Sexta-feira, 7 de Janeiro de 2011
Terça-feira, 1 de Setembro de 2009
Filosofia Prática (2)
1. Qual entende ser o papel do filósofo no mundo social de hoje?
O Filósofo terá sempre que situar a sua actividade na esfera da praxis cultural e ser um impulsionador de novas mentalidades que permitam o aperfeiçoamento da humanidade. O Filósofo não poderá ser apenas um académico ou um intelectual onde o pensar possa ser estéril mas um ser que ande pelas “ ruas do mundo” compreendendo esse mesmo mundo no sentido de o tornar melhor. O Filósofo deve ser um interveniente e ter voz na sociedade em vários domínios e áreas que lhe são familiares: a educação; a política; a ciência por exemplo pois as sua competências permitem-lhe isso em questões de ética educacional, ética médica ou empresarial. Hoje, os Filósofos não se devem remeter apenas ao seu papel de professores, existe para além da docência outras actividades onde a sua utilidade é evidente. Defendo que os Filósofos devem prepararem-se para exercerem várias actividades e utilizar os seus conhecimentos ao serviço de instituições, organizações e empresas. Veja-se o exemplo de Tom Morris, de como um Filósofo, aplicando a Filosofia ao mundo dos negócios pode melhorar as empresas e ao mesmo tempo fazer disso uma profissão. Em conclusão considero que o Filósofo pode ser um catalizador de mudança na sociedade, uma mais valia na promoção de valores e de promoção da ética em diversas áreas.
2. O que é a APEFP?
A Associação Portuguesa de Ética e Filosofia Prática é uma associação de cariz sócio-cultural e científica, sem fins lucrativos e cujo fim é divulgação, promoção, formação e investigação na área da ética e filosófica prática e isto porque os elementos fundadores da Associação observaram que em Portugal e ao contrário do que acontece noutros países não existem associações deste género. Os sócios fundadores, todos com curriculum na área da Filosofia, pensaram e estruturaram a Associação de uma forma sólida para que o projecto não passasse de uma quimera. Assim, a APEFP é constituída para além dos seus órgãos sociais pelos Departamentos: Práticas Éticas e Filosóficas; Formação profissional; Educação; Estudos. Tem ainda uma Coordenação de Ética Médica e uma Comissão de Ética e Deontologia. A Direcção da APEFP pretende que este projecto seja uma mais valia a nível nacional e nesse sentido está a desenvolver um conjunto de acções que divulgam a Associação e os seus propósitos de tornar a sociedade mais conhecedora da utilidade da ética e da Filosofia prática quer para a formação cívica do ser humano quer para a sua formação cultural.
Após a sua criação e logo nestes primeiros dois meses a APEFP tem tido uma aceitação e um interesse peculiar por parte da sociedade civil e da comunicação social pelas suas actividades e dinâmica criada. A APEFP e a sua Direcção tem recebido de vários quadrantes a satisfação por este projecto, sustentado numa liderança em que a experiência no Associativismo dos seus elementos é a mais valia.
3. Em que consiste o aconselhamento filosófico?
Eu prefiro chamar Consultoria ou Assessoria Ética e Filosófica e não aconselhamento porque esse nome pressupõe ao cliente que vai a uma consulta filosófica para obter alguns conselhos para tomar as suas decisões ou resolver os seus dilemas éticos ou filosóficos e isso não e verdade. A Consultoria ética e Filosófica consiste essencialmente em aplicar os ensinamentos da Filosofia aos problemas quotidianos da vida pessoal, social e profissional.
A Consultoria Filosófica é assim uma actividade cujo profissional nesta, área, através das suas competências e usando as metodologias próprias , essencialmente centrando-se no diálogo e na empatia, consegue e ajuda a ultrapassar esses mesmos problemas.
O Consultor será um facilitador que conduz a pessoa a atingir a Ataraxia, ou seja, a tranquilidade da alma e do seu pensamento, permite dar ânimo ás ideias, discernimento, pretende fazer com que o consultante atinja um estado de felicidade e a viver melhor.
