22/06/2018

Um puzzle filosófico sobre a oração de petição



Uma das práticas mais comuns na religião é a oração. Existem vários tipos de oração, como a oração de agradecimento, a oração de contrição, ou a oração de petição. Aqui queremos analisar filosoficamente a oração de petição em que se pede a Deus alguma coisa ou para fazer algo (este tipo de oração é destacado, por exemplo, no Evangelho de Mateus 7, 7-12). Mas no contexto das religiões teístas e analisando a natureza do Deus teísta, será que a oração de petição é realmente eficaz? Isto parece relevante, pois se chegarmos à conclusão de que a oração de petição é ineficaz, então exige de alguma forma uma revisão na doutrina teísta e, além disso, as pessoas que fizessem tal oração estariam equivocadas (dado que a sua oração não faria qualquer diferença para algum tipo de resultado).

Ora, é possível argumentar que a oração de petição é de alguma forma inútil ou ineficaz. Pois, suponha-se que pedimos a Deus por alguma coisa na nossa oração. Por um lado, se essa coisa for má, um Deus benevolente não iria conceder-nos isso, quer o pedíssemos ou não. Por outro lado, se essa coisa for boa, um Deus benevolente iria conceder-nos isso, quer o pedíssemos ou não. Assim, de uma forma ou de outra, a oração de petição não parece funcionar. Por outras palavras, o que se está a questionar é a eficácia da oração de petição dada a natureza de Deus. Este problema foi levantado, entre outros, pela filósofa tomista Eleonore Stump no seu artigo de 1979 “Petitionary Prayer”. Mas, seguindo Martin Pickup (2018), pode-se ser mais preciso ao explicitar este argumento em forma de prova condicional:
  1. Um agente S reza uma oração O para o resultado R. [Suposição]
  2. R ocorre se, e só se, Deus escolhe efetivar isso. [Suposição]
  3. Deus escolhe efetivar R se, e só se, é geralmente melhor R ocorrer do que não ocorrer. [Suposição]
  4. R ocorre se, e só se, é geralmente melhor R ocorrer do que não ocorrer. [De 2 e 3]
  5. Ser geralmente melhor R ocorrer do que não ocorrer não depende contrafatualmente de O. [Suposição]
  6. A ocorrência de R não depende contrafatualmente de O. [De 4 e 5]
  7. O é eficaz para R só se R depende contrafatualmente de O. [Suposição]
  8. O não é eficaz. [De 6 e 7]
  9. Se um agente S reza uma oração O para o resultado R, então O não é eficaz. [De 1 e 8]
Vale a pena fazer uma pequena clarificação das premissas: a premissa (1) é uma afirmação geral de um caso de oração de petição e é suposta para prova condicional. A premissa (2) é uma alegação sobre a soberania de Deus acerca o que o mundo contém. Em (3) diz-se que Deus escolhe efetivar um evento só quando é melhor para o mundo que ocorra do que o contrário. Ou seja, dada a conceção tradicional do Deus teísta, parece que Deus só pretenderia e atualizaria eventos em que a sua ocorrência possa contribuir em geral para a bondade do mundo. É importante referir que aqui estamos a abordar o valor de um evento dado o seu lugar em um mosaico de outros eventos. Por isso, pode haver casos concretos em que é melhor um evento mau ocorrer do que não ocorrer (como no caso de uma má ação que resulta do livre-arbítrio humano - nesse caso um mau evento pode ser uma condição necessária para um bem maior). Quanto à premissa (5), aqui assume-se uma conceção de oração de petição em termos de dependência contrafatual, ou seja, uma oração O faz uma diferença para um resultado R quando R não ocorreria se O não ocorresse. Mas, dada a suposição sobre a relação entre o valor de R e O, a ocorrência ou não de R não depende contrafatualmente de O. Pelo contrário, a ocorrência de R depende apenas do seu valor geral, sendo este valor geral contrafatualmente independente de O. Por outras palavras, o que a premissa (5) alega é que a oração em si mesma não faz uma diferença quanto a se é melhor um evento ocorrer do que não ocorrer. Por fim, na premissa (7) limita-se a afirmar que a dependência contrafatual é uma condição necessária para que uma oração de petição seja eficaz. Todos os restantes passos no argumento são uma derivação logicamente válida dessas premissas, permitindo assim concluir que a oração de petição é ineficaz.

Será este um argumento sólido? Será que se provou que a oração de petição é inútil ou ineficaz? Negar a premissa (5) tem sido a via mais popular de resolver este problema. A ideia é evidenciar que a oração pode tornar um evento mais valioso. Assim, se é ou não melhor um evento ocorrer depende contrafatualmente de uma oração para esse evento. Para mostrar isso, Stump (1979) e Swinburne (1998) argumentam que a oração de petição amplia a nossa responsabilidade e, dessa forma, Deus realizar algum evento devido a uma oração de petição tem mais valor como exercício dessa responsabilidade do que se Deus realizasse esse evento sem a petição. Ou seja, um resultado R tem um valor X se produzido sem a oração O, mas tem um valor de X+Y se produzido com O (onde Y é maior que zero). É importante sublinhar que, para haver dependência contrafatual entre O e R, deve ser o caso que R não ocorreria sem O. Ou seja, o valor de X e Y deve ser tal que se R tiver o valor X não ocorreria, mas se tiver o valor X+Y então ocorreria.

