23/12/2017

O Problema do Livre-Arbítrio aplicado à Encarnação


A doutrina da encarnação de Deus levanta várias questões filosóficas interessantes. Em anos anteriores já tratamos puzzles sobre a consistência interna desta doutrina (ver aqui), sobre se pode ou não haver múltiplas encarnações (ver aqui), sobre se há boas razões para haver encarnação (ver aqui). Neste ano queremos analisar as relações entre a encarnação e o livre-arbítrio. Nomeadamente pretendemos examinar se, dada a verdade da cristologia tradicional, faz sentido dizer que Cristo tem livre-arbítrio (ou livre-arbítrio enquanto humano).

De acordo com a cristologia tradicional, com raízes no primeiro Concílio de Niceia (no ano de 325), considera-se que Jesus Cristo tem duas naturezas e, por conseguinte, duas vontades: uma vontade divina e uma vontade humana. Esta ideia de que Cristo tem tanto uma vontade divina como humana foi claramente defendida no terceiro Concílio de Constantinopla. Além disso, nesse mesmo Concílio foi defendida a ideia de que a vontade humana de Cristo sujeita-se, não resistindo nem lutando, à sua vontade divina e omnipotente. Mas essa ideia pode originar duas questões filosóficas pertinentes: a vontade humana de Cristo pode ser realmente livre? Por outras palavras, pode Cristo ter um livre-arbítrio genuíno em relação à sua vontade humana? Se sim, como explicar isso?

Antes de avançar com respostas para esse problema é necessário esclarecer o que se entende por livre-arbítrio. Seguindo a sugestão de um dos principais filósofos influentes no debate sobre o problema do livre-arbítrio, Peter van Inwagen (2008: 329), pode-se definir “livre-arbítrio” como a habilidade de agir de outra forma, ou seja, ter a capacidade de escolher agir de um modo diferente daquele que agimos. Neste sentido, possuir livre-arbítrio consiste em ter possibilidades alternativas. Daí van Inwagen defender o Princípio das Possibilidades Alternativas (PPA) nos seguintes termos:

Temos livre-arbítrio (no sentido relevante para a responsabilidade moral) só se pudermos escolher agir de modo diferente daquele que agimos.

Aqui estamos igualmente a supor que o livre-arbítrio é incompatível como o determinismo (a favor disso veja-se o argumento aqui desenvolvido). Mas será que o Cristo encarnado, na sua natureza humana, tem este tipo de livre-arbítrio? Na cristologia tradicional tipicamente defende-se que Cristo tem livre-arbítrio com respeito à sua vontade humana. Isto porque advoga-se que Cristo, dada a encarnação, era como nós meros humanos em todos os sentidos (menos no pecado). Ora, se em geral a vontade humana é livre, assim também a vontade humana de Cristo. Contudo, pode-se construir um argumento em que se mostra que há um conflito entre as seguintes teses que tipicamente os Cristãos aceitam:
  • Tese da cristologia tradicional (TCT): A vontade humana de Cristo foi sujeita à vontade divina e seguiu a vontade divina em todas as coisas sem se esforçar ou resistir.
  • Tese da liberdade humana (TLH): Cristo, em virtude da sua assumida vontade humana, tem livre-arbítrio.
Tendo em conta essas teses podemos construir o seguinte argumento na forma de uma redução ao absurdo:
  1. Suponha-se que a conjunção de TCT e TLH é verdadeira. [Suposição da reductio]
  2. Para quaisquer duas vontades, x e y, se y for submetida a x e segue x em todas as coisas sem se esforçar ou resistir, então y não tem livre-arbítrio (no sentido relevante do princípio das possibilidade alternativas [PPA]). [Premissa]
  3. A vontade humana de Cristo não tem livre-arbítrio (no sentido relevante do PPA). [De 2 e TCT]
  4. Se Cristo, em virtude da sua assumida vontade humana, tem livre-arbítrio, então a vontade humana de Cristo tem livre-arbítrio (no sentido relevante do PPA). [Premissa]
  5. É falso que Cristo, em virtude da sua assumida vontade humana, tem livre-arbítrio. [De 3 e 4]
  6. Contradição! (Em 5 e TLH).
  7. A conjunção de TCT e TLH é falsa. [De 1-6, por redução ao absurdo]
O argumento para a conclusão 7 é formalmente válido. Assim, se o Cristão apologista da premissa 1 deseja evitar a contradição, deve rejeitar a verdade de pelo menos uma premissa. Mas qual?