4. O que é que uma pessoa pode esperar quando se dirige a uma consulta de aconselhamento filosófico?
Eu, como Consultor Ético e Filosófico não sou mais do que um coach e assim poderei chamar também à Consultoria Filosófica Coachiing Filosófico e porquê? Porque o papel do Consultor deve ser essencialmente o de estimular o pensamento e ajudar as pessoas a remover os seus obstáculos interiores, de forma a libertar aptidões nunca antes reveladas. É isto que podem esperar os clientes, ou seja, a consultoria ética e filosófica adopta uma perspectiva optimista das pessoas, "despertando" as suas capacidades. Assim o Coach Filosófico poderá ser importante nas segintes situações:
- Quando há conflitos de valor, de expectativas.
-Quando novas decisões estão a ser procuradas por parte da empresa.
-Quando um conhecimento especializado é fundamental para reverter um padrão comportamental.
-Quando é necessário desenvolver uma cultura de inovação nas empresas;
-Quando há necessidade de formar quadros técnicos em motivação, liderança, responsabilidade social, ética e códigos de ética.
- Quando há necessidade de preparação e acompanhamento de processo de mudança
-Quando existam conflitos no ambiente organizacional
-Quando é necessário um desenvolvimento de Competências sociais
-Quando se tem necessidade de comunicar melhor consigo próprio e com os outro.
5. O aconselhamento filosófico é uma alternativa à psicologia e à psiquiatria?
Penso que não. Não podemos ver a Consultoria Ética e Filosófica como uma alternativa, pois quer a Psiquiatria e a Psicologia têm metodologia próprias no tratamento dos seus pacientes e com mais ou menos êxito também tem a finalidade de resolver problemas. A questão da Consultoria Filosófica penso ser diferente pois o plano dos problemas a tratar são problemas do quotidiano, dilemas morais ou éticos e meramente filosóficos, ou seja, problemas normais. Vejo a Consultoria mais como uma possibilidade, mais uma ajuda possível para resolver problemas às pessoas que não do foro psiquiátrico, mas problemas que apenas com a metodologia do diálogo podem ser tratados. O Consultor Filosófico tem de ser visto como um especialista do Diálogo, como um técnico dotado de competências para fazer discernir os clientes as razões e os porquês do seu estado de alma ajudando-o a atingir a ataraxia. Assim vejo a Consultoria mais como outra possibilidade que se pode ter para resolver situações pessoais ou em empresas. Parece-me ainda que a Consultoria Filosófica será útil em algumas circunstâncias como possibilidade multidisciplinar, como por exemplo, em doentes com doenças terminais em que a Ciência já nada pode fazer e a Filosofia ser uma via de compreensão do problema.
6. Consegue-se viver de filosofia prática (aconselhamento filosófico, filosofia para crianças, ética empresarial, etc) em Portugal?
Considerando que a actividade da filosofia e da ética prática em Portugal é ainda uma novidade na sociedade civil, são áreas ainda embrionárias e onde existe um terreno enorme para progredir. Parece-me e tal como noutros países acontece, que a área da ética empresarial é a área em que, hoje e no futuro, poderá ser mais útil e como tal, quer como consultor interno ou externo, será uma profissão a ter em conta. As empresas de futuro já assumiram o caminho da responsabilidade social e do aperfeiçoamento ético e daí a assessoria ser uma necessidade pois a credibilidade da empresa passa por aí, por exemplo com a entrada de assessores nesta área para as empresas tal como tem acontecido em vários países.
Quanto à Filosofia para Crianças , embora haja alguma divulgação, Formação e algum material didáctico não constitui possibilidade de se tornar uma actividade permanente no ensino em Portugal. Ela existe apenas como sessões de demonstração em algumas escolas, ATls ou então como complemento curricular no 1º Ciclo mas em escassíssimas escolas do País. Existe sim, pessoas interessadas nesta área que têm feito um esforço na sua promoção. A Dra. Joana Sousa é talvez umas das poucas pessoas em Portugal que com a Filosofia com Crianças praticamente consegue tirar proveitos através das suas acções e Workshops.
