo cultural, relação entre religião e moralidade, definição de moralidade, etc… Transcrevemos um pequeno e interessante excerto onde Rachel fala sobre a moralidade:
“A concepção mínima pode agora ser apresentada de forma breve: a moralidade é, pelo menos, o esforço para orientar a nossa conduta pela razão – isto é, para fazer aquilo a favor do qual existem melhores razões – dando simultaneamente a mesma importância aos interesses de cada indivíduo que será afectado por aquilo que fazemos.
Isto oferece, entre outras coisas, uma imagem do que significa ser um agente moral consciente. O agente moral consciencioso é alguém preocupado imparcialmente com os interesses de quantos são afectados por aquilo que ele, ou ela, fazem; alguém que cuidadosamente filtra os factos e examina as suas implicações; que aceita princípios de conduta somente depois de os examinar, para ter a certeza de que são sólidos; que está disposto a «dar ouvidos à razão» mesmo quando isso significa ter de rever convicções prévias; alguém que, por fim, está disposto a agir com base nos resultados da sua deliberação.
É claro que, como seria de esperar, nem todas as teorias éticas aceitam este «mínimo». Como teremos oportunidade de ver, este retrato do agente moral tem sido posto em causa de várias maneiras. No entanto, as teorias que rejeitam a concepção mínima debatem-se com sérias dificuldades. A maioria dos filósofos apercebeu-se disto, e por isso a maior parte das teorias da moralidade incorpora, de uma forma ou de outra, a concepção mínima. Não discordam sobre o mínimo mas sobre como poderemos alargá-lo, ou talvez modificá-lo, de maneira a alcançar uma concepção de moral inteiramente satisfatória”.
Fonte:
James Rachel - Elementos de Filosofia Moral. Tradução de F. J. Azevedo Gonçalves. Lisboa: Gradiva, Janeiro de 2004, pp. 31-32.
Quinta-feira, 23 de Setembro de 2010
Perguntas filosóficas (2)
O livro “Que Diria Sócrates?” (do projecto askphilosophers.org) prova que a filosofia não é um assunto do passado, mas é uma actividade extremamente viva e actual. Formula-se questões e vários filósofos respondem com teorias suportadas em argumentos, desafiando-nos a pensar melhor e a reavaliar criticamente as nossas crenças. Seleccionei uma passagem que aborda a temática das «perguntas filosóficas».
“Porque transformam os filósofos perguntas aparentemente simples em questões tão complexas e confusas?
Alexander George: Não há razão para pensar que uma pergunta simples tenha de ter uma resposta simples. A pergunta «Porque há marés?» é deveras simples; uma boa resposta a esta pergunta é deveras complexa. (Mas talvez considere que, regra geral, as perguntas a que os filósofos respondem de modo complexo podem ser respondidas de forma simples!)
Podemos ir mais longe e interrogar-nos sobre o porquê de as perguntas simples não terem, o mais das vezes, respostas simples. Bom, é uma excelente pergunta simples e suspeito que não tenha uma resposta simples! Em filosofia é frequente que as perguntas peçam uma explicação, ou uma racionalização, de algo em que acreditamos; por exemplo, um filósofo poderá querer saber porque acreditamos que as outras pessoas são seres conscientes (muito embora jamais possamos ter experiência directa disso e, portanto, jamais tenhamos indícios do estado de consciência de outros). Por vezes, a noção que um filósofo tem do que constitui uma boa explicação é semelhante à do cientista: uma explicação que recorre a teses básicas que, através do processo de inferência, nos conduzem a dado momento a muitas consequências interessantes e variadas. Dito de outra maneira, os filósofos procuram constantemente teorias, explicações que tragam ordem a um leque de fenómenos previamente desconectados, ou ainda que os sistematizem, explicações essas através das quais mostram como todos estes fenómenos se seguem de determinados pressupostos básicos. E as teorias, porque procuram espremer o máximo sumo possível de uma quantidade mínima de afirmações iniciais, podem implicar cadeias de raciocínio complexas. O caminho que liga os pontos de partida Às conclusões pode ser longo e sinuoso. O que pode parecer – e de facto é – uma tarefa complicada”.
