08/12/2017

Haverá boas razões para se aceitar a doutrina da Imaculada Conceição?



Hoje é feriado, não um feriado qualquer, mas sim um feriado para se celebrar a Imaculada Conceição. Mas haverá boas razões para se aceitar e levar a sério essa doutrina da Imaculada Conceição que, por vezes, contemporaneamente é tão ridicularizada? Vale a pena recordar que essa doutrina, que advoga que Maria - a mãe de Jesus Cristo - nasceu e viveu sem pecado original (i.e. sem inclinações desordenadas ou imorais), foi instituída como dogma ex cathedra pelo Papa Pio IX em 8 de dezembro de 1854 (com o documento Ineffabilis Deus).

Apesar de existir uma proclamação formal desta doutrina como dogma de fé, é importante salientar que existiu e ainda existe um longo debate controverso no cristianismo em relação à doutrina da Imaculada Conceição e os argumentos estão longe de ser consensuais (e ainda bem!). Nas origens desse debate temos, por um lado, Tomás de Aquino a apresentar argumentos contra a doutrina da Imaculada Conceição, pois tal doutrina sugere que Maria não precisa de ser redimida por Cristo (ameaçando a universalidade da redenção de Cristo) e, por outro lado, Duns Escoto (e outros franciscanos) construindo argumentos a favor desta doutrina e defendendo que tal doutrina não nega a universalidade da redenção. Curiosamente os argumentos da tradição de Duns Escoto receberam gradualmente uma maior aceitação pela Igreja Católica do que os de Tomás de Aquino.

Mas que razões então existem para se acreditar na Imaculada Conceição? As razões tradicionais, na linha da tradição de Duns Escoto, prendem-se com a ideia de que uma das condições necessárias para se dar à luz um indivíduo sem pecado ou até filho de Deus é que a própria mãe não tenha qualquer mácula ou pecado original; daí Maria, para poder ser a mãe de Deus, não pode herdar o pecado original, sendo assim a “Imaculada Conceição” (i.e. nascida sem pecado original). Esta via tradicional foi questionada por vários filósofos e teólogos. A título de exemplo, Karl Barth procura argumentar que mesmo Jesus, para ser totalmente homem, herda a natureza pecaminosa que o resto de nós possui.

Porém, quero aqui explorar uma outra possível linha argumentativa ligeiramente diferente da tradicional a favor da doutrina da Imaculada Conceição, com inspiração no filósofo Jack Mulder. Esta via argumentativa procura defender que se o cristianismo é verdadeiro, então é necessário que Maria, a mãe de Jesus, seja concebida imaculada de forma a dar um completo consentimento livre à Encarnação. Assim, dado o cristianismo, o argumento pode ser explicitamente formulado desta forma:
  1. Se Deus deseja fecundar uma mulher, então Ele fará tudo o que for necessário, removendo qualquer impedimento, para que tal mulher exerça um completo consentimento livre para dar à luz o Filho de Deus (caso contrário Deus seria um violador - o que seria contraditório com a sua perfeição moral).
  2. Deus deseja fecundar a Virgem Maria para a salvação do mundo.
  3. Portanto, Deus fará tudo o que for necessário, removendo qualquer impedimento, para a Virgem Maria exercer um completo consentimento livre para dar à luz o Filho de Deus. [de 1 e 2]
  4. Contudo, se Maria herda o pecado original, então isso impede-a de exercer um completo consentimento livre para dar à luz o Filho de Deus.
  5. Logo, Maria não herda o pecado original; ou seja, ela é a Imaculada Conceição. [de 3 e 4]
Este argumento é válido; caso seja igualmente sólido e cogente, podemos aceitar racionalmente a condicional de que se o cristianismo for verdadeiro, então Maria é a Imaculada Conceição. As premissas que exigem mais fundamentação são a (2) e a (4). Quanto à premissa (2) já avaliei neste blog algumas razões para se aceitar essa premissa. Pode-se consultar essas razões aqui, aqui, e aqui. Mas que razões podemos ter para aceitar (4)? Aqui a ideia a defender é que a herança de inclinações desordenadas (ou seja, o pecado original e a tendência para o mal) é suficiente para ameaçar um completo consentimento livre de Maria. Mas porquê?

Para avançar com uma resposta positiva podemos oferecer uma experiência de pensamento. Considere-se que um agente hipotético, Marta, é um ser humano comum que herda e é infetado pelo pecado original (tal como defendido na cosmovisão cristã tradicional). Suponha-se igualmente que Marta é confrontada com algo semelhante à Anunciação, com a proposta de se tornar a mãe do Filho de Deus. O que fará ela nessa situação? Não estando livre do pecado original, é possível que a ação dela de consentimento seja de alguma forma guiada por interesses ou por medos, e não seja a expressão de um ato completamente livre. Ela poderá pensar em algo como o seguinte: “é melhor eu consentir pois conheço bem a forma como a fúria de Deus tem sido descarregada para com os rebeldes no passado” ou “é melhor eu aceitar a proposta, caso contrário poderei sofrer com consequências adversas da sua rejeição”. É duvidoso que um indivíduo com inclinações desordenadas tenha um completo consentimento livre pelas razões corretas. Ou seja, a deliberação ou consentimento não estará livre de alguma espécie e grau de coerção, tal como se afirma na premissa (4). Ora, no caso da Virgem Maria, para não haver esses problemas de coerção no consentimento, é possível que Deus faça tudo o que estiver ao seu dispor para que Maria não herde o pecado original ou as inclinações desordenadas, sendo dessa forma Imaculada Conceição.

Será esta linha de argumentação plausível? Pretendo realçar uma limitação central a este argumento que tem a ver com a conceção de pecado original como herança (que tem origem em Santo Agostinho). A ideia de Agostinho é que a humanidade foi criada por Deus como um produto completo ou perfeito que seria corrompida pelo pecado, sendo esse pecado original herdado de geração em geração. Contudo, há uma tradição rival com raízes em Santo Ireneu que entende o pecado original de forma completamente diferente. De acordo com essa tradição baseada em Ireneu entende-se a humanidade criada por Deus não como um produto completo ou perfeito, mas sim como uma natureza imatura que precisa de se desenvolver gradualmente de forma livre e genuína, sendo o pecado (ou seja, o mal moral) uma consequência ou subproduto desse desenvolvimento gradual. Ora, nesta última perspetiva o pecado original não é algo que se herda e, dessa forma, a presente linha argumentativa a favor da conceção original perde a sua força. Mas será a tradição de Ireneu sobre o pecado original mais plausível do que a de Agostinho? Na minha tese de doutoramento (ver aqui), na secção 8.2.2.2, defendo que os dados das atuais Ciências Cognitivas da Religião favorecem a aceitabilidade da tradição de Ireneu em vez da tradição de Agostinho.

Haverá outras limitações para este argumento? Haverá forma de ultrapassar essas limitações? Será possível conceber outras vias argumentativas a favor da Imaculada Conceição que sejam mais plausíveis? O debate filosófico e teológico continua… Bom feriado!


Gostou deste artigo? Receba outros por e-mail, assine a nossa newsletter. Digite aqui o seu e-mail:

Este artigo, com comentários, encontra-se no seguinte tema: ,

Escreva aqui os seus comentários ao artigo "Haverá boas razões para se aceitar a doutrina da Imaculada Conceição?":

5 Domingos Faria: Haverá boas razões para se aceitar a doutrina da Imaculada Conceição? Hoje é feriado, não um feriado qualquer, mas sim um feriado para se celebrar a Imaculada Conceição. Mas haverá boas razões para se aceit...
>