03/03/2017

Será a doutrina do inferno logicamente consistente?



Várias religiões defendem a existência do inferno. Por exemplo, de acordo com o Catecismo da Igreja Católica (cf. 1035), "as almas dos que morrem em estado de pecado mortal descem imediatamente, após a morte, aos infernos, onde sofrem as penas do Inferno, «o fogo eterno»". O papa Bento XVI na sua encíclica Spe Salvi (cf. III, 44) afirma que "no fim, no banquete, eterno, não se sentarão à mesa indistintamente os malvados junto com as vítimas, como se nada tivesse acontecido". Esta doutrina deu inspiração a obras de arte impressionantes e grotescas, tal como os frescos (que se vê acima) da cúpula da catedral de Florença. Mas será essa doutrina do inferno logicamente consistente? Será que um Deus justo e amoroso poderá condenar um ser humano a um inferno eterno?

Penso que um Deus justo e amoroso que condene um ser humano a um inferno eterno é logicamente inconsistente. Explico porquê: Mesmo a criatura mais pecaminosa, tendo necessariamente um poder limitado, não pode causar males infinitos. Para uma criatura causar um mal infinito teria de ter pelo menos um poder ilimitado. Mas, como os seres humanos não têm poder ilimitado, segue-se que os seres humanos não podem causar males infinitos. Ora, se um qualquer Deus condena seres humanos finitos e com poderes limitados a um suplício de magnitude infinita, então isso seria incompatível com a proporcionalidade da justiça, pois qualquer punição infinita por males finitos, praticados por seres humanos com poderes limitados, seria infinitamente injusta. Assim, é logicamente inconsistente que tal Deus que pratique tais actos de condenação infinita seja simultaneamente bom, justo, e amoroso. Logo, quem acredita num tal Deus acredita numa impossibilidade lógica. Ou seja, para além desse Deus não existir no mundo actual, ele nem sequer poderia existir.

Sustentar que Deus condena alguns a um suplício de magnitude infinita é, portanto, incompatível com a proporcionalidade da justiça. Ou seja, qualquer punição infinita por males finitos praticados seria infinitamente injusta. Todavia, ainda assim penso que pode ser coerente ou consistente Deus criar, não um inferno infinito, mas sim um inferno temporário proporcional ao acto cometido. Tal pode ser consistente e possível num sentido lógico com a justiça divina. Portanto, um inferno temporário pode ainda ser algo consistente.

Além disso, deixando de lado o argumento da justiça proporcional e avançando para outro argumento bem diferente, podemos conceber que uma dada pessoa por sua livre-vontade quer viver eternamente no inferno. Ora, se Deus respeita a livre-vontade ou livre-arbítrio, então poderia criar um inferno eterno para essa pessoa. Assim, neste sentido um inferno eterno também poderia ser algo consistente (só não seria consistente no sentido punitivo ou de justiça proporcional). Ou seja, se Deus existe e dá livre-arbítrio às pessoas, e se uma das pessoas quer livremente viver eternamente no inferno, então é possível que Deus respeite essa liberdade.

Penso que há uma paralelo entre o "problema do mal" e o "problema do inferno", ou seja, entre a defesa da consistência entre o mal no mundo e Deus, tal como na defesa da consistência entre a doutrina do inferno (numa versão fraca não-punitiva) e um Deus amoroso. Penso que nos dois casos pode-se tentar apelar ao livre-arbítrio (ou, melhor, à sua possibilidade lógica) para se tentar estabelecer a consistência em questão. Por exemplo, dado o cristianismo, pode-se argumentar que:

1. Deus escolheu soberanamente criar pessoas que são livres (no sentido libertista).
2. Deus, sendo amor, deseja salvar toda a gente.
3. Se somos livres no sentido libertista, podemos rejeitar a salvação (i.e. podemos escolher rejeitar eternamente Deus).
4.  É possível que nem todos sejam salvos. [de 1-3]

Ora, se este argumento for bem sucedido, a posição universalista será falsa (pois, o universalismo diz que é necessário, dada a concepção amorosa e soberana de Deus, que todos sejam salvos). Assim, se esta via de argumentação for de algum modo plausível, será falso que a única opção consistente para quem acredite em Deus é o universalismo. Com isto pode ser falso aquilo que alguns afirmam ao sustentarem que "só Deus, se acaso tivesse um criado algum inferno, poderia merecer habitá-lo". Mas aqui há uma outra alternativa: é possível que uma pessoa com livre-arbítrio pretenda rejeitar livremente a salvação ou deseje viver toda a eternidade no inferno. Isso parece concebível e consistente ao contrário da versão punitiva do inferno eterno. Atenção: só estou a avaliar a consistência.

Para quem desejar aprofundar filosoficamente este tema, recomendo a leitura do artigo "Heaven and Hell in Christian Thought" publicado na Stanford Encyclopedia of Philosophy (clique aqui) e do artigo "Hell" publicado na Internet Encyclopedia of Philosophy (clique aqui). Alguns livros recentes de filosofia tratam este problema, como o livro The Problem of Hell: A Philosophical Anthology (Routledge, 2010) editado por Joel Buenting; o livro The Inescapable Love of God (2014) de Thomas Talbott; o livro Destiny and Deliberation: Essays in Philosophical Theology (Oxford, 2011) de Jonathan Kvanvig.


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