Na mesma linha de raciocínio, e seguindo Daniel Howard-Snyder (2010), pode-se argumentar que pedir a Deus para fazer ϕ pode alterar o estatuto moral de ϕ. Howard-Snyder apresenta vários exemplos como o seguinte: se tu me vês a caminhar ao longo da estrada, tu podes parar e oferecer-me boleia (ou “carona” para os amigos brasileiros), ou simplesmente podes continuar a viagem. Tu não estás moralmente obrigado a parar. Mas, quando eu começo a esbracejar e a correr para ti, isso pode dar-te uma razão prima facie para parar. É verdade que isso não proporciona uma razão ultima facie para parar, pois pode ainda assim haver razões contrárias para tu não parares e que eu desconheça por completo, mas essas razões têm de ser mais significativas do que o meu pedido. De forma análoga, quando pedimos a Deus para fazer algo, isso dá-lhe uma razão prima facie para o fazer. É possível que isso seja um fator que ele pode considerar quando decide efetivar ou não um resultado R. Será esta uma boa analogia?

Uma outra via para se criticar o argumento consiste em atacar a premissa (3) em que se sustenta que Deus escolhe efetivar um resultado R se, e só se, é geralmente melhor R ocorrer do que não ocorrer. Mas, se isso é verdade, então todos e apenas os melhores eventos ocorrerão dado que, segundo essa premissa, Deus efetiva o melhor resultado ou evento do que qualquer alternativa possível. Assim, de acordo com (3), Deus efetiva o melhor dos mundos possíveis. Contudo, não é nada claro que exista o melhor dos mundos possíveis. Isto porque pode haver mais do que um valor máximo, ou pode haver uma série infinita de mundos de valor crescente sem “o” valor máximo. Por exemplo, Alvin Plantinga na página 34 do livro God, Freedom, and Evil formula as seguintes perguntas retóricas:
Qual é a razão para supor que há algo como o melhor de todos os mundos possíveis? Não importa quão maravilhoso seja um mundo — com não importa quantas pessoas desfrutando de uma bem-aventurança perfeita — não será possível que haja um mundo ainda melhor com ainda mais pessoas desfrutando de ainda mais bem-aventurança perfeita?
Portanto, a premissa (3) torna Deus incapaz de efetivar qualquer resultado ou evento, dado que não há, ou é bastante duvidoso que exista, tal coisa como “o” melhor de todos os mundos possíveis. Como resposta talvez se possa argumentar que aquilo que se deve interpretar na premissa (3) é que Deus quer um estado de coisas tal que cada resultado ou evento no mundo contribua positivamente para o seu valor geral ou global, ainda que não exista “o” melhor de todos os mundos possíveis. Mas essa interpretação também parece ter fragilidades. Pois, suponha-se que há dois mundos possíveis w1 e w2 de igual valor, em que um evento E1 ocorre em w1 e um outro evento E2 ocorre em w2, sendo E1 e E2 incompatíveis. Suponha-se igualmente que o mundo que não tem E1 nem E2 é pior do que os mundos w1 e w2 que os contêm. Ora, seguindo esta última interpretação da premissa (3), Deus deveria atualizar tanto E1 como E2. Mas, uma vez que tais eventos são incompatíveis, Deus não o poderá fazer. E, por isso, mais uma vez a premissa (3) seria falsa. Pelo contrário, um defensor da eficácia da oração de petição - tal como o filósofo Bradley Rettler no artigo “A Possible Worlds Solution to The Puzzle of Petitionary Prayer” de 2017 - poderia alegar que este tipo de oração é eficaz precisamente quando há dois mundos possíveis de igual valor (como w1 e w2); assim, a oração de petição incentiva ou proporcionava uma razão a Deus para escolher e efetivar um dado evento (e, por conseguinte, mundo possível) em vez de outro.

Serão estas objeções plausíveis? Ainda que não o sejam completamente, pode-se também argumentar que mesmo se a oração de petição não faz qualquer diferença sobre aquilo que Deus faz ou deixa de fazer, tem mesmo assim um propósito uma vez que pode fazer uma diferença em nós. De um ponto de vista mais prudencial, a oração de petição pode aumentar a consciência das nossas necessidades e das necessidades dos outros e, dessa forma, aumentar a probabilidade de agirmos para atender essas necessidades. Seria assim uma forma de reorientar o nosso foco do mal para o bem, do desespero para a esperança. Com base nesta ideia, pelo menos de uma perspetiva prudencial a oração de petição teria alguma eficácia.


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