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    Sexta-feira, 7 de Janeiro de 2011

    Contra o "Eduquês"

    Terça-feira, 1 de Setembro de 2009

    Filosofia Prática (2)

    Para sondarmos outras sensibilidades da recente temática da Filosofia Prática entrevistamos o dr. Eugénio Oliveira que é director da Associação Portuguesa de Ética e Filosofia Prática. Ele dá-nos a sua visão interessante sobre uma filosofia mais aplicada ao concreto, à vida e existência. Vale a pena ler...

    1. Qual entende ser o papel do filósofo no mundo social de hoje?
    O Filósofo terá sempre que situar a sua actividade na esfera da praxis cultural e ser um impulsionador de novas mentalidades que permitam o aperfeiçoamento da humanidade. O Filósofo não poderá ser apenas um académico ou um intelectual onde o pensar possa ser estéril mas um ser que ande pelas “ ruas do mundo” compreendendo esse mesmo mundo no sentido de o tornar melhor. O Filósofo deve ser um interveniente e ter voz na sociedade em vários domínios e áreas que lhe são familiares: a educação; a política; a ciência por exemplo pois as sua competências permitem-lhe isso em questões de ética educacional, ética médica ou empresarial. Hoje, os Filósofos não se devem remeter apenas ao seu papel de professores, existe para além da docência outras actividades onde a sua utilidade é evidente. Defendo que os Filósofos devem prepararem-se para exercerem várias actividades e utilizar os seus conhecimentos ao serviço de instituições, organizações e empresas. Veja-se o exemplo de Tom Morris, de como um Filósofo, aplicando a Filosofia ao mundo dos negócios pode melhorar as empresas e ao mesmo tempo fazer disso uma profissão. Em conclusão considero que o Filósofo pode ser um catalizador de mudança na sociedade, uma mais valia na promoção de valores e de promoção da ética em diversas áreas.

    2. O que é a APEFP?
    A Associação Portuguesa de Ética e Filosofia Prática é uma associação de cariz sócio-cultural e científica, sem fins lucrativos e cujo fim é divulgação, promoção, formação e investigação na área da ética e filosófica prática e isto porque os elementos fundadores da Associação observaram que em Portugal e ao contrário do que acontece noutros países não existem associações deste género. Os sócios fundadores, todos com curriculum na área da Filosofia, pensaram e estruturaram a Associação de uma forma sólida para que o projecto não passasse de uma quimera. Assim, a APEFP é constituída para além dos seus órgãos sociais pelos Departamentos: Práticas Éticas e Filosóficas; Formação profissional; Educação; Estudos. Tem ainda uma Coordenação de Ética Médica e uma Comissão de Ética e Deontologia. A Direcção da APEFP pretende que este projecto seja uma mais valia a nível nacional e nesse sentido está a desenvolver um conjunto de acções que divulgam a Associação e os seus propósitos de tornar a sociedade mais conhecedora da utilidade da ética e da Filosofia prática quer para a formação cívica do ser humano quer para a sua formação cultural.
    Após a sua criação e logo nestes primeiros dois meses a APEFP tem tido uma aceitação e um interesse peculiar por parte da sociedade civil e da comunicação social pelas suas actividades e dinâmica criada. A APEFP e a sua Direcção tem recebido de vários quadrantes a satisfação por este projecto, sustentado numa liderança em que a experiência no Associativismo dos seus elementos é a mais valia.

    3. Em que consiste o aconselhamento filosófico?
    Eu prefiro chamar Consultoria ou Assessoria Ética e Filosófica e não aconselhamento porque esse nome pressupõe ao cliente que vai a uma consulta filosófica para obter alguns conselhos para tomar as suas decisões ou resolver os seus dilemas éticos ou filosóficos e isso não e verdade. A Consultoria ética e Filosófica consiste essencialmente em aplicar os ensinamentos da Filosofia aos problemas quotidianos da vida pessoal, social e profissional.
    A Consultoria Filosófica é assim uma actividade cujo profissional nesta, área, através das suas competências e usando as metodologias próprias , essencialmente centrando-se no diálogo e na empatia, consegue e ajuda a ultrapassar esses mesmos problemas.
    O Consultor será um facilitador que conduz a pessoa a atingir a Ataraxia, ou seja, a tranquilidade da alma e do seu pensamento, permite dar ânimo ás ideias, discernimento, pretende fazer com que o consultante atinja um estado de felicidade e a viver melhor.

    4. O que é que uma pessoa pode esperar quando se dirige a uma consulta de aconselhamento filosófico?
    Eu, como Consultor Ético e Filosófico não sou mais do que um coach e assim poderei chamar também à Consultoria Filosófica Coachiing Filosófico e porquê? Porque o papel do Consultor deve ser essencialmente o de estimular o pensamento e ajudar as pessoas a remover os seus obstáculos interiores, de forma a libertar aptidões nunca antes reveladas. É isto que podem esperar os clientes, ou seja, a consultoria ética e filosófica adopta uma perspectiva optimista das pessoas, "despertando" as suas capacidades. Assim o Coach Filosófico poderá ser importante nas segintes situações:
    - Quando há conflitos de valor, de expectativas.
    -Quando novas decisões estão a ser procuradas por parte da empresa.
    -Quando um conhecimento especializado é fundamental para reverter um padrão comportamental.
    -Quando é necessário desenvolver uma cultura de inovação nas empresas;
    -Quando há necessidade de formar quadros técnicos em motivação, liderança, responsabilidade social, ética e códigos de ética.
    - Quando há necessidade de preparação e acompanhamento de processo de mudança
    -Quando existam conflitos no ambiente organizacional
    -Quando é necessário um desenvolvimento de Competências sociais
    -Quando se tem necessidade de comunicar melhor consigo próprio e com os outro.

    5. O aconselhamento filosófico é uma alternativa à psicologia e à psiquiatria?
    Penso que não. Não podemos ver a Consultoria Ética e Filosófica como uma alternativa, pois quer a Psiquiatria e a Psicologia têm metodologia próprias no tratamento dos seus pacientes e com mais ou menos êxito também tem a finalidade de resolver problemas. A questão da Consultoria Filosófica penso ser diferente pois o plano dos problemas a tratar são problemas do quotidiano, dilemas morais ou éticos e meramente filosóficos, ou seja, problemas normais. Vejo a Consultoria mais como uma possibilidade, mais uma ajuda possível para resolver problemas às pessoas que não do foro psiquiátrico, mas problemas que apenas com a metodologia do diálogo podem ser tratados. O Consultor Filosófico tem de ser visto como um especialista do Diálogo, como um técnico dotado de competências para fazer discernir os clientes as razões e os porquês do seu estado de alma ajudando-o a atingir a ataraxia. Assim vejo a Consultoria mais como outra possibilidade que se pode ter para resolver situações pessoais ou em empresas. Parece-me ainda que a Consultoria Filosófica será útil em algumas circunstâncias como possibilidade multidisciplinar, como por exemplo, em doentes com doenças terminais em que a Ciência já nada pode fazer e a Filosofia ser uma via de compreensão do problema.