7. Quer-nos falar sobre a filosofia para crianças, os cafés filosóficos, filosofia na empresa, e pertinência destas actividades na sociedade?
São actividades muito interessantes e com aspectos positivos pois para além de envolver a comunidade traz para o debate questões importantíssimas. Os Cafés Filosóficos têm a sua origem em 1992 em França através de Marc Sautet e proliferam hoje um pouco por todo o mundo e podem considerarem-se encontros que se realizam em espaços culturais e que permitem a todos os presentes participar de uma forma informal em debates sobre temas e assuntos da existência humana e a que todos interessa. Estes Cafés Filosóficos e que a APEFP também tem realizado deve possuir um regulamento próprio cujos presentes devem conhecer pois exige-se a cordialidade do debate e ausência de ataques pessoais, argumentando-se apenas o assunto em questão. Os Cafés Filosóficos são muito frequentados e têm tido um forte impacto na sociedade civil.
A Filosofia na Empresa começa também a ter um papel importante pois como já referi anteriormente noutra questão, hoje as empresas credíveis perceberam a importância da Filosofia dentro da empresa. O seu papel é importante ao nível da formação interna dos quadros superiores essencialmente na vertente da liderança e da motivação. Pessoalmente, considero muito importante o diagnóstico de satisfação e de ambiente ético da empresa que deve ser efectuado e que o Filósofo tem uma função importante. Tom Morris é um exemplo de como a Filosofia dentro da empresa é importante para os negócios e para a excelência da empresa. A sabedoria filosófica é um manancial inesgotável para as empresas.
8. Que perspectivas pode ter um recém-licenciado em filosofia para exercer uma profissão em Portugal?
A perspectiva do ensino deve ser colocada de parte por parte do recém licenciado em Filosofia, embora tenha no campo da Formação áreas nas quais poderá leccionar, tendo que para isso obter o CAP.
As áreas das práticas éticas e filosóficas poderá ser uma possibilidade de futuro mas a mera licenciatura em Filosofia não chega. Assim, o recém licenciado deverá obter outra certificação como por exemplo em Coaching que é uma actividade de futuro. Também a entrada em empresas em Ética empresarial ou Filosofia empresarial é uma possibilidade pois a NP 4460 obriga as empresas a respeitarem e promoverem a ética e a responsabilidade social.
Domingo, 30 de Agosto de 2009
Filosofia para Crianças (2)
A propósito da temática da filosofia para crianças decidimos entrevistar mais uma grande especialista de FpC a nível nacional. A dr. Joana Sousa é certificada em Filosofia para Crianças e no método Six Thinking Hats®. Nesta entrevista ela conta-nos a sua experiência...
1. Qual entende ser o papel do filósofo no mundo social de hoje?
O filósofo viu o seu papel reduzido ao trabalho académico até há muito pouco tempo: hoje já conhecemos notícias de grandes empresas que recrutam licenciados em Filosofia, para a função de consultores, por exº. Considero que o movimento das novas práticas filosóficas, onde se insere a consultoria filosófica e a Filosofia para Crianças, constituem uma esperança, um caminho para um olhar diferente sobre o filósofo. Pode ser que a filosofia ganhe um novo fôlego e consiga marcar um lugar ao sol, do qual tem vindo a ser arredada.
2. Em que consiste a filosofia para/com crianças?
No meu entender, a Filosofia para Crianças (FpC) consiste numa prática de competências do pensar. Costumo usar a imagem do ginásio: nas sessões de FpC temos oportunidade de treinar os músculos do pensamento, questionando, reflectindo em grupo e assumindo posições. O motivo desse «treino» pode ser um texto, uma imagem, um exercício de criatividade; os recursos podem ser diversos, pois o importante é o processo de pensamento que ocorre em grupo. Mais importante do que os resultados dos ateliers (um desenho e uma frase, por exº) é o observar o modo como as crianças descobrem que «trabalhar com a mente é divertido».