Fonte:
Alexander George (.org) – Que Diria Sócrates? Os filósofos respondem às suas perguntas sobre o amor, o nada e tudo o resto. Tradução de Cristina Carvalho. Revisão científica de Aires Almeida. Lisboa: Gradiva, Julho de 2008, pp. 293-294.
Segunda-feira, 13 de Setembro de 2010
Perguntas filosóficas
Depois de ler «Como se faz um Filósofo» de Colin McGinn gostaria de deixar uma pequeno excerto deste interessante livro:
“Falamos o tempo todo de existência e é obviamente um conceito fundamental, mas o que quer dizer exactamente? Isto revela-se algo extraordinariamente difícil. A pergunta é enigmática, mas é possível fazer progressos (…). E a existência não é um tópico que a ciência possa alguma vez vir a ser capaz de dar conta. É uma questão puramente filosófica, simples mas surpreendentemente confusa. Pensar sobre ela faz-nos ver que mesmo os nossos conceitos mais básicos não são claros para nós; usamo-los sem grande problemas, mas não temos qualquer compreensão articulada do que envolvem. É aqui que a Filosofia entra. E isto mostra que é um erro pensar que todas as questões genuínas são científicas ou empíricas. Na verdade a própria ciência levanta problemas filosóficos.
O mesmo acontece com a Literatura, com a História, a Economia, as Ciências da Computação, a Matemática e assim por diante. Na Matemática, por exemplo, há a questão de saber de onde vieram os números: será que são apenas marcas num papel, ou ideias na mente dos matemáticos? Será que são, como Platão pensava, entidades objectivas e independente da mente que existem fora do espaço e do tempo? Nada daquilo que aprendemos numa aula normal de Matemática nos pode dar a preparação necessária para responder a tais perguntas (...). Nas ciências empíricas, as teorias são criadas para explicar os dados que foram observados, e consideramos muitas vezes que estas teoria fornecem descrições corretas da realidade. Mas note-se que esta caracterização da ciência usa vários conceitos que precisam urgentemente de ser elucidados: o que é uma teoria? O que é uma explicação? O que distingue uma observação da teoria usada para a explicar? O que é a verdade? O que é a realidade? A ciência opera com estes conceitos, mas não tem recursos para os explicar. O mesmo acontece com as ciências sociais: também usam os conceitos que acabamos de referir, mas também invocam conceitos como o de razão ou motivo, assim como conceitos normativos como o de correcto e obrigatório – e estes conduzem-nos à filosofia moral e política, assim como à filosofia da mente. As artes empregam conceitos estéticos como os de beleza e representação, que levantam questões filosóficas: é a beleza subjectiva ou objectiva? Será que toda a representação artística é fundamentalmente do mesmo tipo? O que determina o valor estético de uma obra de arte? Depois há os conceitos extremamente gerais que surgem de súbito em todo o lado – tempo, causalidade, necessidade, existência, objecto, propriedade, identidade. Nenhuma disciplina científica nos pode dizer o que estes conceitos envolvem, porque são pressupostos para quaisquer destas disciplinas; precisamos da Filosofia para compreender estes conceitos. Por exemplo: é a causalidade simplesmente uma questão de simples conjunção constante de acontecimentos (…) ou será que envolve um elemento de conexão necessária? E que tipo de necessidade pode ser? Será qualquer coisa como a verdade necessária de «os solteiros não são casados»?