    6. Consegue-se viver de filosofia prática (aconselhamento filosófico, filosofia para crianças, ética empresarial, etc) em Portugal?
    Considerando que a actividade da filosofia e da ética prática em Portugal é ainda uma novidade na sociedade civil, são áreas ainda embrionárias e onde existe um terreno enorme para progredir. Parece-me e tal como noutros países acontece, que a área da ética empresarial é a área em que, hoje e no futuro, poderá ser mais útil e como tal, quer como consultor interno ou externo, será uma profissão a ter em conta. As empresas de futuro já assumiram o caminho da responsabilidade social e do aperfeiçoamento ético e daí a assessoria ser uma necessidade pois a credibilidade da empresa passa por aí, por exemplo com a entrada de assessores nesta área para as empresas tal como tem acontecido em vários países.
    Quanto à Filosofia para Crianças , embora haja alguma divulgação, Formação e algum material didáctico não constitui possibilidade de se tornar uma actividade permanente no ensino em Portugal. Ela existe apenas como sessões de demonstração em algumas escolas, ATls ou então como complemento curricular no 1º Ciclo mas em escassíssimas escolas do País. Existe sim, pessoas interessadas nesta área que têm feito um esforço na sua promoção. A Dra. Joana Sousa é talvez umas das poucas pessoas em Portugal que com a Filosofia com Crianças praticamente consegue tirar proveitos através das suas acções e Workshops.

    7. Quer-nos falar sobre a filosofia para crianças, os cafés filosóficos, filosofia na empresa, e pertinência destas actividades na sociedade?
    São actividades muito interessantes e com aspectos positivos pois para além de envolver a comunidade traz para o debate questões importantíssimas. Os Cafés Filosóficos têm a sua origem em 1992 em França através de Marc Sautet e proliferam hoje um pouco por todo o mundo e podem considerarem-se encontros que se realizam em espaços culturais e que permitem a todos os presentes participar de uma forma informal em debates sobre temas e assuntos da existência humana e a que todos interessa. Estes Cafés Filosóficos e que a APEFP também tem realizado deve possuir um regulamento próprio cujos presentes devem conhecer pois exige-se a cordialidade do debate e ausência de ataques pessoais, argumentando-se apenas o assunto em questão. Os Cafés Filosóficos são muito frequentados e têm tido um forte impacto na sociedade civil.
    A Filosofia na Empresa começa também a ter um papel importante pois como já referi anteriormente noutra questão, hoje as empresas credíveis perceberam a importância da Filosofia dentro da empresa. O seu papel é importante ao nível da formação interna dos quadros superiores essencialmente na vertente da liderança e da motivação. Pessoalmente, considero muito importante o diagnóstico de satisfação e de ambiente ético da empresa que deve ser efectuado e que o Filósofo tem uma função importante. Tom Morris é um exemplo de como a Filosofia dentro da empresa é importante para os negócios e para a excelência da empresa. A sabedoria filosófica é um manancial inesgotável para as empresas.

    8. Que perspectivas pode ter um recém-licenciado em filosofia para exercer uma profissão em Portugal?
    A perspectiva do ensino deve ser colocada de parte por parte do recém licenciado em Filosofia, embora tenha no campo da Formação áreas nas quais poderá leccionar, tendo que para isso obter o CAP.
    As áreas das práticas éticas e filosóficas poderá ser uma possibilidade de futuro mas a mera licenciatura em Filosofia não chega. Assim, o recém licenciado deverá obter outra certificação como por exemplo em Coaching que é uma actividade de futuro. Também a entrada em empresas em Ética empresarial ou Filosofia empresarial é uma possibilidade pois a NP 4460 obriga as empresas a respeitarem e promoverem a ética e a responsabilidade social.

    Domingo, 30 de Agosto de 2009

    Filosofia para Crianças (2)

    A propósito da temática da filosofia para crianças decidimos entrevistar mais uma grande especialista de FpC a nível nacional. A dr. Joana Sousa é certificada em Filosofia para Crianças e no método Six Thinking Hats®. Nesta entrevista ela conta-nos a sua experiência...

    1. Qual entende ser o papel do filósofo no mundo social de hoje?
    O filósofo viu o seu papel reduzido ao trabalho académico até há muito pouco tempo: hoje já conhecemos notícias de grandes empresas que recrutam licenciados em Filosofia, para a função de consultores, por exº. Considero que o movimento das novas práticas filosóficas, onde se insere a consultoria filosófica e a Filosofia para Crianças, constituem uma esperança, um caminho para um olhar diferente sobre o filósofo. Pode ser que a filosofia ganhe um novo fôlego e consiga marcar um lugar ao sol, do qual tem vindo a ser arredada.

    2. Em que consiste a filosofia para/com crianças?
    No meu entender, a Filosofia para Crianças (FpC) consiste numa prática de competências do pensar. Costumo usar a imagem do ginásio: nas sessões de FpC temos oportunidade de treinar os músculos do pensamento, questionando, reflectindo em grupo e assumindo posições. O motivo desse «treino» pode ser um texto, uma imagem, um exercício de criatividade; os recursos podem ser diversos, pois o importante é o processo de pensamento que ocorre em grupo. Mais importante do que os resultados dos ateliers (um desenho e uma frase, por exº) é o observar o modo como as crianças descobrem que «trabalhar com a mente é divertido».

    3. O que é que os pais podem esperar de um filho quando o “matriculam” em filosofia para/com crianças?
    Neste momento, em Portugal, ainda não dispomos de instrumentos avaliativos que nos permitam apresentar resultados concretos e trabalhados sobre os efeitos da Filosofia para Crianças. A própria disciplina ainda não se constitui enquanto disciplina; está presente sob a forma de AEC (actividades extra curriculares) ou como uma actividade que os Centros de Formação e ligados ao ensino oferecem. Alguns colégios e escolas particulares já proporcionam a FpC como actividade facultativa. Não podemos ter a ilusão de que numa hora de sessão ou atelier se cria uma comunidade de investigação e todos as crianças apreendem TODAS as noções de pensamento crítico, criativo e cuidativo! Sem continuidade isso não é possível, pois a prática constante é fundamental nesse processo. As crianças que participam de forma continuada acabam por exprimir que a Filosofia lhes permite «pensar com a cabeça», «pensar como as coisas são».

