01/11/2015

Será mau estar morto? Um argumento de Epicuro


Epicuro, na Carta a Meneceu, defende que estar morto nunca é um mal para quem morre. Por isso, não nos devemos incomodar ou ter medo da nossa futura condição de estar morto. Epicuro justifica que estar morto não é um mal para quem morre argumentando que “todo o mal e todo o bem assentam na sensação e a sensação acaba com a morte”. A ideia aqui presente parece ser que algo só pode ser mau ou bom para nós se pudermos sentir ou experienciar isso; ora, uma vez que com a morte finda com toda a sensação ou experiência, então esta não pode ser má para quem está morto. Desse modo, “a morte, o mais temido dos males, não nos diz respeito; pois enquanto existimos a morte não está presente, e quando a morte está presente nós já não existimos. Nada é portanto nem para os vivos nem para os mortos visto que não está presente nos vivos, e os mortos já não são”. O argumento de Epicuro pode ser reconstruído desta forma:
(P1) Não somos afetados por um evento ou estado de coisas antes de acontecer.
(P2) A morte é um evento ou estado de coisas.
(C1) Assim, a morte não nos afeta antes de acontecer. [Instanciação (P1) e (P2)]
(P3) Se a morte nos afeta enquanto estamos vivos, então ela afeta-nos antes de acontecer.
(C2) Deste modo, a morte não nos afeta enquanto estamos vivos. [Modus Tollens (P3) e (C1)]
(P4) Se a morte nos afeta enquanto estamos mortos, então ela afeta-nos quando nós não existimos.
(P5) Mas, nós não somos afetados por nada quando não existimos.
(C3) Desta forma, nós não somos afetados pela morte quando não existimos. [Instanciação (P5)]
(C4) Portanto, a morte não nos afeta enquanto estamos mortos. [Modus Tollens (P4) e (C3)]
(C5) Então, não é o caso que a morte nos afete enquanto estamos vivos ou enquanto estamos mortos. [Conjunção (C2) e (C4)]
(P6) Ora, se a morte nos afeta, então afeta-nos enquanto estamos vivos ou enquanto estamos mortos.
(C6) Por isso, a morte não nos afeta. [Modus Tollens (P6) e (C5)]
(P7) O que não nos afeta não é um mal para nós.
(C7) Logo, a morte não é um mal para nós. [Modus Ponens (P7) e (C6)]
Será este um bom argumento? Penso que não. Para ver a minha crítica a uma versão deste argumento clique aqui. Nesse artigo defendo que existem boas razões para se aceitar a perspetiva da privação, de acordo com a qual a morte pode ser um mal para quem morre.


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