Estas são as perguntas que os seres humanos fazem naturalmente e acerca das quais têm estado perplexos desde que se registou pela primeira vez o pensamento articulado. As crianças fazem perguntas filosóficas espontaneamente, para grande frustração dos pais (…). O filósofo é apenas alguém com interesses particularmente fortes sobre estas velhas questões universais; é a encarnação de um género de curiosidade humana (…). Claro que é fácil ficar impaciente com estas questões, pois não admitem resolução científica. Porém, na verdade esta é uma resposta de filisteu combinada com fetiche científico. A ciência é sem dúvida uma tarefa importante e nobre, mas não é a única forma de investigação intelectual com valor. Não devemos abraçar a ideia de que uma pergunta ou é científica ou coisa nenhuma”.
Fonte:
Colin McGinn – Como se faz um filósofo. Tradução de Célia Teixeira. Revisão científica de Desidério Murcho. Bizâncio, Março de 2007, pp. 247-249.
Sábado, 11 de Setembro de 2010
A Ética da Crença
No site da Editorial Bizâncio já podemos ver que foi publicado um interessante livro com ensaios sobre filosofia e epistemologia da religião organizado por Desidério Murcho. Certamente um livro que vale a pena ler e estudar...

Título: A Ética da Crença
Autor(es):Clifford, W. K.
James, William
Plantinga, Alvin
Murcho, Desidério
Pág.: 208
Número: 7
ISBN: 978-972-53-0458
Ano: 2010
Preço de Capa: €12.5
Preço Online: €11.25
Muitos descrentes pensam que há algo de errado em crer em Deus sem provas; muitos crentes pensam que não há nada de errado. Quem tem razão? Este é o problema central de uma área importante da filosofia da religião chamada «ética da crença». Este livro apresenta três textos sobre o tema: os clássicos de W. K. Clifford e de William James, que deram origem à discussão actual, e um texto de Alvin Plantinga, um dos mais importantes filósofos da religião. O quarto texto, do organizador, fornece os instrumentos necessários para que forme a sua própria opinião, assim como uma análise do conceito de fé. De máximo interesse para professores e para estudantes de Filosofia, e também de Religião, este livro é de leitura obrigatória para qualquer pessoa interessada em reflectir cuidadosamente sobre a crença religiosa.
Podem ver aqui algumas partes deste livro:
A Ética da Crença

Título: A Ética da Crença
Autor(es):Clifford, W. K.
James, William
Plantinga, Alvin
Murcho, Desidério
Pág.: 208
Número: 7
ISBN: 978-972-53-0458
Ano: 2010
Preço de Capa: €12.5
Preço Online: €11.25
Muitos descrentes pensam que há algo de errado em crer em Deus sem provas; muitos crentes pensam que não há nada de errado. Quem tem razão? Este é o problema central de uma área importante da filosofia da religião chamada «ética da crença». Este livro apresenta três textos sobre o tema: os clássicos de W. K. Clifford e de William James, que deram origem à discussão actual, e um texto de Alvin Plantinga, um dos mais importantes filósofos da religião. O quarto texto, do organizador, fornece os instrumentos necessários para que forme a sua própria opinião, assim como uma análise do conceito de fé. De máximo interesse para professores e para estudantes de Filosofia, e também de Religião, este livro é de leitura obrigatória para qualquer pessoa interessada em reflectir cuidadosamente sobre a crença religiosa.
Podem ver aqui algumas partes deste livro:
A Ética da Crença
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Segunda-feira, 25 de Janeiro de 2010
Ética, Sexualidade, Erotismo e Religião
"O II Congresso de Pedagogia que se realizou na Faculdade de Filosofia da Braga discutiu a sexualidade em diversos aspectos. A jornalista Dalila Monteiro assistiu ao Congresso e apresenta, neste programa, duas perpectivas diferentes daquelas que ouvimos todos os dias: a defesa de uma ética universal para a sexualidade e uma nova visão do erotismo na religião. A primeira é defendida, entre outros, pelo catedrático espanhol de filosofia José Antonio Marina. A segunda é-nos trazida pelo padre jesuíta Carlos Carneiro, que é, actualmente, responsável pela formação dos futuros padres jesuítas. É autor de uma tese sobre o “Sofrimento Inútil”, licenciado em Filosofia, Teologia e mestre em Psicologia"...