    4. Filosofia “para” crianças ou filosofia “com” crianças?
    Qualquer uma das expressões me agrada. E utilizo-as frequentemente, sem preconceito. Numa sessão de FpC não se pode esperar que aconteça Filosofia, no sentido mais clássico do termo. O que acontece é uma prática das competências do pensar. Sabemos que o espanto filosófico é muitas vezes ilustrado com o espanto da criança, que fica perplexa e olhar para as coisas como se fosse a primeira vez. Mas se as crianças são filósofos em ponto pequeno, porque é que as sessões são, por vezes, tão difíceis de realizar? Note-se que esta dificuldade é que transforma a sessão em desafio para o facilitador: trabalhamos sem rede, porque o nosso papel não é o de direccionar os ateliers no sentido daquilo que gostaríamos de trabalhar, mas de atender às solicitações do grupo que temos perante nós. Talvez a expressão correcta seja «sessão de filosofia das crianças» - porque no fundo a sessão pertence-lhes!

    5. Qual é a importância da filosofia para/com crianças?
    Tal como já afirmei anteriormente, a mais valia desta disciplina é a possibilidade de colocar em prática as competências do pensamento crítico, criativo e cuidativo. Estas são dimensões apontadas pelo «pai» da FpC, Mathew Lipman. Conceptualizar, problematizar, criar, ouvir o outro, ter a capacidade de esperar pela sua vez, tomar decisão, mudar de ideia – a FpC pode proporcionar isso mesmo. Como dizia uma aluna minha há dias, de dez anos, «não pensem que é só para as crianças, a Filosofia é para todas as idades.»

    6. Em que consiste o método “Six Thinking Hats®” de Edward de Bono?
    Trata-se de uma técnica que permite a organização do pensamento: cada chapéu tem uma cor, cada cor significa uma linha de pensamento. Os seis chapéus podem funcionar como um «código» que me permite identificar em que posíção se encontra a pessoa com quem falo. Permite que eu use o mesmo chapéu do outro e assim torne mais fácil e acessível o processo comunicativo. Com as crianças torna-se divertida a utilização da técnica (e dos próprios chapéus) e facilmente interiorizam as cores e os significados.

    7. Consegue-se viver de filosofia para/com crianças em Portugal?
    Penso que não estão reunidas as condições para isso. A FpC nem sequer é uma disciplina propriamente dita. Não conheço ninguém que o faça. Mas isso não faz com que seja impossível!

    8. Que perspectivas pode ter um recém-licenciado em filosofia para exercer uma profissão em Portugal?
    Em termos profissionais, um recém licenciado em Filosofia tem que estar preparado para trabalhar noutra área; quem sabe a especializar-se numa área diferente e assim iluminar a sua especialização com a luz do saber filosófico. Podemos e devemos conduzir esforços no sentido de procurar exercer profissão na área filosófica. Mas repare-se que a Filosofia é um saber transversal a todos os outros, pelo que os filósofos «são capazes de quase tudo», como costumo dizer de forma irónica.

    Filosofia para Crianças

    Actualmente a filosofia para crianças é uma temática que começa a crescer em Portugal. Decidimos entrevistar uma especialista nesta àrea para darmos a conhecer melhor o que é a Filosofia para Crianças. A dr. Laurinda Silva é formadora certificada pelo Institute for the Advancement of Philosophy for Children - IAPC.

    1 - Qual entende ser o papel do filósofo no mundo social de hoje?
    Penso que não se afasta muito do seu papel de sempre: estímulo ao questionamento; compromisso com a clareza e a busca da verdade (e neste sentido moderadora entre o saber especializado).

    2 - Em que consiste a filosofia para/com crianças?
    Consiste na dinamização de sessões onde as crianças são estimuladas no sentido de apurar e treinar a atitude filosófica, que vive da curiosidade. Curiosidade esta natural em todos os seres humanos mas que factores como a educação e a escolarização, … castram. Este treino incide ainda sobre o pensamento crítico, o pensamento criativo e o pensamento de cuidado (Caring Thinking).

    3 - O que é que os pais podem esperar de um filho quando o “matriculam” em filosofia para/com crianças?
    Os pais podem esperar que os seus filhos:
    Não desistam facilmente de uma pergunta e tentem obter uma resposta razoável para ela, o que não se coaduna propriamente com «é assim porque eu digo que é assim» ou «ainda és muito pequenino»…;
    Os obriguem a parar para pensar;
    Saibam ouvir e fazerem-se ouvir;
    Olhem para o desconhecido com tranquilidade e o apreciem como algo a descobrir;
    Se tornem cada vez mais autónomos e responsáveis (comprometendo-se com o seu pensamento);
    …..

    4 - Filosofia “para” crianças ou filosofia “com” crianças?
    Do conceito original, de Lipman, Filosofia para Crianças (Philosophy for Children), embora isso choque com a concepção de Comunidade de Investigação, que sublinha a não unidireccionalidade presente numa sessão de Filosofia para Crianças.
    No projecto que desenvolvi este ano na ES Tomás Cabreira: Filosofia com Crianças.

    5 - Qual é a importância da filosofia para/com crianças?
    Existem três aspectos da actividade filosófica que exprimem a exigência complementar do simples exercício da palavra e da utilização da leitura e da escrita (como o pratica já qualquer criança do ensino primário) e ilustram a importância da Filosofia para Crianças.
    O conjunto dos três registos resumem-se à ideia de pensar por si mesmo, ser si mesmo, e ser e pensar no seio do grupo.
    A Filosofia para Crianças permite o exercício de ser si mesmo e ser o seu pensamento; com a responsabilidade da identidade através das nossas escolhas e juízos.
    A prática do diálogo Socrático encoraja a dimensão do “pensarmos juntos”. Não pensamos contra o outro ou para nos defendermos do outro, porque este nos assusta ou nos faz concorrência, mas graças a ele, através dele.
    A Filosofia para Crianças é uma forma de contrastar com a situação anti-reflexiva dos dias de hoje e favorecer uma atitude democrática.

    6 - Consegue-se viver de filosofia para/com crianças em Portugal?
    Nada como tentar!!

    7 - Que perspectivas pode ter um recém-licenciado em filosofia para exercer uma profissão em Portugal?
    As que quiser.

    Quinta-feira, 27 de Agosto de 2009

    Filosofia Prática

    Fiz a seguinte entrevista ao Dr. Jorge Humberto Dias, que é um grande especialista na área da filosofia prática.