3. O que é que os pais podem esperar de um filho quando o “matriculam” em filosofia para/com crianças?
Neste momento, em Portugal, ainda não dispomos de instrumentos avaliativos que nos permitam apresentar resultados concretos e trabalhados sobre os efeitos da Filosofia para Crianças. A própria disciplina ainda não se constitui enquanto disciplina; está presente sob a forma de AEC (actividades extra curriculares) ou como uma actividade que os Centros de Formação e ligados ao ensino oferecem. Alguns colégios e escolas particulares já proporcionam a FpC como actividade facultativa. Não podemos ter a ilusão de que numa hora de sessão ou atelier se cria uma comunidade de investigação e todos as crianças apreendem TODAS as noções de pensamento crítico, criativo e cuidativo! Sem continuidade isso não é possível, pois a prática constante é fundamental nesse processo. As crianças que participam de forma continuada acabam por exprimir que a Filosofia lhes permite «pensar com a cabeça», «pensar como as coisas são».
4. Filosofia “para” crianças ou filosofia “com” crianças?
Qualquer uma das expressões me agrada. E utilizo-as frequentemente, sem preconceito. Numa sessão de FpC não se pode esperar que aconteça Filosofia, no sentido mais clássico do termo. O que acontece é uma prática das competências do pensar. Sabemos que o espanto filosófico é muitas vezes ilustrado com o espanto da criança, que fica perplexa e olhar para as coisas como se fosse a primeira vez. Mas se as crianças são filósofos em ponto pequeno, porque é que as sessões são, por vezes, tão difíceis de realizar? Note-se que esta dificuldade é que transforma a sessão em desafio para o facilitador: trabalhamos sem rede, porque o nosso papel não é o de direccionar os ateliers no sentido daquilo que gostaríamos de trabalhar, mas de atender às solicitações do grupo que temos perante nós. Talvez a expressão correcta seja «sessão de filosofia das crianças» - porque no fundo a sessão pertence-lhes!
5. Qual é a importância da filosofia para/com crianças?
Tal como já afirmei anteriormente, a mais valia desta disciplina é a possibilidade de colocar em prática as competências do pensamento crítico, criativo e cuidativo. Estas são dimensões apontadas pelo «pai» da FpC, Mathew Lipman. Conceptualizar, problematizar, criar, ouvir o outro, ter a capacidade de esperar pela sua vez, tomar decisão, mudar de ideia – a FpC pode proporcionar isso mesmo. Como dizia uma aluna minha há dias, de dez anos, «não pensem que é só para as crianças, a Filosofia é para todas as idades.»
6. Em que consiste o método “Six Thinking Hats®” de Edward de Bono?
Trata-se de uma técnica que permite a organização do pensamento: cada chapéu tem uma cor, cada cor significa uma linha de pensamento. Os seis chapéus podem funcionar como um «código» que me permite identificar em que posíção se encontra a pessoa com quem falo. Permite que eu use o mesmo chapéu do outro e assim torne mais fácil e acessível o processo comunicativo. Com as crianças torna-se divertida a utilização da técnica (e dos próprios chapéus) e facilmente interiorizam as cores e os significados.
7. Consegue-se viver de filosofia para/com crianças em Portugal?
Penso que não estão reunidas as condições para isso. A FpC nem sequer é uma disciplina propriamente dita. Não conheço ninguém que o faça. Mas isso não faz com que seja impossível!
8. Que perspectivas pode ter um recém-licenciado em filosofia para exercer uma profissão em Portugal?
Em termos profissionais, um recém licenciado em Filosofia tem que estar preparado para trabalhar noutra área; quem sabe a especializar-se numa área diferente e assim iluminar a sua especialização com a luz do saber filosófico. Podemos e devemos conduzir esforços no sentido de procurar exercer profissão na área filosófica. Mas repare-se que a Filosofia é um saber transversal a todos os outros, pelo que os filósofos «são capazes de quase tudo», como costumo dizer de forma irónica.
