31/08/2016

Hume, Fátima, e o Milagre do Sol


Uma grande parte dos católicos acredita que em 13 de Outubro de 1917, na localidade de Fátima (em Portugal), aconteceu o "milagre do Sol" e que nossa senhora apareceu e transmitiu uma mensagem de fé relevante a três pastorinhos. Esse milagre do Sol foi testemunhado por uma grande multidão composta tanto por crentes e cépticos. É importante também referir que a Igreja Católica reconheceu oficialmente o "milagre de Fátima" em 13 de Outubro de 1930. No entanto, ao longo dos anos surgiram várias objecções interessantes ao milagre do Sol que vale a pena considerar e avaliar criticamente. Por exemplo, Richard Dawkins (ver aqui) defende o seguinte:
"Por um lado, é-nos pedido que acreditemos numa alucinação em massa, num artifício de luz ou numa mentira colectiva envolvendo 70 000 pessoas. Isto é reconhecidamente improvável, mas é menos improvável do que a alternativa: que o Sol realmente se moveu. O Sol que estava sobre Fátima não era, afinal, um Sol privado: era o mesmo Sol que aquecia todos os outros milhões de pessoas no lado do planeta em que era dia. Se o Sol se moveu de facto, mas o acontecimento só foi visto pelas pessoas de Fátima, então teria de se ter dado um milagre ainda mais notável: teria de ter sido encenada uma ilusão de não-movimento relativamente a todos os milhões de testemunhas que não estavam em Fátima. E isso se ignorarmos o facto de que, se o Sol se tivesse realmente deslocado à velocidade referida, o sistema solar se teria desintegrado".
Com base nesta passagem, bem como no argumento de David Hume sobre os milagres, os autores de um dos blogues mais importantes e interessantes sobre o ensino da filosofia em Portugal, o blog "A Dúvida Metódica", sustentam que "os milhões de pessoas que acreditam no milagre de Fátima acreditam, portanto, numa falsidade" (para ver o post completo clique aqui). Serão estas críticas plausíveis? Irei defender que estas objecções não são procedentes e que cometem falhas graves.

Em primeiro lugar, o Richard Dawkins (como costuma fazer com alguma frequência) está a apresentar, nessa citação exposta acima, uma clara falácia do "homem de palha". Isto porque ninguém que investigou seriamente e que procura defender racionalmente esse fenómeno de Fátima sustenta que "o Sol realmente se moveu". Por exemplo, o padre e físico Stanley Jaki no livro "God and the sun at Fatima" (de 1999) afirma que muito provavelmente o fenómeno que ocorreu em 13 de Outubro de 1917 é de natureza meteorológica e não de natureza astronómica, sendo completamente passível de ser explicado de um ponto de vista naturalista (pela conjunção de nuvens do tipo cirro, de nuvens de baixa altitude, de ventos, etc...). Mas, então, onde está o milagre? Caso exista realmente milagre, ele parece estar na previsão impressionante desse fenómeno meteorológico (pois os pastorinhos anunciaram com antecedência e precisão o dia, hora, e local desse fenómeno; foi aliás por causa disso que estava tanta gente naquele local naquele dia). É claro que é muito disputável se isto, entendido desta forma, é realmente um milagre. Mas, dada a existência de Deus, isso não será impossível nem talvez bastante improvável. Mas quer tenha havido ou não milagre, é preciso salientar que a crítica do Dawkins falha completamente no alvo e que está, mais uma vez, a cometer uma falácia óbvia.

Além disso, é importante questionar: será que de facto a Igreja Católica defende que no fenómeno de Fátima "o Sol realmente se moveu"? Onde é que a Igreja Católica (papa, bispos, padres que sejam crediveis) sustentam que o fenómeno de Fátima de 1917 é um fenómeno de natureza astronómica em vez de ser de natureza meteorológica? Aquilo que conheço da Igreja Católica (e se ela procura conciliar fé e a razão/ciência, como costuma alegar), então ela segue e defende aquilo que o padre e físico Stanley Jaki sustenta no seu livro "God and the sun at Fatima" (de 1999), ou seja, que muito provavelmente o fenómeno que ocorreu em 13 de Outubro de 1917 em fátima é de natureza meteorológica e não de natureza astronómica, sendo completamente passível de ser explicado de um ponto de vista naturalista (sendo que, a haver milagre, esse milagre não está nesse fenómeno meteorológico mas na previsão clara e precisa dos pastorinhos desse fenómeno). Aliás, esta versão do fenómeno de fátima (como evento meteorológico e não como astronómico) parece corresponder aos testemunhos escritos supostamente imparciais e objectivos de várias pessoas credíveis que presenciaram directamente a esse fenómeno, como o testemunho de Gonçalo Xavier de Almeida Garret que era professor de matemáticas e especialista de astronomia na Universidade de Coimbra. Portanto, mais uma vez realço que o Dawkins está a bater num espantalho (pelo menos não atinge minimamente a Igreja Católica e os crentes que procuram boas razões para a sua fé, bem como conciliar a fé com a ciência, mesmo neste fenómeno de Fátima).