    Qual entende ser o papel do filósofo no mundo social de hoje?
    JD – Penso que a Filosofia Social é hoje uma área cada vez mais
    importante. Com a complexificação do tecido social, sobretudo ao nível
    das relações pessoais e institucionais, considero um bom investimento
    profissional e social, por parte dos alunos universitários, a
    especialização em Filosofia Social Aplicada. Tal como acontece noutras
    áreas (académicas e profissionais), desde o Direito à Educação, passando
    pelo Serviço Social, penso que é uma resposta extremamente actual e com
    sentido, a Filosofia dedicar-se à análise e intervenção social, nos mais
    variados domínios.
    Para isso, necessitamos da articulação entre as ofertas universitárias
    (que devem ser cada vez mais diversificadas, indo ao encontro dos
    interesses dos alunos, assim como das reais necessidades das sociedades
    e das pessoas), as entidades de estágio, as associações profissionais na
    área da Filosofia e o mundo social em geral (empresas e organizações
    não-governamentais, por exemplo).
    O contributo do filósofo sempre foi importante para o debate de ideias,
    para a formação das pessoas e para o desenvolvimento das organizações
    sociais. No entanto, vivendo hoje num mundo cada vez mais tecnicizado e
    profissionalizado, com fortes influências sociais e tecnológicas, os
    licenciados em Filosofia deverão, também, obter formação especializada e
    experiência profissional nas diferentes áreas de intervenção social.
    Está aqui em causa a questão da habilitação profissional para uma
    determinada função. Neste âmbito, sabemos que as instituições de
    formação, em Portugal, estão ainda em processo de desenvolvimento, no
    que diz respeito à implementação de cursos de formação inicial
    (universitários) e de formação contínua (profissionais) e de grupos de
    investigação académica/científica.


    Em que consiste o aconselhamento filosófico?
    JD – Trata-se de uma área de aplicação da Filosofia, que consiste
    no fornecimento de um serviço especializado de aconselhamento, a
    pessoas ou instituições/organizações, utilizando para isso o
    domínio dos conhecimentos e dos métodos filosóficos, na abordagem
    a uma determinada situação. Neste processo, é necessário dominar
    competências de aconselhamento, assim como competências
    filosóficas.
    Tal como existem outros aconselhamentos, o jurídico, o financeiro, o
    psicológico, o dietético, o empresarial, o imobiliário, o social, etc.,
    também o Aconselhamento Filosófico pretende ajudar o seu cliente a
    melhorar a sua situação concreta de vida. Em geral, o conselheiro
    filosófico trabalha as várias dimensões filosóficas da vida e do
    pensamento do cliente.


    O que é que uma pessoa pode esperar quando se dirige a uma consulta de
    aconselhamento filosófico?

    JD – O consultante, quando procura um serviço de aconselhamento,
    pretende obter uma espécie de ajuda. Actualmente, em Portugal, já muitas
    pessoas conhecem o tipo de serviço que o Aconselhamento Filosófico pode
    fornecer. No entanto, ainda é frequente encontrar pessoas, com problemas
    específicos da sua situação de vida e/ou da sua subjectividade, e que
    depois de terem experimentado outros tipos de ajuda, decidem
    experimentar a ajuda filosófica. Estas, na sua larga maioria,
    desconhecem a metodologia de trabalho utilizada pelo conselheiro
    filosófico.
    Por outro lado, já vamos encontrando em Portugal consultantes que
    procuram intencionalmente este tipo de serviço, pois têm noção da sua
    utilidade nas suas vidas/pensamento.
    Podemos ver alguns exemplos: a felicidade é, quanto a mim, um problema
    humano e filosófico, que poderá levar um consultante a solicitar os
    serviços de um conselheiro filosófico, e o qual poderá ser útil na
    reflexão metodológica sobre o problema, pois a concepção de felicidade
    tem uma relação única e insubstituível com a concepção de vida do
    consultante.
    Problemas relacionados com o sentido da vida e da morte, com a
    compreensão relativa a um conflito de valores, com a interpretação
    relativa a um conjunto de ideias e acções, com a análise de uma situação
    pessoal complexa, etc.
    Hoje, vemos empresas a contratar licenciados em Filosofia, pois conhecem
    os benefícios que o trabalho filosófico pode ter na gestão empresarial,
    desde as questões éticas/deontológicas às questões de recursos humanos,
    de filosofia da empresa, de qualidade, etc.


    O que é o método “PROJECT@”?
    JD – É uma forma de trabalhar a consulta filosófica. Ao longo da minha
    carreira como Consultor Filosófico, fui-me apercebendo de alguns
    instrumentos específicos e próprios que utilizava nas consultas
    individuais e organizacionais. Aos poucos fui escrevendo e
    esquematizando esses instrumentos, pois considero fundamental
    partilhá-los com os colegas de profissão, assim como com os leitores
    interessados em conhecer e explorar esta área de trabalho.
    PROJECT@ é assim uma metodologia criada para o desenvolvimento da
    consulta filosófica individual, embora possa ser adaptada à consulta
    organizacional. Tal como acontece em todas as criações, as influências
    são várias: a filosofia dos clássicos antigos (o questionamento de
    Sócrates sobre as ideias essenciais da vida, a metodologia sistemática
    de Aristóteles, os conselhos de Epicuro, Séneca, Epicteto e Marco
    Aurélio), a filosofia do existencialismo (escola que desenvolveu várias
    análises sobre a existência humana em geral, embora alguns autores
    tenham abordado, mais em específico, alguns tópicos como por exemplo, a
    liberdade, a responsabilidade, o sentido da vida, a felicidade, o
    suicídio, a morte, os projectos, etc.), a filosofia vitalista
    (nomeadamente de autores espanhóis, como Ortega e Gassett e Julián
    Márias) e o movimento contemporâneo da Philosophical Practice, iniciado
    em 1981 por Gerd Achenbach (com os seus diversos projectos: gabinete de
    consulta filosófica, centro de formação de praticantes de filosofia e
    associação nacional e internacional de filosofia prática) e nos anos 90
    com Lou Marinoff e Ran Lahav (com a organização do primeiro congresso
    internacional de prática filosófica).


    O aconselhamento filosófico é uma alternativa à psicologia e à
    psiquiatria?
    JD – De facto, alguns autores têm abordado o Aconselhamento
    Filosófico partindo de uma comparação com as ciências da psique.
    No que diz respeito ao meu ponto de vista, já em várias
    entrevistas me posicionei em relação a este tema: penso que
    estamos perante áreas diferentes e que utilizam conceitos e
    metodologias diferentes. Entendo que possam existir alguns autores
    a explorar o facto de alguns filósofos, no passado, terem dedicado
    os seus estudos às três áreas em conjunto. Mas com a
    especialização de cada área, na época contemporânea, já não faz
    sentido confundirmos Filosofia, Psicologia e Psiquiatria. São
    áreas que trabalham de modo diferente e que tratam problemas
    diferentes. No entanto, há uma questão que pode ser pertinente
    analisar, que é a utilidade que cada uma pode ter no processo de
    ajuda a um determinado consultante. Também poderá ser objecto
    interessante para a investigação académica, a definição clara de
    qual a área indicada para trabalhar a situação concreta do
    consultante que decide solicitar os serviços de um destes
    profissionais: consultor filosófico, psicólogo ou psiquiatra.
    Para terminar a minha resposta a esta pergunta, recordo umas jornadas de
    saúde e de toxicodependência, em que participei como conferencista
    convidado, no painel dedicado ao trabalho da ética em equipas
    multidisciplinares. Com este exemplo, pretendo transmitir a minha
    posição, ou seja, penso que na actualidade, os problemas das pessoas e
    das organizações são tão complexos, que só um trabalho de equipa,
    composto por profissionais de diferentes áreas, poderá ajudar a
    desenvolver novas formas de gestão, resolução, etc.