Filosofia para Crianças
Actualmente a filosofia para crianças é uma temática que começa a crescer em Portugal. Decidimos entrevistar uma especialista nesta àrea para darmos a conhecer melhor o que é a Filosofia para Crianças. A dr. Laurinda Silva é formadora certificada pelo Institute for the Advancement of Philosophy for Children - IAPC.
1 - Qual entende ser o papel do filósofo no mundo social de hoje?
Penso que não se afasta muito do seu papel de sempre: estímulo ao questionamento; compromisso com a clareza e a busca da verdade (e neste sentido moderadora entre o saber especializado).
2 - Em que consiste a filosofia para/com crianças?
Consiste na dinamização de sessões onde as crianças são estimuladas no sentido de apurar e treinar a atitude filosófica, que vive da curiosidade. Curiosidade esta natural em todos os seres humanos mas que factores como a educação e a escolarização, … castram. Este treino incide ainda sobre o pensamento crítico, o pensamento criativo e o pensamento de cuidado (Caring Thinking).
3 - O que é que os pais podem esperar de um filho quando o “matriculam” em filosofia para/com crianças?
Os pais podem esperar que os seus filhos:
Não desistam facilmente de uma pergunta e tentem obter uma resposta razoável para ela, o que não se coaduna propriamente com «é assim porque eu digo que é assim» ou «ainda és muito pequenino»…;
Os obriguem a parar para pensar;
Saibam ouvir e fazerem-se ouvir;
Olhem para o desconhecido com tranquilidade e o apreciem como algo a descobrir;
Se tornem cada vez mais autónomos e responsáveis (comprometendo-se com o seu pensamento);
…..
4 - Filosofia “para” crianças ou filosofia “com” crianças?
Do conceito original, de Lipman, Filosofia para Crianças (Philosophy for Children), embora isso choque com a concepção de Comunidade de Investigação, que sublinha a não unidireccionalidade presente numa sessão de Filosofia para Crianças.
No projecto que desenvolvi este ano na ES Tomás Cabreira: Filosofia com Crianças.
5 - Qual é a importância da filosofia para/com crianças?
Existem três aspectos da actividade filosófica que exprimem a exigência complementar do simples exercício da palavra e da utilização da leitura e da escrita (como o pratica já qualquer criança do ensino primário) e ilustram a importância da Filosofia para Crianças.
O conjunto dos três registos resumem-se à ideia de pensar por si mesmo, ser si mesmo, e ser e pensar no seio do grupo.
A Filosofia para Crianças permite o exercício de ser si mesmo e ser o seu pensamento; com a responsabilidade da identidade através das nossas escolhas e juízos.
A prática do diálogo Socrático encoraja a dimensão do “pensarmos juntos”. Não pensamos contra o outro ou para nos defendermos do outro, porque este nos assusta ou nos faz concorrência, mas graças a ele, através dele.
A Filosofia para Crianças é uma forma de contrastar com a situação anti-reflexiva dos dias de hoje e favorecer uma atitude democrática.
6 - Consegue-se viver de filosofia para/com crianças em Portugal?
Nada como tentar!!
7 - Que perspectivas pode ter um recém-licenciado em filosofia para exercer uma profissão em Portugal?
As que quiser.
Quinta-feira, 27 de Agosto de 2009
Filosofia Prática
Fiz a seguinte entrevista ao Dr. Jorge Humberto Dias, que é um grande especialista na área da filosofia prática.
Qual entende ser o papel do filósofo no mundo social de hoje?