Um dos aspetos que se poderá criticar neste argumento é precisamente a suposição de que o livre-arbítrio deve ser entendido de acordo com o PPA. Com base no artigo Responsabilidade Moral e o Princípio das Possibilidades Alternativas de Harry Frankfurt podemos conceber uma engenhosa experiência mental que constitui um contraexemplo ao PPA. Este tipo de experiência mental ficou conhecido como casos de Frankfurt. Num típico Caso de Frankfurt existe uma circunstância C tal que: (i) um agente, A, toma uma determinada decisão D; (ii) se A não decidir D, por si mesmo, C entra em ação e força A a decidir D; e (iii) C em nada contribui para que A decida D. Considerando esta estrutura, podemos imaginar o seguinte caso:

Black é o chefe de uma poderosa organização criminosa e Jones é um dos mais eficientes assassinos dessa organização. Black quer matar o Presidente e sabe que Jones é a pessoa certa para o trabalho. No entanto, existem rumores de que Jones quer abandonar a profissão, razão pela qual o seu compromisso com a organização é incerto. Nesse momento, Black recorda-se de uma das invenções mais recentes dos cientistas da sua organização – o neuroscópio. O neuroscópio é um aparelho que, uma vez introduzido no cérebro de uma pessoa, permite vigiar e controlar os seus estados cerebrais. Black apercebe-se que o neuroscópio lhe permite resolver dois problemas de uma só vez. Se implantar secretamente o neuroscópio no cérebro de Jones, ficará a saber se este continua a ser um dos seus fiéis assassinos – pode acontecer que ele decida, por si mesmo, matar o Presidente, sem que seja necessária a intervenção do neuroscópio – ao mesmo tempo, que se certifica de que Jones cumpre a sua missão e mata o Presidente – porque se o neuroscópio detetar qualquer indício de que ele não o vai fazer, entra em ação e força-o a decidir nesse sentido.

Imaginemos, agora, que no mundo atual Jones decide pelos seus próprios motivos matar o Presidente. Nesse caso temos um situação em que existe uma circunstância em que: (i) Jones toma, por si mesmo, a decisão de matar o Presidente; (ii) se Jones não decidisse, por si mesmo, matar o Presidente, o neuroscópio entraria em ação e forçaria Jones a tomar essa decisão; e (iii) a presença do neuroscópio no cérebro de Jones em nada contribui para a sua decisão de matar o Presidente. Neste caso parece intuitivo que Jones é moralmente responsável pela morte do presidente e, assim, podemos dizer que agente tem livre-arbítrio ainda que não tenha possibilidades alternativas. Ora, isto dá razões para acreditar que o PPA é falso, pois podemos ter livre-arbítrio (no sentido relevante para a responsabilidade moral), ainda que não possamos escolher agir de modo diferente daquele que agimos. De forma similar, Cristo encarnado, em virtude da sua assumida vontade humana, pode ter livre-arbítrio ainda que não tenha possibilidades alternativas e, dessa forma, evitamos a contradição entre TCT e TLH.

Mas, se existirem boas objeções para a proposta compatibilista de Frankfurt (como as apresentadas por David Widerker, Robert Kane e Carl Ginet), haverá outras formas de evitar a contradição entre TCT e TLH supondo que PPA é verdadeiro? A discussão fica em aberto. Um Santo e Feliz Natal!


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