    Consegue-se viver de filosofia prática (aconselhamento filosófico,
    filosofia para crianças, ética empresarial, etc) em Portugal?

    JD – Esta é mais uma boa questão. Eu não conheço todos os
    profissionais que se dedicam, em Portugal, à Consultoria
    Filosófica. A experiência que tive como presidente da Associação
    Portuguesa de Aconselhamento Ético e Filosófico, entre 2004-2008,
    permitiu-me verificar que não existia nenhum associado que vivesse
    exclusivamente da prática profissional da filosofia. A sua grande
    maioria eram professores de filosofia do ensino
    secundário/superior que exerciam a actividade de consultoria
    filosófica em regime de acumulação.
    Relativamente à filosofia para crianças, a situação é diferente, pois
    estamos perante uma área que também faz parte do paradigma mais
    utilizado em Portugal: o estudo da disciplina de filosofia no sistema de
    educação. Sei que existem alguns professores a leccionar a disciplina de
    filosofia para crianças em escolas do 1º e 2º ciclo do ensino básico,
    que optaram por apresentar esta oferta. Outros, têm-se dedicado à
    formação de professores e outros ainda, têm participado em
    ateliês/oficinas de curta duração.
    Quanto à ética empresarial, a situação é ainda mais peculiar, dado que a
    maioria dos profissionais que trabalha esta área não tem qualquer
    formação na área das ciências filosóficas. No entanto, existem alguns
    licenciados em filosofia a desenvolver projectos nesta área.
    Resumindo, penso que é necessário criar, em primeiro lugar, as condições
    necessárias e legais para o exercício de uma profissão. Só nessa base
    fará sentido perguntar se existem profissões na área da filosofia. Como
    todos sabemos, em Portugal só está prevista a profissão de professor de
    filosofia. As outras saídas profissionais, anunciadas pelas
    universidades, dependem da “boa vontade” das entidades empregadoras.
    Portanto, com este cenário, somos levados a dizer que há ainda um longo
    caminho a percorrer por parte das associações profissionais do sector.
    Os consultores filosóficos, a exercem a sua actividade em Portugal, têm
    preenchido o seu IRS com a designação da categoria profissional de:
    «Consultores» - também utilizada por outros licenciados, profissionais
    de outros sectores.


    Quer-nos falar sobre a filosofia para crianças, os cafés filosóficos,
    filosofia na empresa, e pertinência destas actividades na sociedade?
    JD – Penso que essas actividades têm de ser organizadas de acordo
    com os interesses dos eventuais participantes. E claramente,
    dependem dos objectivos estabelecidos pelo facilitador. Se o
    público-alvo fôr o cidadão comum, então o filósofo terá de adaptar
    a sua linguagem e metodologia, de modo a que todo o trabalho seja
    perceptível e possa vir a resultar em utilidade. Por outro lado,
    se o público-alvo fôr o próprio filósofo, isto é, em que o
    objectivo seja a formação interpares, então os instrumentos
    técnicos deverão ser suficientemente pertinentes...


    Que perspectivas pode ter um recém-licenciado em filosofia para exercer
    uma profissão em Portugal?
    JD – Na sequência do que eu já disse anteriormente, penso que
    falta uma associação profissional forte na área da filosofia, que
    trabalhe no sentido de promover melhores condições profissionais
    para os licenciados em filosofia, dialogando com vários parceiros,
    desde os organismos governativos, passando pelas universidades,
    pelas empresas, pela comunicação social, etc. Neste processo, é
    essencial a organização de reuniões científicas e profissionais,
    com a presença de personalidades de reconhecido mérito, nacional e
    internacionalmente.
    Penso que os filósofos têm muito a aprender com o trabalho realizado
    pelas ordens profissionais, já existentes no sector da advocacia, da
    medicina, da arquitectura, da engenharia, da economia, etc. Todos
    sabemos que não existem modelos perfeitos, mas a realidade tem mostrado
    que as profissões mais fortes e que subsistem no mercado são aquelas que
    têm melhores formas de organização e que conseguem promover os seus
    serviços e obter condições de trabalho digno, sério e útil.
    No panorama actual, um licenciado em filosofia está dependende da “boa
    vontade” (infelizmente, não no sentido kantiano do termo) das
    instituições com que contactar e/ou da sorte nos concursos de
    professores. Se nalgum momento necessitar de apoio/aconselhamento,
    desconheço se existe alguma associação de filosofia a prestar esse
    serviço aos seus associados. Talvez fosse uma boa ideia, contactar
    algumas empresas de filosofia, que actualmente existem um pouco por todo
    o mundo...

    Segunda-feira, 17 de Agosto de 2009

    Entrevista ao pintor Américo Carneiro


    Américo Carneiro considera que só pode pintar ou desenhar um tema quando ele já faz parte de si. Ou seja, só pode pintar algo pelo qual se encantou porque encontrou um eco nela, ou por qualquer razão ela já estava a construir-se dentro de si. Assim, este pintor reconhece que só pode pintar uma expressão, um olhar, um ser, porque ele já estava dentro de se próprio. Do mesmo modo, Américo Carneiro concebe que o “artista é aquele que é o porta-voz dessa pequena ou grande comunidade, é um porta-voz do tempo que vive, é um porta-voz da sociedade em que está integrado e onde deve procurar estar profundamente integrado nessa sociedade, e deve preocupar-se em ser um porta-voz; não é tanto um estandarte, mas um porta-voz dessa pequena ou grande sociedade”.


    Como surgiu o seu interesse para pintar?
    É difícil… é difícil marcar um momento no espaço e no tempo em relação a essa questão. Porque desde que me recordo, recordo-me sempre da minha grande vontade de me exprimir plasticamente. Mas, recordo-me de um certo aniversário por volta dos 4, 5 anos que me ofereceram um magnífico material de pintura (aguarelas, blocos, coisas maravilhosas) e partir daí comecei a trabalhar na pintura até hoje, já vou nos 52 anos. Foi assim que começou o meu interesse com a oferta de material bom.

    Teve educação artística? Pintores na família? Foi educado familiarmente ou academicamente?
    Tive educação artística na família e na escola, em termos gerais, globais. Praticamente, sou um auto-didacta. Estou na arte, mas vim da licenciatura em direito. Sou um auto-didacta muito assumido.

