26/01/2015

Tetrálogo sobre a verdade na religião


No próximo dia 12 de Fevereiro será publicado o livro "Tetralogue: I'm Right, You're Wrong" (Tetrálogo: Eu estou certo, Tu estás errado) do influente filósofo Timothy Williamson. Este livro é uma criativa introdução a alguns temas importantes da filosofia acerca da verdade e falsidade, relativismo e dogma, ciência e superstição. Tem a forma de uma conversa ficcional entre quatro pessoas (daí o título 'Tetrálogo') com perspectivas sobre o mundo radicalmente diferentes que se encontram num comboio e que discutem entre si o que acreditam. A leitura parece ser bastante acessível e bem humorada. Aqui fica um excerto que traduzi livremente entre as páginas 65 e 68 sobre a verdade na religião:

Zac - E quanto à verdade na religião, Sarah? Quando alguém diz 'Há um Deus', não faz uma afirmação que é verdadeira ou falsa num sentido científico.
Sarah - Isso é porque a palavra 'Deus' não tem qualquer significado científico.
Zac - Tem significado para a pessoa que faz a afirmação.
Sarah - Mas podemos nós entender isso?
Zac - Podemos usar respeitosamente a sua palavra 'Deus' para comunicar com eles.
Roxana - Então podemos dizer: ao afirmarem que existe um Deus, falam verdadeiramente se e só se há um Deus, e falsamente se e só se não há Deus. Os princípios de Aristóteles aplicam-se igualmente bem às afirmações religiosas como às científicas.
Zac - Mas a forma como as pessoas religiosas respondem à questão 'Há um Deus?' é completamente diferente da forma como os cientistas respondem às suas questões. 
Sarah - Tanto pior para as pessoas religiosas. Elas devem adoptar uma abordagem científica para responderem à sua questão, especialmente porque tal questão é importante.
Zac - Se eles tentassem adoptar uma abordagem científica, não estariam a participar do jogo de linguagem religioso, tal como o velho Ludwig diria.
Bob - Que Ludwig?
Zac - Ludwig Wittgenstein, Bob. Tal como ele diria, a gramática subjacente da questão 'Há um Deus?' é bastante diferente daquela da questão 'Há um bosão?'
Roxana - De acordo com os linguistas, 'Há um Deus?' e 'Há um bosão?' têm a mesma estrutura gramatical, tanto na sintaxe como na semântica.
Bob - Eu não entendo lá muito de gramática, mas não consigo ver a que diferença estás a tentar chegar, Zac. E não penso que os meus amigos religiosos gostariam que lhes dissessem que a religião deles é apenas um jogo.
Zac - Acho que não entendeste como Wittgenstein está a usar as palavras 'jogo' e 'gramática', Bob.
Bob - Por que não poderia ele falar em linguagem normal? Do que tu dizes, ele usou palavras comuns, como 'gramática', com o seu próprio jargão técnico.
Zac - Bob, ele estava a falar sobre um mais profundo tipo de gramática do que a dos estudo linguísticos.
Roxana - O Zac é daqueles que pensa que um rio enlameado é mais profundo do que um limpo, porque não podem ver o fundo.
Zac - Adoraria psicanalisar a tua escolha de metáforas, Roxana.
Roxana - Não projectes os teus pensamentos obscenos em mim.
Sarah - A psicanálise foi descredibilizada cientificamente há décadas.
Zac - Ela não pretende ser uma ciência, Sarah. É um método de interpretação em aberto.
Sarah - Ou má interpretação.
Roxana - Será que o Zac está disposto a ouvir o que tenho para dizer sem interromper com as suas associações irrelevantes?
Zac - Será a irrelevância dele relevante, Roxana?
Roxana - Chega de estratégias dilatórias. O Zac parece supor que se as pessoas usam diferentes métodos para responder a uma questão, eles querem dizer coisas diferentes com isso. Ele nega que as palavras 'verdadeiro' e 'falso' querem dizer na religião o que elas querem dizer na ciência, porque são aplicadas com base em diferentes métodos.
Zac - Isso é o que uma diferença no significado representa, Roxana.
Roxana - Não, estás a confundir significado com método de verificação. Duas pessoas podem usar diferentes métodos para determinar quando aplicar uma palavra, mas ainda assim querem dizer o mesmo com ela.
Bob - Estou perdido outra vez.
Roxana - Quando os testes de ADN foram utilizados pela primeira vez em julgamentos de homicídios, o significado da palavra 'homicida' não mudou.
Zac - Isso é apenas uma diferença de grau. Não é como a diferença radical em espécie entre as formas religiosas e científicas de responder a uma questão.
Sarah - Até podem responder à mesma questão. Uma pessoa religiosa e um cientista podem concordar sobre que tipo de carácter e poderes são necessários para se ser um Deus, mas em seguida dedicam-se a tentar descobrir se existe um utilizando formas radicalmente diferentes. Um usa a oração, o outro a experiência.
Bob - Não é a oração um tipo de experiência, ao esperar para ver se é atendida?
Sarah - Talvez, mas não é uma experiência apropriadamente controlada. Nenhuma revista científica aceitaria isso para publicação.
Zac - Mesmo se dissermos que a questão 'Há um Deus?' é a mesma, a resposta depende do ponto de vista a partir do qual é respondida. Pode ser 'Não' a partir do ponto de vista de um cientista, 'Sim' a partir de um ponto de vista de uma pessoa com tendências religiosas.
Sarah - A tua conversa sobre pontos de vista desmoronou antes da última estação.
Bob - Com muitos menos danos colaterais do que o meu muro.
Sarah - Sim, o Zac apenas quer dizer que o cientista pensa que a resposta é 'Não' enquanto a pessoa religiosa pensa que a resposta é 'Sim'. A questão é qual resposta é verdadeira, e qual é falsa. Isso só depende de saber se há um Deus. 



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