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Quarta-feira, 20 de Janeiro de 2010
Personalismo...
"O personalismo, fundamento imediato da liberdade do ensino, define também uma primeira posição global sobre o homem e sobre as relações entre os homens, global mas já rigorosa. Numa cidade que o tome por base, nenhuma escola pode justificar ou cobrir a exploração do homem pelo homem, a prevalência do conformismo social ou da razão de Estado, a desigualdade moral e cívica das raças ou das classes, a superioridade, na vida privada ou pública, da mentira sobre a verdade, do instinto sobre o amor e o desinteresse. É neste sentido que nós dizemos que a escola laica, ela mesma, não pode ser, não deve ser educativamente neutra".
MOUNIER, Emmanuel - Manifesto ao serviço do personalismo. Livraria Morais Editora, s.d., pp. 136-137.
Quarta-feira, 13 de Janeiro de 2010
Pornografia e Prostituição
“Quer seja desnudarem-se em conjunto, entregarem-se a diversas práticas sexuais reduzidas à sua objectividade, instituindo entre eles uma nova relação já não «intersubjectiva» mas «interobjectiva» e esperando dela as diversas tonalidades da angústia, do desprazer, do aviltamento, do masoquismo, do sadismo, do gozo – deste prazer que causa o aviltamento – que estas práticas são susceptíveis de proporcionar. Sem eles próprios recorrerem a tais práticas, a elas acedendo num ver, ao qual as novas técnicas de comunicação, elas próprias formas de voyeurismo, multiplicam a possibilidade.
Esta profanação colectiva da vida é pornografia. Na pornografia aparece uma tentativa de levar ao limite a objectividade da relação erótica de tal modo que nela tudo seja dado a ver – o que, de resto, obriga a multiplicar os pontos de vista sobre os comportamentos e os atributos sexuais como se qualquer coisa na sexualidade se recusasse indefinidamente a esta objectivação total. O mesmo projecto de objectivação radical se encontra na prostituição que não é inicialmente um facto social, mas também ele uma acto metafísico cuja «publicidade», por mais limitada que seja (a prostituída é aquela que, à maneira do dinheiro, concentra no seu ser esta publicidade potencial), permanece o telos escondido. Acrescentamos que, na objectividade, qualquer um pode tomar o lugar de qualquer um: os indivíduos são permutáveis como as coisas. Razão pela qual o voyeurismo tem como consequência lógica «a troca» que muitas vezes o acompanha. É aqui que o prazer particular que causa o aviltamento, e que se encontra na prostituição, é levado ao extremo.
Dir-se-á que os fenómenos evocados pertencem a todas as sociedades. O que se encontra no fundamento de todas as sociedades é a natureza humana cuja estrutura fenomenológica, embora não tendo sido muitas vezes elucidada fenomenologicamente, nem por isso é menos constante, através dos séculos. Esta estrutura é a dualidade do aparecer. Tal é a razão pela qual as múltiplas modalidades da existência que lhe estão ligadas e dela recebem a sua última possibilidade estão, com efeito, presentes por toda a parte onde quer que haja homens. O que caracteriza o niilismo é, nesta estrutura fenomenológica global da dualidade do aparecer, o excluir o modo originário e fundamental da revelação da vida”.
HENRY, Michel – Encarnação: uma filosofia da carne. Lisboa: Círculo de Leitores, 2000, p. 243.
Sexta-feira, 18 de Dezembro de 2009
(LIVRO) Encontro de Amor: Ensaios de Filosofia
Encontro de Amor: Ensaios de Filosofia
de Domingos Faria
Este livro reúne um conjunto de ensaios filosóficos com a temática global do Amor. O nosso objectivo principal é facultar um pensamento filosófico rigoroso, uma forma de questionamento, que possibilite momentos de reflexão sobre a vida, a fim de cada um se nutrir de uma existência reflectida e com sentido.