JD – Penso que a Filosofia Social é hoje uma área cada vez mais
importante. Com a complexificação do tecido social, sobretudo ao nível
das relações pessoais e institucionais, considero um bom investimento
profissional e social, por parte dos alunos universitários, a
especialização em Filosofia Social Aplicada. Tal como acontece noutras
áreas (académicas e profissionais), desde o Direito à Educação, passando
pelo Serviço Social, penso que é uma resposta extremamente actual e com
sentido, a Filosofia dedicar-se à análise e intervenção social, nos mais
variados domínios.
Para isso, necessitamos da articulação entre as ofertas universitárias
(que devem ser cada vez mais diversificadas, indo ao encontro dos
interesses dos alunos, assim como das reais necessidades das sociedades
e das pessoas), as entidades de estágio, as associações profissionais na
área da Filosofia e o mundo social em geral (empresas e organizações
não-governamentais, por exemplo).
O contributo do filósofo sempre foi importante para o debate de ideias,
para a formação das pessoas e para o desenvolvimento das organizações
sociais. No entanto, vivendo hoje num mundo cada vez mais tecnicizado e
profissionalizado, com fortes influências sociais e tecnológicas, os
licenciados em Filosofia deverão, também, obter formação especializada e
experiência profissional nas diferentes áreas de intervenção social.
Está aqui em causa a questão da habilitação profissional para uma
determinada função. Neste âmbito, sabemos que as instituições de
formação, em Portugal, estão ainda em processo de desenvolvimento, no
que diz respeito à implementação de cursos de formação inicial
(universitários) e de formação contínua (profissionais) e de grupos de
investigação académica/científica.
Em que consiste o aconselhamento filosófico?
JD – Trata-se de uma área de aplicação da Filosofia, que consiste
no fornecimento de um serviço especializado de aconselhamento, a
pessoas ou instituições/organizações, utilizando para isso o
domínio dos conhecimentos e dos métodos filosóficos, na abordagem
a uma determinada situação. Neste processo, é necessário dominar
competências de aconselhamento, assim como competências
filosóficas.
Tal como existem outros aconselhamentos, o jurídico, o financeiro, o
psicológico, o dietético, o empresarial, o imobiliário, o social, etc.,
também o Aconselhamento Filosófico pretende ajudar o seu cliente a
melhorar a sua situação concreta de vida. Em geral, o conselheiro
filosófico trabalha as várias dimensões filosóficas da vida e do
pensamento do cliente.
O que é que uma pessoa pode esperar quando se dirige a uma consulta de
aconselhamento filosófico?
JD – O consultante, quando procura um serviço de aconselhamento,
pretende obter uma espécie de ajuda. Actualmente, em Portugal, já muitas
pessoas conhecem o tipo de serviço que o Aconselhamento Filosófico pode
fornecer. No entanto, ainda é frequente encontrar pessoas, com problemas
específicos da sua situação de vida e/ou da sua subjectividade, e que
depois de terem experimentado outros tipos de ajuda, decidem
experimentar a ajuda filosófica. Estas, na sua larga maioria,
desconhecem a metodologia de trabalho utilizada pelo conselheiro
filosófico.
Por outro lado, já vamos encontrando em Portugal consultantes que
procuram intencionalmente este tipo de serviço, pois têm noção da sua
utilidade nas suas vidas/pensamento.
Podemos ver alguns exemplos: a felicidade é, quanto a mim, um problema
humano e filosófico, que poderá levar um consultante a solicitar os
serviços de um conselheiro filosófico, e o qual poderá ser útil na
reflexão metodológica sobre o problema, pois a concepção de felicidade
tem uma relação única e insubstituível com a concepção de vida do
consultante.
Problemas relacionados com o sentido da vida e da morte, com a
compreensão relativa a um conflito de valores, com a interpretação
relativa a um conjunto de ideias e acções, com a análise de uma situação
pessoal complexa, etc.
Hoje, vemos empresas a contratar licenciados em Filosofia, pois conhecem
os benefícios que o trabalho filosófico pode ter na gestão empresarial,
desde as questões éticas/deontológicas às questões de recursos humanos,
de filosofia da empresa, de qualidade, etc.