    A cada quadro corresponde uma ideia?
    Sempre. Corresponde sempre a uma ideia. A todos os níveis. A nível de escolha do tema, de composição, escolha de material, e escolha (porque não) do discurso. Eu há tempos ouvi o pintor Júlio Resende dizer uma coisa admirável. Dizia ele: “Eu pinto porque quero produzir alimento para o espírito”. Eu também admirei profundamente, e arrepiou-me a afirmação do grande génio que é Resende. E arrepiou-me porque senti-me totalmente revisto e totalmente solidário com essa ideia. Penso que cada obra por mais pequena, por mais simples, modesta que ela seja será sempre um pequeno alimento para o espírito.

    Quais são os seus mestres na arte?
    Desde logo, Claud Monet - a liberdade de expressão, o trabalho quase automático, o gesto completamente selvático, o instinto a solta, a evasão do gosto e do gozo da cor, a experimentação cromática, tem tudo. Mas todos os grandes mestres e até mestres menores mas que muitas vezes sendo ilustres desconhecidos conseguiram grandes conquistas em termos experimentais, em termos de uso, e uso fruto de determinados materiais. Sou uma pessoa aberta a todas as influências. Agora, essas influencias têm de me servir a mim, eu não posso deixar-me influenciar por capelas, escolas, mesmo em termos ideológicos, porque a ideologia tem de estar muito presente na arte. A minha defesa foi sempre a defesa intransigente da minha independência, e essa independência passa rigorosamente pela asserção quase fundamentalista do conceito, isto é, tem que ser independente de influencias de bandeiras de, de capelas, de influencias, ou pelo menos tem de tentar ser, e tento trabalhar assim. Agora não há duvida nenhuma, há esse grande génio que foi Claud Monet que me influenciou cabalmente no trabalho, na técnica na revolução que propôs e que consegui levar a cabo, e até em método de trabalho, porque era um homem fabuloso levantava-se as cinco da manhã, levava a família toda que tinha em casa, os amigos (ele tinha vários amigos que inclusivamente tinham caído na ruína) e levava toda a gente e chegou a ter grupos de trinta ou trinta e cinco pessoas que o acompanhavam na aventuras a procura da luz, dos efeitos cromáticos desde o nascer do sol no meio do campo, no meio da neve no meio do orvalho, foi um homem que comprou uma casa com um jardim belíssimo só para poder pinta-la, e eu admiro imenso essa postura, que é também uma postura filosófica.

    Qual foi a obra que mais gostou de pintar? Qual a temática que mais gostou de pintar?
    Há muitas, mas algumas de cariz religiosos e que exigiram mas de mim, por exemplo o Cristo, que comecei a pensar há vários anos, comecei a pensa-lo em 1986 e comecei a executar em 1997 e estou prestes a termina-lo. É uma tela grande. O Cristo que me serviu de modelo, é um Cristo pintado há vários séculos pelo frangélico, um Cristo que está a desaparecer que ele chamou “il cristro driso” é um Cristo derrubado, um Cristo com um véu sobre os olhos, com uma coroa de espinhos, com uma ar profundamente sereno, pacífico e que está a ser agredido de todas as maneiras possíveis e imaginárias. Só que está ser agredido pura e simplesmente fisicamente, à alma não lhe chegam, daí aquela expressão de um enlevo, de um perdão de uma paz de um amor tão imenso que me está a encher de orgulho, além do mais uma tela que está ser pintada ao longo de dez anos, é realmente uma tela que me está a encher de um orgulho muito profundo, de uma grande felicidade até. Aponto esta, mas podia apontar outras que estou a trabalhar há vários anos, mas sobretudo essa. É o Cristo derrubado que curiosamente é um Cristo bem elevado.

    Quando pinta inspira-se numa temática, num objecto exterior a si, ou é puro exercício de intelecção?
    Dizia um mestre pintor chinês do século XVI, “o homem pinta arvore quando já tem a árvore dentro de si” portanto eu só posso pintar ou desenhar um tema quando ele já faz parte de mim. Eu compreendo perfeitamente as palavras do grande mestre chinês. Eu só posso pintar essa árvore que me encantou porque encontrei um eco nela, ou por qualquer razão ela já estava a construir-se dentro de mim. Eu só posso pintar aquela expressão, aquele olhar, aquele ser, porque ele já estava dentro de mim, e eu o reencontrei, ou estou a conhecer, ou estou a aprofundar, o meu amor por ela ou por ele, portanto, qualquer tema serve desde que ele ecoe dentro de mim. Isto o não é snobismo, mas é real.

    Que reacções a sua obra pode despertar nas pessoas?
    Tenho encontrado várias, confesso que esse um aspecto que me fascina dentro da minha obra, porque são várias as temáticas dentro da minha obra. Eu pratico desde a heráldica até ao desenho de cariz etnográfico, pratico uma forma de pintura que raia o surrealismo, porque me permite uma grande liberdade de expressão e de independência, pratico também com grande amor e com grande entrega a pintura paisagística. É uma grande paixão. Curiosamente, a reacção que mais me entristece, tem sido a reacção que eu menos tenho vindo a encontrar nos últimos anos. É a reacção de indiferença. Nunca encontrei ninguém irado, colérico, revoltado com a minha obra, tenho encontrado alguma indiferença aqui e além, ao longo dos anos. E isso é o que mais me magoa. Eu preferia que me agredissem, como fizeram com o Amadeu de Sousa Cardoso no porto, foi agredido e foi levado para o hospital. Eu preferia que me agredissem e que me dessem uma grande tareia, do que expressassem indiferença, porque a indiferença é uma coisa muito fria, cruel, magoa-me. Alguma reacção de inveja, lisonjeia-me. Alguma reacção de desprezo, compreendo perfeitamente e respeito perfeitamente e até paradoxalmente as vezes até agradeço. Daí para cima tenho encontrado muita adesão, muita solidariedade e até mesmo muita exaltação com algumas obras minhas. Tenho sentido que tenho levado algum alimento espiritual e alguma felicidade através das cores ou das formas às pessoas e isso dá-me uma grande alegria. Mas o que mais me assusta como ser humano é a indiferença, que é fria, desprezível, é má. Estou a falar da questão do desprezo não só em meu nome, mas em nome de muita gente que pinta, que está na arte de uma forma ou de outra, e que poderia estar a dizer exactamente a mesma coisa que eu agora te estou a dizer. Mas não que dizer que tenho encontrado muita, até pelo contrário, tenho encontrado muito pouco. Daí para cima, tenho encontrado realmente tudo aquilo que me tem dado muita força para continuar, e tenho encontrado muito amor, solidariedade e demonstração de alegria e felicidade nas pessoas que é uma coisa fabulosa.