Neste livro são apresentados textos que abordam questões antropológicas fundamentais, como: o encontro personalizante do ser humano, a importância da família no todo comunitário, a comunhão com o Tu Eterno, que procuram contribuir para esta meta de sentido e realização plena da existência humana.
Do mesmo modo, neste labor reflexivo explanamos o pensamento de vários filósofos, como: René Descartes, Immanuel Kant, Friedrich Nietzsche, Maurice Blondel, Martin Buber, Gabriel Marcel, Emanuel Lévinas, Paul Ricoeur, René Girard, John Milbank, Agustín Domingo, Alfonso López Quintás, entre outros, que nos ajudaram nesta tarefa.
Conteúdos do livro: O Encontro Personalizante do Ser Humano; O dilema de ser Família hoje; Do Supremo Legislador Moral ao Tu Eterno da Relação; A Problemática Pós-Moderna da Violência Ontológica; A Caminho de uma Acção de Amor.
O livro pode ser comprado em http://livro.domingosfaria.net ou em http://www.sitiodolivro.pt/pt/livro/encontro-de-amor/
FICHA TÉCNICA:
Título: Encontro de Amor - Ensaios de Filosofia
Autor: Domingos Faria (www.domingosfaria.net)
Edição do Autor
Capa: Sítio do Livro
1ª Edição
Lisboa, 2009
Impressão e acabamentos: Agapex
Depósito legal: 303288/09
ISBN: 978-989-20-1835-5
Publicação e Comercialização
Sítio do Livro, Lda.
Lg. Machado de Assis, lote 2 - C
1700-116 Lisboa
http://www.sitiodolivro.pt/pt/livro/encontro-de-amor/
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Saber pensar...
“A argumentação e a lógica são tão importantes quando se estuda o problema do sentido da existência como quando se estuda filosofia da linguagem, ou ética, ou epistemologia, ou filosofia política. Porquê? Porque a argumentação cuidada é a única maneira que temos de distinguir a verdade da ilusão. Em geral não basta afirmar algo para que se perceba que isso é verdade; é preciso apresentar razões para defender que isso é verdade.
Sei que é fácil ficar impaciente quando queremos acreditar que algo é verdade e aparece alguém que se põe a questionar-nos sobre as razões que temos para acreditar nisso. Mas não preciso de recorda a imagem de Sócrates para lembrar que essa é a nossa tradição, essa é a nossa obrigação como estudantes de filosofia: interrogar, interrogar, interrogar. A nossa herança é a atitude crítica, é o exame das razões, o avaliar das posições em confronto, a tentativa de ir além da mera crença sem fundamentos. Para honrarmos essa herança socrática temos de saber argumentar, temos de saber defender e atacar ideias; temos, numa palavra, de saber pensar”.
MURCHO, Desidério – A natureza da filosofia e o seu ensino. Lisboa: Plátano, p. 83.
Sei que é fácil ficar impaciente quando queremos acreditar que algo é verdade e aparece alguém que se põe a questionar-nos sobre as razões que temos para acreditar nisso. Mas não preciso de recorda a imagem de Sócrates para lembrar que essa é a nossa tradição, essa é a nossa obrigação como estudantes de filosofia: interrogar, interrogar, interrogar. A nossa herança é a atitude crítica, é o exame das razões, o avaliar das posições em confronto, a tentativa de ir além da mera crença sem fundamentos. Para honrarmos essa herança socrática temos de saber argumentar, temos de saber defender e atacar ideias; temos, numa palavra, de saber pensar”.
MURCHO, Desidério – A natureza da filosofia e o seu ensino. Lisboa: Plátano, p. 83.
Quinta-feira, 19 de Novembro de 2009
φιλοσοφία
"A filosofia é diferente da ciência e da matemática. Ao contrário da ciência, não assenta em experimentações nem na observação, mas apenas no pensamento. E, ao contrário da matemática, não tem métodos formais de prova. A filosofia faz-se colocando questões, argumentando, ensaiando ideias e pensando em argumentos possíveis contra elas e procurando saber como funcionam realmente os nossos conceitos.
