06/06/2015

Uma deficiência fatal no argumento ontológico de Anselmo


No capítulo 2 do “Proslogion”, Santo Anselmo apresenta o argumento ontológico a favor da existência de Deus. O argumento é uma redução ao absurdo. Ou seja, postula-se a não existência de Deus e a partir daí mostra-se que essa suposição leva a uma contradição. Utilizando a palavra “Deus” para abreviar a expressão “o ser mais grandioso do que o qual nenhum outro é possível”, Alvin Plantinga (1974, p. 202) sugeriu a seguinte formulação rigorosa do argumento de Anselmo:

(1) Deus não existe no mundo atual. [Suposição para a redução ao absurdo]
(2) Para quaisquer mundos M e M’ e objeto x, se x existe em M e x não existe em M’, então a grandiosidade de x em M excede a grandiosidade de x em M’. [Premissa]
(3) É possível que Deus exista. [Premissa]
(4) Há um mundo possível M tal que Deus existe em M. [De 3]
(5) Deus existe em M e Deus não existe no mundo atual. [De 1 e 4]
(6) Se Deus existe em M e Deus não existe no mundo atual, então a grandiosidade de Deus em M excede a grandiosidade de Deus no mundo atual. [De 2]
(7) A grandiosidade de Deus em M excede a grandiosidade de Deus no mundo atual. [De 5 e 6]
(8) Há um ser possível x e um mundo M tal que a grandiosidade de x em M excede a grandiosidade atual de Deus. [De 7]
(9) É possível que exista um ser mais grandioso do que Deus. [De 8]
(10) É possível que exista um ser mais grandioso do que o ser mais grandioso do que o qual nenhum outro é possível. [De 9, pela definição de “Deus”]
(11) Mas não é possível que exista um ser mais grandioso do que o ser mais grandioso do que o qual nenhum é possível.
(12) Logo, Deus existe no mundo atual. [De 1, 10 e 11]

Será este um bom argumento? Plantinga pensa que não, pois há uma deficiência fatal neste argumento, nomeadamente na premissa (11). À primeira vista (11) parece verdadeira. Mas se analisarmos com mais pormenor essa premissa é suscetível a duas leituras:

(11’) Não é possível que exista um ser mais grandioso do que o ser mais grandioso do que o qual nenhum é possível, nos mundos em que a sua grandiosidade esteja no máximo.
(11’’) Não é possível que exista um ser mais grandioso do que o ser mais grandioso do que o qual nenhum é possível, no mundo atual.

Plantinga nota que o “ser mais grandioso do que o qual nenhum outro é possível” pode ter diferentes graus de grandiosidade em diferentes mundos. Por um lado, de acordo com a leitura (11’) aponta-se para aqueles mundos em que esse ser tem a sua máxima grandiosidade. Além disso, afirma-se aí que o grau de grandiosidade que ele tem naqueles mundos não é excedida por qualquer outro. O que parece correto. No entanto, há um problema: (11’) não contradiz (10). Isto porque (10) diz apenas que é possível que exista um ser mais grandioso do que o ser mais grandioso do que o qual nenhum outro é possível, no mundo atual. Ou seja, diz que há um ser possível cuja grandiosidade excede a que tem o ser mais grandioso possível no mundo atual. Mas isso não contradiz a proposição (11’) e, por isso, não se pode aplicar a redução ao absurdo.

Por outro lado, caso adotemos a leitura (11’’), conseguimos aplicar sem problemas a redução ao absurdo, uma vez que (11’’) contradiz realmente (10). Mas há um problema com esta leitura (11’’). De acordo com (11’’), não é possível haver um ser cuja grandiosidade ultrapasse a que tem o ser mais grandioso possível no mundo atual. No entanto, não temos qualquer razão para pensar que essa proposição é verdadeira ou necessariamente verdadeira. Pois, se há um ser cuja grandiosidade num dado mundo é absolutamente máxima, então certamente que não poderia haver um ser mais grandioso do que isso. Contudo, daí não se segue que este ser tem tal grau de grandiosidade no mundo atual. Apenas se segue que tem esse grau de grandiosidade num dado mundo, mas não necessariamente no mundo atual.

Portanto, a deficiência fatal do argumento de Anselmo é a seguinte: ou a premissa (11) é verdadeira, seguindo a leitura (11’), mas então o argumento é inválido; ou o argumento é válido, mas então a premissa (11), seguindo a leitura (11’’), é falsa. Assim, de uma forma ou de outra, o argumento não será bem-sucedido.

Esta crítica ao argumento de Anselmo parece-me muito mais prometedora do que as objeções de Gaunilo ou de Kant, as quais podem ser mais ou menos respondidas e não mostram realmente qual é o problema com o argumento. Penso que Plantinga consegue identificar com muito mais rigor o que está de errado no argumento de Anselmo. No entanto, Plantinga não foi o único a notar este problema, David Lewis no artigo “Anselm and Actuality” (de 1970) também apresenta uma crítica muito semelhante. Mas pelo facto deste argumento de Anselmo ter um enorme deficiência, não se segue que algum outro tipo de argumento ontológico tenha o mesmo erro e que não possa ser bem-sucedido. A este propósito vale a pena analisar uma das mais recentes e consistentes defensas do argumento ontológico proposta por Robert Maydole nos artigos “The Ontological Argument” (2009) e “Ontological Arguments Redux” (2012).


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