O que é o método “PROJECT@”?
JD – É uma forma de trabalhar a consulta filosófica. Ao longo da minha
carreira como Consultor Filosófico, fui-me apercebendo de alguns
instrumentos específicos e próprios que utilizava nas consultas
individuais e organizacionais. Aos poucos fui escrevendo e
esquematizando esses instrumentos, pois considero fundamental
partilhá-los com os colegas de profissão, assim como com os leitores
interessados em conhecer e explorar esta área de trabalho.
PROJECT@ é assim uma metodologia criada para o desenvolvimento da
consulta filosófica individual, embora possa ser adaptada à consulta
organizacional. Tal como acontece em todas as criações, as influências
são várias: a filosofia dos clássicos antigos (o questionamento de
Sócrates sobre as ideias essenciais da vida, a metodologia sistemática
de Aristóteles, os conselhos de Epicuro, Séneca, Epicteto e Marco
Aurélio), a filosofia do existencialismo (escola que desenvolveu várias
análises sobre a existência humana em geral, embora alguns autores
tenham abordado, mais em específico, alguns tópicos como por exemplo, a
liberdade, a responsabilidade, o sentido da vida, a felicidade, o
suicídio, a morte, os projectos, etc.), a filosofia vitalista
(nomeadamente de autores espanhóis, como Ortega e Gassett e Julián
Márias) e o movimento contemporâneo da Philosophical Practice, iniciado
em 1981 por Gerd Achenbach (com os seus diversos projectos: gabinete de
consulta filosófica, centro de formação de praticantes de filosofia e
associação nacional e internacional de filosofia prática) e nos anos 90
com Lou Marinoff e Ran Lahav (com a organização do primeiro congresso
internacional de prática filosófica).
O aconselhamento filosófico é uma alternativa à psicologia e à
psiquiatria?
JD – De facto, alguns autores têm abordado o Aconselhamento
Filosófico partindo de uma comparação com as ciências da psique.
No que diz respeito ao meu ponto de vista, já em várias
entrevistas me posicionei em relação a este tema: penso que
estamos perante áreas diferentes e que utilizam conceitos e
metodologias diferentes. Entendo que possam existir alguns autores
a explorar o facto de alguns filósofos, no passado, terem dedicado
os seus estudos às três áreas em conjunto. Mas com a
especialização de cada área, na época contemporânea, já não faz
sentido confundirmos Filosofia, Psicologia e Psiquiatria. São
áreas que trabalham de modo diferente e que tratam problemas
diferentes. No entanto, há uma questão que pode ser pertinente
analisar, que é a utilidade que cada uma pode ter no processo de
ajuda a um determinado consultante. Também poderá ser objecto
interessante para a investigação académica, a definição clara de
qual a área indicada para trabalhar a situação concreta do
consultante que decide solicitar os serviços de um destes
profissionais: consultor filosófico, psicólogo ou psiquiatra.
Para terminar a minha resposta a esta pergunta, recordo umas jornadas de
saúde e de toxicodependência, em que participei como conferencista
convidado, no painel dedicado ao trabalho da ética em equipas
multidisciplinares. Com este exemplo, pretendo transmitir a minha
posição, ou seja, penso que na actualidade, os problemas das pessoas e
das organizações são tão complexos, que só um trabalho de equipa,
composto por profissionais de diferentes áreas, poderá ajudar a
desenvolver novas formas de gestão, resolução, etc.
Consegue-se viver de filosofia prática (aconselhamento filosófico,
filosofia para crianças, ética empresarial, etc) em Portugal?
JD – Esta é mais uma boa questão. Eu não conheço todos os
profissionais que se dedicam, em Portugal, à Consultoria
Filosófica. A experiência que tive como presidente da Associação
Portuguesa de Aconselhamento Ético e Filosófico, entre 2004-2008,
permitiu-me verificar que não existia nenhum associado que vivesse
exclusivamente da prática profissional da filosofia. A sua grande
maioria eram professores de filosofia do ensino
secundário/superior que exerciam a actividade de consultoria
filosófica em regime de acumulação.