    O que pretende transmitir com a sua obra?
    Pretendo transmitir a vida tal como a vivo. Eu não concebo o artista fora da sociedade, em termos teóricos um artista é sempre um ser (homem ou mulher) que vive numa sociedade, nem que seja numa sociedade de cinco. Portanto o que é o artista? O artista é aquele que é o porta-voz dessa pequena ou grande comunidade, é um porta-voz do tempo que vive, é um porta-voz da sociedade em que está integrado e onde deve procurar estar profundamente integrado nessa sociedade, e deve preocupar-se em ser um porta-voz, não é tanto um estandarte, um porta-voz dessa pequena ou grande sociedade; mas deve também faze-lo com honestidade que o levará a transmitir a interpretação da vida, a interpretação de si próprio, a interpretação dos outros, a interpretação do mundo que o rodeia, isto é, a arte é uma posição política na medida em que o artista toma a posição de porta-voz, mas é também um exercício de crescimento de conhecimento, a arte é um exercício de conhecimento das coisas, dos fenómenos das pessoas, dos sentimentos e das coisas. Portanto, o que é que o artista deve fazer? Deve ser um porta-voz, deve expressar correcta e honestamente (e isso é o que conta em arte), a vida que flúi através de si.

    Em que corrente se insere?
    Eu admiro a obra dos grandes surrealistas portugueses, eu poderia dizer-lhe por exemplo o Mário Cesariny de Vasconcelos em todas as suas vertentes como polemista, como conferencista, mas sobretudo como poeta e até como pintor, principalmente até como pintor. Há um surrealista português que me marcou profundamente que eu ainda hoje venero quase, Cruzeiro Seixas, há um ilustre desconhecido António Lisboa que morreu muito precocemente com cerca de 30 anos que foi um grande surrealista no campo do desenho e no campo da poesia. Curiosamente tenho uma grande admiração por todos os surrealistas portugueses, tenho uma grande admiração por todos os passos que eles deram, como homens, como interventores, como artistas plásticos, como poetas. Mas curiosamente não tento seguir-lhes as pisadas em termos estéticos, não propriamente em relação ao Cruzeiro Seixas, não propriamente em relação ao Mário Cesariny, não propriamente no campo do desejo em relação ao António Maria Lisboa ilustre desconhecido e poeta maior do século XX português. Eu revejo-me mais num homem que não se proclamando surrealista, não deixa de ser um homem que impunha a bandeira da grande liberdade estática do surrealismo. Foi o grande mestre Lima de Freitas. As obras dele têm-me servido de inspiração estética e quase material. Não quer dizer que eu o siga, mas é um homem quem me ilumina a mente, me ilumina o coração, e muitas vezes até teoricamente para partir para um quadro ou para uma composição. É curioso porque é um homem que nunca se proclamou um surrealista.

    Pinta para um estrato social específico? Qual o seu público-alvo?
    O que eu tento é integrar-me profundamente na sociedade em que vivo, e portanto não tenho por meta de delimitar-me em determinados grupos sociais, culturais, seja de que guisa for, para os promover porque eu tento promover as pessoas da sociedade onde vivo através da minha arte. Portanto, tenho de ter muito cuidado quando faço um trabalho para não me deixar referenciar por nenhuma franja, e tentar ser o tal porta-voz de exponencialmente todos e não de alguns, ou seja, de uma pequena franja. Portanto, tento representar todos os sectores. Mas não os sectores que estão materialmente delimitados em termos de sociedade (há umas décadas atrás era muito importante para os artistas dizerem que representavam o campesinato, o operariado, ou os valores de conservadores ou valores progressistas) digamos que ultrapassei já esta espécie de infância. Mais uma vez não é snobismo, mas considero uma forma de pensar os fenómenos sociais, bastante infantil e limitada. Portanto com ela não me convenho.

    A arte na actualidade sofre de alguma forma os efeitos da cultura de massas?
    Cada vez mais, e isto por circunstancias tão diversas, mas vamos ver só o campo das arte: deixa-me falar-lhe num nome que nem se quer é português; vou falar-lhe de Andiworom nos anos 70 além de promover que um dia todos nós teríamos direito a um ou dois minutos de fama, pegou nos valores que estão inerentes a maquinização, a industrialização a massificação social que imperava no seu tempo nas sociedades ocidentais e que imperam hoje em dia, graças a globalização, tendencialmente em todo o mundo, e expôs muito bem essas premissas na arte que praticou. Eu posso recordar por exemplo, “Lata de sopa Campels”, que é uma obra fabulosa, bastante explícita, mas posso também, e esta parece ser a melhor maneira de falar dessa reviravolta digamos assim, na forma de ver a arte e a arte como fenómeno social. As repetições quase infindáveis do rosto da Marlin Moron o mesmo rosto, a mesma composição reproduzida ad eternum tendencialmente com cores que apenas iam mudando, uma vez que a composição básica era sempre a mesma. Há aqui um fenómeno de obsessão, um fenómeno de industrialização, um fenómeno de massificação que ilustrou bem os tempos que viriam. O que penso que hoje há é uma arte que nos poderíamos chamar interventiva, uma arte profundamente ideológica, mascarada num experimentalismo bastante seco, um experimentalismo que se quer auto-satisfazer. Há aqui uma espécie de masturbação intelectual que preside à grande arte de hoje. A arte interventiva dos anos 70 tornou-se a arte massificada, a arte sem referências ideológicas. A arte que ainda por cima quer desestruturar todo o legado do passado. E curiosamente se reparar é arte que hoje em dia impera nos circuitos comerciais. E quando falamos nos circuitos comerciais, também não podemos deixar de pensar nos circuitos globais, hoje uma galeria de arte que expõe as suas obras em Lisboa está integrada num circuito que engloba outras galerias em Hoshaka, em Montreal, em Nova York, em Sidney e daqui a pouco possível mente em Pequim. Deixe-me dizer que hoje a arte nos circuitos comerciais mascara muitas vezes operações menos legítimas, menos correctas e mascara muitas vezes operações de branqueamento. A arte hoje em dia é uma fachada para coisas terríveis. Hoje em dia, século XXI os artistas tem de ter muito presente isto e muitos outros factores. Isto por uma questão de empenhamento.