Em segundo lugar, e filosoficamente mais relevante, é importante salientar que o argumento de Hume não é metafísico mas sim epistémico. Assim ele não está a argumentar que os milagres são falsos ou até impossíveis; pelo contrário, só está a argumentar que não é razoável ou racional acreditar em milagres apenas com base do testemunho. Por isso não entendo como os autores do blog "Dúvida Metódica" possam defender que, com base em David Hume, "os milhões de pessoas que acreditam no milagre de Fátima acreditam, portanto, numa falsidade". No máximo o que se pode concluir com uma argumentação humeana é o seguinte: os milhões de pessoas que acreditam no milagre de Fátima acreditam em algo que é, do ponto de vista epistémico, irrazoável ou irracional. Mas daí não se segue que o milagre em questão seja falso ou sequer impossível. Para se mostrar isso seria necessário outro tipo de argumento. É também relevante salientar que o argumento do Hume está a pressupor uma concepção reducionista do testemunho. Agora a questão interessante a discutir é a de saber se o argumento continua a correr com uma concepção não-reducionista do testemunho (na linha de Thomas Reid). E já agora é importante discutir que concepção de testemunho será a mais plausível (a reducionista, ou não-reducionista, ou uma híbrida, ou ainda uma abordagem pluralista do testemunho caso-a-caso). Cada uma destas concepções terá consequências diferentes para se aceitar um dado testemunho(s) como racional ou irracional.

Mas, afinal, qual é o argumento de David Hume? No seu argumento (presente na secção 10 do livro "Enquiry Concerning Human Understanding"), Hume está comprometido com a tese epistémica de que não é razoável acreditar em milagres apenas via testemunho uma vez que é mais razoável acreditar, dada a evidência ou indícios de que dispomos, que as testemunhas estão equivocadas do que o contrário. Vale a pena reler o livro do Hume e tentar formular com precisão e clareza o seu argumento, avaliando se é um argumento cogente ou não. Aqui fica uma proposta de formulação que me parece bastante rigorosa:
(1) Em qualquer caso em que estamos perante o testemunho que um milagre M ocorreu, devemos pesar essa evidência testemunhal a favor da ocorrência de M contra a nossa evidência que M não ocorreu.
(2) Mas se M é um milagre, então (dada a definição humeana de milagre) M deve entrar em conflito com uma lei da natureza L, para a qual a nossa evidência deve ser excelente. (E a nossa evidência para L deve ser excelente, caso contrário L não seria uma evidente lei da natureza).
(3) Todavia, a nossa evidência testemunhal a favor da ocorrência de M será sempre menor do que excelente. (Isto porque o testemunho a favor de milagres tem tudo menos um histórico excelente: por exemplos, conhecemos muitos casos onde o testemunho que algum milagre ocorreu foi fraudulento, em que as testemunhas se enganaram ou foram desonestas, etc).
(4) Portanto, em qualquer caso em que estamos perante o testemunho que algum M ocorreu, a nossa evidência testemunhal a favor da ocorrência de M será sempre mais fraca do que a nossa evidência inductiva contra a ocorrência de M. (De 1 a 3).
(5) Logo, será sempre irrazoável acreditar, meramente com base da evidência testemunhal, que um milagre ocorreu. (De 4).
Acho que esta formulação é uma boa reconstrução do argumento de Hume. Mas caso se aceite a reconstrução proposta do argumento de Hume, não se pode concluir que "os milhões de pessoas que acreditam no milagre de Fátima acreditam, portanto, numa falsidade". O que se pode concluir é que "os milhões de pessoas que acreditam no milagre de Fátima, meramente com base da evidência testemunhal, acreditam nalgo irrazoável". Essa é uma diferença relevante. Além disso, vale a pena considerar e levar a sério possíveis objecções a esse argumento humeano. Por um lado, é possível criticar a premissa (2), atacando a definição humeana de milagre como violação de uma lei da natureza, mostrando-se que essa condição não é necessária nem suficiente para algo ser milagre. Por outro lado, é possível criticar a premissa (3), pois para essa premissa ser verdadeira a concepção reducionista de testemunho terá de ser a mais plausível. Mas será a mais plausível? Isso é muito disputável na epistemologia do testemunho contemporânea. Ora, se a concepção não-reducionista do testemunho for a mais plausível, como muitos epistemólogos actuais procuram defender, então já não será nada claro nem evidente que essa premissa (3) é verdadeira. Por isso, não podemos dar de barato, como os autores do "Dúvida Metódica" parecem pressupor implicitamente no seu blog, que o argumento do Hume é o melhor ou é à prova de bala. Isso está muito longe de ser consensual e ainda hoje este é um argumento que continua a ser muito debatido com novas objecções e contra-objecções. Em suma, o problema e a discussão continua em aberto. Mas, apesar do problema continuar em aberto, parece que ficou claro que as críticas ao milagre do Sol, tanto de Richard Dawkins como dos autores da Dúvida Metódica, falham completamente o alvo.



Actualização - 12/10/16:

  • Para além da recomendação do livro do físico e padre Stanley Jaki, recomendo também agora um artigo em português de 1960, do católico e professor universitário Diogo Pacheco de Amorim, que argumenta que temos a melhor evidência e indícios a favor da interpretação metereológica e que, a haver milagre, esse está apenas na impressionante previsão. O artigo pode ser consultado aqui entre as páginas 145-204. Este artigo do professor Diogo Pacheco de Amorim reúne do mesmo modo os mais importantes e credíveis testemunhos directos deste fenómeno de Fátima. E todos esses testemunhos indiciam que o que ocorreu foi de natureza meteorológica e não astronómica.

  • Além disso, se lermos a "Documentação Crítica de Fátima em 13 volumes" que está presente no Santuário de Fátima veremos igualmente argumentação para esta mesma conclusão. Portanto, o Dawkins está completamente errado quando diz que a posição da Igreja é a de que o evento foi de natureza astronómica. Em suma, se a posição da Igreja é que o evento não é de natureza astronómica (e toda a bibliografia relevante da Igreja indica que o fenómeno foi de natureza meteorológica e não astronómica), e se o Dawkins diz que é de natureza astronómica, estão o Dawkins está a deturpar completamente a posição da Igreja e a cometer uma falácia do espantalho.



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