Relativamente à filosofia para crianças, a situação é diferente, pois
estamos perante uma área que também faz parte do paradigma mais
utilizado em Portugal: o estudo da disciplina de filosofia no sistema de
educação. Sei que existem alguns professores a leccionar a disciplina de
filosofia para crianças em escolas do 1º e 2º ciclo do ensino básico,
que optaram por apresentar esta oferta. Outros, têm-se dedicado à
formação de professores e outros ainda, têm participado em
ateliês/oficinas de curta duração.
Quanto à ética empresarial, a situação é ainda mais peculiar, dado que a
maioria dos profissionais que trabalha esta área não tem qualquer
formação na área das ciências filosóficas. No entanto, existem alguns
licenciados em filosofia a desenvolver projectos nesta área.
Resumindo, penso que é necessário criar, em primeiro lugar, as condições
necessárias e legais para o exercício de uma profissão. Só nessa base
fará sentido perguntar se existem profissões na área da filosofia. Como
todos sabemos, em Portugal só está prevista a profissão de professor de
filosofia. As outras saídas profissionais, anunciadas pelas
universidades, dependem da “boa vontade” das entidades empregadoras.
Portanto, com este cenário, somos levados a dizer que há ainda um longo
caminho a percorrer por parte das associações profissionais do sector.
Os consultores filosóficos, a exercem a sua actividade em Portugal, têm
preenchido o seu IRS com a designação da categoria profissional de:
«Consultores» - também utilizada por outros licenciados, profissionais
de outros sectores.
Quer-nos falar sobre a filosofia para crianças, os cafés filosóficos,
filosofia na empresa, e pertinência destas actividades na sociedade?
JD – Penso que essas actividades têm de ser organizadas de acordo
com os interesses dos eventuais participantes. E claramente,
dependem dos objectivos estabelecidos pelo facilitador. Se o
público-alvo fôr o cidadão comum, então o filósofo terá de adaptar
a sua linguagem e metodologia, de modo a que todo o trabalho seja
perceptível e possa vir a resultar em utilidade. Por outro lado,
se o público-alvo fôr o próprio filósofo, isto é, em que o
objectivo seja a formação interpares, então os instrumentos
técnicos deverão ser suficientemente pertinentes...
Que perspectivas pode ter um recém-licenciado em filosofia para exercer
uma profissão em Portugal?
JD – Na sequência do que eu já disse anteriormente, penso que
falta uma associação profissional forte na área da filosofia, que
trabalhe no sentido de promover melhores condições profissionais
para os licenciados em filosofia, dialogando com vários parceiros,
desde os organismos governativos, passando pelas universidades,
pelas empresas, pela comunicação social, etc. Neste processo, é
essencial a organização de reuniões científicas e profissionais,
com a presença de personalidades de reconhecido mérito, nacional e
internacionalmente.
Penso que os filósofos têm muito a aprender com o trabalho realizado
pelas ordens profissionais, já existentes no sector da advocacia, da
medicina, da arquitectura, da engenharia, da economia, etc. Todos
sabemos que não existem modelos perfeitos, mas a realidade tem mostrado
que as profissões mais fortes e que subsistem no mercado são aquelas que
têm melhores formas de organização e que conseguem promover os seus
serviços e obter condições de trabalho digno, sério e útil.
No panorama actual, um licenciado em filosofia está dependende da “boa
vontade” (infelizmente, não no sentido kantiano do termo) das
instituições com que contactar e/ou da sorte nos concursos de
professores. Se nalgum momento necessitar de apoio/aconselhamento,
desconheço se existe alguma associação de filosofia a prestar esse
serviço aos seus associados. Talvez fosse uma boa ideia, contactar
algumas empresas de filosofia, que actualmente existem um pouco por todo
o mundo...