    Verificamos pela sua exposição em Braga que trata de temas como: a religiosidade popular, festas, ambiente telúrico e campestre, história nacional… porque razão trata destes temas? Porquê a tradição? Porquê os motivos históricos?
    Estes trabalhos são trabalhos têm 13 anos suponho. Foram feitos ao longo do ano de 1994 e numa altura em que era bastante nítido que efectivamente aquele mundo, onde as pessoas da minha geração cresceram, num mundo em que eu cresci, eu nasci num Portugal e no ceio de um povo que hoje em dia não sei onde estão. Aquelas referências nas quais eu nasci envolvido, eu nasci envolvido por uma cultura por um povo, por uma língua, por um sotaque por tantas questões de carácter afectivo ate, que eu hoje em dia não sei onde estão. Eu hoje em dia olho para trás e não sei onde está nem o meu povo nem onde está o país onde eu nasci. Quer dizer, nasci integrado numa nação que em 1994, para quem queira passar apenas alguns minutos por dia a rever com calma é nítido, estava a ser pura e simplesmente destruído. Sei que o termo aqui é um pouco pesado, mas nalguns casos até intencionalmente destruído. E daí esta exposição se chamar tradição. Tradição porque? Tradição é aquilo que nós chamamos folclore, na melhor acepção da palavra, isto é, o património de um povo que se revela nos usos e costumes, no cantar, na dança, no trabalho, na relação entre as pessoas, no afecto, nas estações do ano e na forma como essas estações do ano são vividas, globalmente falando uma nação. E portanto esta é de certa maneira uma homenagem a esta nação, a nação onde eu nasci, uma nação grande de coração gordo (não estou a dizer que era uma nação que continha em si o melhor do mundo, mas tinha coisas que eram só suas, que nenhuma outra tinha). Havia necessidade de crescer, havia necessidade de acompanhar os tempos, sem dúvida nenhuma. A Irlanda fê-lo. A Irlanda cresceu e é dos países mais ricos da Europa neste momento. E cresceu porque apostou correctamente na sua tradição, na sua nação, nos factores culturais que fazem parte integrante da sua alma. Apostou nos seus arquétipos e eu gostaria que com Portugal tivesse sido da mesma maneira e portanto, esta foi a forma que eu encontrei de prestar uma homenagem muito sentida a esse povo e a esse país onde eu nasci a 21 de Setembro de 1955, eram as festas grandes da minha terra.

    As suas temáticas condicionam as técnicas?
    Sim! Sem dúvida. Como uma coisa também condiciona a outra. As técnicas também condicionam muitas vezes as temáticas. Porque que se tiver de abordar determinada temática, mas se não tiver capacidade técnica para chegar lá, ou seja, para fazer um trabalho honesto, elevado ao extremo, então é melhor nem pensar nisso. O contrário também acontece. Se quero abordar determinado tema tenho que utilizar uma técnica adequada, que domine. É uma questão de honestidade. Além do mais, a pintura permite lidar com temas bastante abstractos, vagos… o exemplo disso é que lidamos com cores quentes e frias… se não souber abordar a paleta das cores frias ou quentes é melhor não fazer nada.

    A pintura constitui uma necessidade, vocação ou exigência?
    Sem dúvida. Tem havido bastantes autores em todas as artes que dizem que não consigo viver sem… (pintar, fazer arquitectura, escrever…). Não consigo conceber a minha vida sem pintar.

    Aliena-se a alguma obra sua? Ou algumas obras de arte são inalienáveis?
    É relativo. Acontece esse fenómeno, é uma espécie de criação de um fantasma. Nós quando dizemos que uma nossa é um filho nosso estamos a criar um fantasma, uma entidade a que nos ligamos, a quem respondemos. Se há entidades desses em que não conseguimos cortar o cordão umbilical, há outro em que sempre com muita dor nós conseguimos cortar esse cordão umbilical. Relativamente, isto é, conseguimos vende-lo ou doá-lo. Vi muitas obras minhas partirem. E fica aquela saudade, mas a saudade é uma forma de cultivar uma presença em nós. Portanto, a obra que partir, não partiu totalmente. Esse filho foi, mas fica para sempre em nós. O artista consegue esta coisa maravilhosa de ficar “grávido”, “parir”, e criar um filho… e depois a certa altura é capaz de lhe dizer “abre as asas e chegou a altura de saltar do ninho. E regressa um dia”. Há uma ligação com esse Cristo de há bocado. Vou contar uma história: Leonardo Da Vinci trabalhou sempre por encomenda. Houve duas obras que não largou e colocou à beira da cama, quando sabia que ia morrer. Uma obra foi o S. João Baptista. O outro foi, curiosamente, Gioconda. Havia muitas razões para isso. Mas é curioso porque é que o Leonardo nunca conseguiu lagar aqueles dois quadrinhos. Segundo a lenda o último olhar foi para S. João Baptista. Desses dois quadros ele não se quis livrar-se, e foram encomendas! Porque será? É matéria para reflexão. Esse Cristo, gostaria de morrer muito velhinho como o mestre Artur Loureiro… gostaria de morrer no meio de uma serra, pobrezinho, muito velhinho e a trabalhar. Mas gostava de ter esse quadro, esse Cristo, a meu lado.

    Porque pinta brasões? Isso poderá estar relacionado com a monarquia?
    Não… de maneira alguma! A heráldica em Portugal é considerada prerrogativa de uma classe que já nem cá está… estão netos, bisnetos, etc… dessa velha classe que foi a aristocracia portuguesa. Mas efectivamente é uma classe que já não é operante. Nós vivemos forçosamente ou não uma república. Mas apesar disso tudo ainda hoje a heráldica é associada apenas ao factor social de uma determinada elite (vista erradamente. Mas, há elite em todos os campos. A elite é inata a determinado grupo). Mas não é essa a preocupação que me leva. Com a heráldica pretendo o outro lado, o lado simbólico. Pois através dos brasões nós temos lição que nos vem do passado. Pensa-se que a heráldica terá nascido entre os romanos, ou acredita-se também que entre as tribos célticas. A heráldica prende-se essencialmente com a questão simbólica, com a questão dos ensinamentos. Estamos a falar de símbolos. Os símbolos encerram em si uma sabedoria, um conselho, que são um farol para o futuro. Quem recebe um símbolo recebe a maior herança que poderia receber. Na idade média quando se entregava uma espada a um cavaleiro entregava-se um símbolo; ele ficava preso a um juramento e a um símbolo até ao fim da vida; ele ficava preso a uma responsabilidade, não a uma vaidade; com aquela espada, com aquele símbolo, vinha um ensinamento, um compromisso, um laço com o passado. Estes símbolos união pessoas com os mesmos valores. A heráldica pretende dar cumprimento a um ensinamento…

    Acha que a nobreza foi importante para o desenvolvimento do norte?
    Foi fundamental. O norte de Portugal é o primeiro grande reino suevo, são depois os nossos avós visigodos, depois vem as evasões barbaras (são tempos terríveis). É a partir do norte que voltam com uma capacidade de luta (ex. Viriato). A “volta” foi feita e bem sucedida até ao douro. E foi com essa nobreza (guerreiros, monges, colonizadores, etc…) que vão reconstituir o que restava do reino visigodo, e criaram um conceito novo e revolucionário, esse conceito belíssimo chamado Portugal. Coisa bela!
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