A preocupação fundamental da filosofia consiste em questionarmos e compreendermos ideias muito comuns que usamos todos os dias sem pensarmos nelas. Um historiador pode perguntar o que aconteceu em determinado momento do passado, mas um filósofo perguntará: «O que é o tempo?» Um matemático pode investigar as relações entre os números, mas um filósofo perguntará: «O que é um número?» Um físico perguntará de que são constituídos os átomos ou o que explica a gravidade, mas um filósofo irá perguntar como podemos saber que existe qualquer coisa fora das nossas mentes. Um psicólogo pode investigar como é que as crianças aprendem uma linguagem, mas um filósofo perguntará: «Que faz uma palavra significar qualquer coisa?» Qualquer pessoa pode perguntar se entrar num cinema sem pagar está errado, mas um filósofo perguntará: «O que torna uma acção certa ou errada?»
Não poderíamos viver sem tomarmos como garantidas as ideias de tempo, número, conhecimento, linguagem, certo e errado, a maior parte do tempo, mas em filosofia investigamos essas mesmas coisas. O objectivo é levar o conhecimento do mundo e de nós um pouco mais longe. É óbvio que não é fácil. Quanto mais básicas são as ideias que tentamos investigar, menos instrumentos temos para nos ajudarem. Não há muitas coisas que possamos assumir como verdadeiras ou tomar como garantidas. Por isso, a filosofia é uma actividade de certa forma vertiginosa, e poucos dos seus resultados ficam por desafiar por muito tempo".
A preocupação fundamental da filosofia consiste em questionarmos e compreendermos ideias muito comuns que usamos todos os dias sem pensarmos nelas. Um historiador pode perguntar o que aconteceu em determinado momento do passado, mas um filósofo perguntará: «O que é o tempo?» Um matemático pode investigar as relações entre os números, mas um filósofo perguntará: «O que é um número?» Um físico perguntará de que são constituídos os átomos ou o que explica a gravidade, mas um filósofo irá perguntar como podemos saber que existe qualquer coisa fora das nossas mentes. Um psicólogo pode investigar como é que as crianças aprendem uma linguagem, mas um filósofo perguntará: «Que faz uma palavra significar qualquer coisa?» Qualquer pessoa pode perguntar se entrar num cinema sem pagar está errado, mas um filósofo perguntará: «O que torna uma acção certa ou errada?»
Não poderíamos viver sem tomarmos como garantidas as ideias de tempo, número, conhecimento, linguagem, certo e errado, a maior parte do tempo, mas em filosofia investigamos essas mesmas coisas. O objectivo é levar o conhecimento do mundo e de nós um pouco mais longe. É óbvio que não é fácil. Quanto mais básicas são as ideias que tentamos investigar, menos instrumentos temos para nos ajudarem. Não há muitas coisas que possamos assumir como verdadeiras ou tomar como garantidas. Por isso, a filosofia é uma actividade de certa forma vertiginosa, e poucos dos seus resultados ficam por desafiar por muito tempo".
Cf. Thomas Nagel, Que quer dizer tudo isto?, Gradiva, pp. 8-9.
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Sábado, 14 de Novembro de 2009
"O Dia da Filosofia"
Anselmo Borges escreveu uma interessante crónica no DN sobre a Filosofia:
«No próximo dia 19, celebra-se o Dia Internacional da Filosofia. Para chamar a atenção para a sua importância fundamental.
Mas, afinal, o que é e para que serve a filosofia? D. Huisman e A. Vergez, numa bela introdução à sua temática, escrevem, não sem razão, que há duas palavras que fazem do Hamlet "a peça filosófica por excelência". Primeiro, há o famoso solilóquio: "To be or not to be: that is the question" - ser ou não ser: eis a questão -, e, depois, quando Polónio pergunta a Hamlet o que lê, este responde: "Words... words... words" - palavras... palavras... palavras... Alguns pensarão que a filosofia não passa de um jogo de palavras. O que é facto é que a filosofia tem como questão essencial o ser: "Porque há algo e não nada?"
