23/11/2016

Acabar com a opção entre a lógica aristotélica e proposicional no programa de filosofia?


A propósito da discussão da revisão do programa de filosofia (ver aqui) surgiu também a discussão sobre se a lógica deve continuar ou não no 11º ano e sobre se a opção de leccionar entre lógica aristotélica (LA) e lógica proposicional (LP) deve acabar. Tal como argumentei no post anterior acho que temos boas razões para colocar a lógica no início do 10º ano. Mas será que se deve acabar a opção da leccionação entre LA e LP?

O Aires Almeida (ver aqui) apresenta duas razões para acabar com essa opção: (1) a LA não é alternativa à LP, e (2) "a ideia de que deve haver opção destrói o argumento de que a lógica se justifica por ser uma ferramenta necessária que todos os alunos devem aprender a manejar". A mim convence-me mais a segunda razão do que a primeira; pois, quanto a (1), talvez se possa responder que a LA e LP são alternativas na medida em que na primeira se trata da quantificação e da relação entre os termos numa proposição enquanto a LP não é capaz disso. Por sua vez, a LP lida com conectivas (como a condicional, conjunção, disjunção, etc) que a LA não consegue lidar. Portanto, há um sentido em que LA e LP são alternativas. No entanto, se opção fosse entre LA e a lógica de predicados ou quantificada (LQ), então aí a opção por leccionar LA supostamente perderia todo o sentido, nem LA constituiria uma verdadeira alternativa, dado que LQ consegue acomodar todas as virtudes de LA e LP. Por isso, talvez o ideal fosse apenas leccionar LQ em vez de LA ou LP.

Então o que se deve fazer: manter a opção entre LA e LP ou acabar com essa opção? Penso que a resposta a essa questão depende do objectivo que se pretende com a lógica. Por um lado, se encararmos a lógica meramente como instrumento ou ferramenta básica para determinar a validade dos argumentos, então faz sentido acabar com essa opção. Isto porque essa ferramenta ou instrumento deve ser o mesmo para todos os alunos e, além disso, é mais apropriada a LP (o ideal seria a LQ) do que a LA dado que a primeira consegue abranger um número muito maior de argumentos do que a segunda. Penso que nisso quase todos concordamos. Mas, por outro lado, quero realçar que talvez fizesse sentido ter a opção entre LA e LP apenas no caso de se encarar a lógica secundário, não como instrumento, mas sim como objecto de reflexão filosófica. Aí poder-se-ia dar LA ou LP como se dá qualquer outra teoria filosófica, e discutir as várias objecções e contra-objeções a essas teorias. Portanto, ter a opção ou não entre as duas lógicas depende do objectivo que se pretende com a lógica no programa de filosofia do ensino secundário: ser um mero instrumento ou ser antes um objecto de reflexão filosófica? No primeiro caso não faz sentido haver opção, mas no segundo caso talvez faça sentido haver opção.

Fica a questão: o que pretendemos com o ensino da lógica no ensino secundário? Ser um instrumento para ser aplicado ao longo do programa ou ser antes um objecto de reflexão filosófica? Que respostas dá às sondagens sobre lógica que estão na barra lateral?

Para debater outros problemas sobre a lógica aristotélica clique aqui e aqui.


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