19/01/2017

O problema da ausência divina retratado no "Silêncio"



O problema da ausência divina é uma conjunção da forma mais intensa do problema da ocultação divina e da mais intensa versão do problema do mal. Este problema levanta um desafio para a crença em Deus através de um cenário em que crentes devotos têm experiências de dor e sofrimento cruel sem entenderem por que razão Deus permanece oculto e falha a responder à sua agonia desesperada e pedidos de ajuda. Este problema é descrito de forma vivida no romance Silêncio de Shusaku Endo e agora no filme do mesmo nome realizado por Scorsese.

Neste romance, em que se relata alguns factos históricos, começamos por constatar que os cristãos escondidos no Japão (chamados Kakure Kirishitans) foram perseguidos. Muitos deles que eram apanhados pelos oficiais e que se recusavam a negar a sua fé (ao pisar um fumie com a imagem de Jesus) eram torturados cruelmente e mortos por decapitação, crucificação, ou executados ao serem queimados numa fogueira. Um dos métodos de tortura mais eficazes foi o chamado anazuri que consistia em pendurar a vítima, completamente amarrada, de cabeça para baixo dentro de uma fossa. Com tais torturas pretendia-se que os cristãos renunciassem à sua fé.

Uma das personagem principais de Silêncio é Cristóvão Ferreira, uma figura história, que foi um padre jesuíta português missionário no Japão e renunciou à sua fé ao fim de cinco horas de tortura com o método anazuri. Depois ele teve um nome japonês, Chuan Sawano, e casou com uma mulher japonesa, publicando um livro criticando o cristianismo e contribuindo para a perseguição dos cristãos.

Mas a personagem central é um discípulo de Ferreira, um jesuíta português chamado Sebastião Rodrigues, que vai de propósito ao Japão para convencer o antigo mestre a regressar à fé. Contudo, da mesma forma que Ferreira, Rodrigues é preso e cruelmente torturado. Inicialmente ele deseja experimentar um martírio glorioso, mas ao ouvir as vozes e gemidos de cristãos japoneses a serem torturados, começa a questionar-se: "por que razão Deus está continuadamente em silêncio perante tais gemidos". Ao longo deste romance e filme, o silêncio de Deus atormenta Rodrigues e fá-lo questionar a existência de Deus. E essa profunda perplexidade sobre o silêncio de Deus aumenta à medida que testemunha uma série aparentemente interminável de mortes de cristãos japoneses. Ele não suporta tal situação e decide pisar o fumie de Jesus para renunciar à sua fé.

Isto ilustra bem o problema da ausência divina que pode constituir um dos grandes desafios para a crença teísta. Pois, é um problema que começa por envolver mal horrendo. E enquanto podemos estar confortáveis a acreditar que Deus permite algum estado de coisas mau de forma a instanciar algum bem maior, é mais difícil acreditar que Deus permite um estado de coisas que envolve muita dor e sofrimentos absolutamente terríveis que aparentemente são gratuitos, sem sentido, e não servem para qualquer propósito aparente, tal como parecem todas aquelas torturas aos Kakure Kirishitans. Mas para além disso, o problema envolve em simultâneo a ocultação divina aos crentes devotos; e se o problema da ocultação divina para não-crentes que não sejam resistentes já é enigmático, muito mais o é com respeito a crentes devotos, alguns dos quais estão preparados para sacrificarem as suas vidas por Deus. E de facto o que Rodrigues considera intrigante é que Deus permaneça escondido mesmo dos Kakure Kirishitans devotos que estão preparados para morrer por Deus. Diante de tais situações, ele questiona-se por que razão Deus permanece em silêncio mesmo quando alguém está disposto a morrer por ele.

É interessante ver que Ferreira não renunciou à fé porque não poderia suportar a tortura (o mal horrendo) ou a ocultação divina em geral. Pelo contrário, ele renunciou à fé porque não poderia suportar a ocultação de Deus com respeito ao mal horrendo que os crentes devotos, tal como ele próprio e os Kakure Kirishitans, tinham de amargurar. É a conjunção do horrendo mal com a ocultação divina que ele não consegue suportar.

Na longa tradição teísta foram desenvolvidas muitas teodiceias em resposta ao problema do mal e pode-se examinar igualmente se essas teodiceias se podem aplicar ao problema da ausência divina. Por exemplo, uma das mais populares é a teodiceia do livre-arbítrio. Aplicada ao problema da ausência divina pode-se alegar que os seres humanos livres são responsáveis pelo mal horrendo e que se Deus não permanecesse oculto poderia colocar em causa um livre-arbítrio genuíno. Pode-se fazer o mesmo exercício para qualquer outra teodiceia que se considere plausível.

Este tipo de resposta pode dar conta do aspecto intelectual da ausência divina que diz respeito à consistência lógica entre a existência de Deus e a ocorrência de ausência divina. Todavia, tais teodiceias não terão muita utilidade para resolver um outro aspecto relevante desse problema, pois demonstrar meramente a consistência lógica da existência de Deus com um estado de coisas que envolve ausência divina não elimina a parte experiencial desse problema. A ideia é que a questão "Por que razão Deus permanece silencioso perante a nossa dor e sofrimento?", que Ferreira e Rodrigues colocam em agonia, não pode ser apenas interpretada como equivalente a uma questão de consistência, mas pode igualmente ser interpretada como um apelo por ajuda, ou até reclamação, a partir de uma perspectiva de primeira pessoa, ou seja: "Deus, por que razão estás em silêncio?! Se existes, não deverias estar em silêncio! Explica-nos pelo menos por que não nos podes ajudar!" É sobretudo este último problema que fica em aberto.



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