Mãe de todas as ciências, a filosofia não é uma ciência no sentido estrito, como hoje a entendemos. Daí que nenhum dos sistemas filosóficos obtenha consenso universal. Assim, quem não toma atenção, ao olhar para a história da filosofia, pode ter a sensação de um montão de ruínas. Mas o filósofo é isso mesmo: filósofo. Não é sábio, mas amante da sabedoria. K. Jaspers acentuou: a filosofia "trai- -se a si mesma quando degenera em dogmatismo, num saber fixado numa fórmula, definitivo, completo. Fazer filosofia é estar a caminho; as perguntas em filosofia são mais essenciais do que as respostas e cada resposta converte-se numa nova pergunta".
Montaigne escreveu que "filosofar é aprender a morrer". Portanto, a filosofia também é arte de viver. No espanto interrogador: foi o espanto que levou os primeiros pensadores às especulações filosóficas, escreveu Aristóteles, seguindo o mestre, Platão. Por isso, Kant preveniu que a filosofia não se pode aprender nem ensinar, apenas se pode aprender a filosofar. Foi essa também a lição de Sócrates, o mártir da filosofia. Com o seu método - a ironia e a maiêutica -, ia derrubando o falso saber, assente na ignorância petulante, e, obrigando a reflectir, servia de parteiro à verdade. Acusado de ateu e corruptor da juventude, não temeu a morte. Pelo contrário, enfrentou-a com dignidade, avisando os seus concidadãos: "Obedecerei mais ao Deus do que a vós e enquanto viver não deixarei de filosofar e interrogar-vos: ateniense, como é que te não envergonhas de só pensar em amontoar riquezas, em adquirir honras, e desprezas os tesouros da verdade e da sabedoria e não trabalhas para tornar a tua alma tão boa quanto pode sê-lo?"
Filosofar é um trabalho de reflexão, isto é, tem a ver com aquele movimento do espírito que volta a si mesmo, pondo em questão os conhecimentos que já tem, a caminho de um saber do saber, consciente e crítico, e dando razão das coisas, do que é. Neste sentido, a vida verdadeiramente humana é filosófica, ao colocar-se no plano da inquirição racional livre e do constante pôr em questão. A filosofia tem os pés bem assentes na terra, ao contrário do que pensou a jovem serva da Trácia, que se riu de Tales que, ocupando-se de astronomia, caiu num poço enquanto olhava para o céu. O filósofo, indo à raiz das questões, não abandona o mundo: o que alimenta a sua reflexão são os problemas essenciais do mundo e do homem.
Kant resumiu a sua tarefa em três perguntas fundamentais: "Que posso saber?, que devo fazer?, que me é permitido esperar?" Questão decisiva é a primeira: a do conhecimento, que coloca toda a problemática das ciências e da metafísica. A segunda põe em marcha uma filosofia da acção. A terceira refere-se ao sentido: estamos entregues a forças cegas?, qual é o significado do homem no mundo? Responder a estas três perguntas seria responder também à quarta: "O que é o Homem?"
Disse-se que a filosofia é "serva da teologia". Mas Kant observou ironicamente que a serva tanto pode ir atrás, levantando o manto da sua senhora, como ir à frente com uma tocha acesa, iluminando o caminho. De qualquer forma, o filósofo verdadeiro não cai no dogmatismo: é crítico, humilde e tolerante na busca sem fim da verdade. Porque, como escreveu Unamuno, "nada do que verdadeiramente conta pode provar-se nem refutar-se". A razão, percorrido todo o seu caminho, sabe que acende a sua luz na noite do mistério».
Fonte: http://dn.sapo.pt/inicio/opiniao/interior.aspx?content_id=1420263&seccao=Anselmo%20Borges&tag=Opini%E3o%20-%20Em%20Foco
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