19/12/2014

A racionalidade moral da encarnação


O filósofo Richard Swinburne, no seu livro “Was Jesus God?” (2008) inicia desta forma o seu terceiro capítulo que tem o título “Deus partilhou a nossa natureza humana”:

É um facto geral óbvio sobre o mundo que os seres humanos não sofrem apenas, mas fazem muito mal. Como é que um Deus amor responderá ao sofrimento e pecado destas criaturas débeis, mas em parte racionais, que ele fez? Argumentarei que a priori seria de esperar que Deus responda ao nosso sofrimento e pecado ao viver ele mesmo uma vida humana. Deus iria viver uma vida humana por intermédio de uma pessoa divina que se torna humana (i.e. 'tornando-se encarnada'). Argumentarei que Deus iria inevitavelmente viver uma vida humana de forma a partilhar o sofrimento humano; e argumentarei que, muito provavelmente, Deus utilizaria essa vida humana de forma a tornar disponível a remissão dos nossos pecados e para nos ensinar como viver.

Swinburne para defender estas ideias apresenta um argumento de analogia que pode ser sintetizado desta forma:

Suponha que o nosso país foi atacado injustamente e que o governo decidiu introduzir um serviço militar obrigatório de modo a organizar um exército para defender o país. As condições de recrutamento são as seguintes: todos os jovens entre os 18 e 30 anos são obrigados a servir no exército, enquanto que os homens mais velhos podem ser voluntário. Além disso, o governo permite que os pais possam vetar o recrutamento dos filhos que tenham entre os 18 e 21 anos (e na realidade tal veto é usado pela maioria dos pais).

Imagine igualmente que tenho mais de 30 anos e que tenho um filho de 19 anos. Suponha também que recuso vetar o recrutamento do meu filho por causa da independência do nosso país estar em enorme ameaça (ou seja, devido a um bom propósito). Agora vem a parte crucial do argumento: plausivelmente, uma vez que estou a forçar o meu filho a suportar as dificuldades e perigos do serviço militar, eu tenho para ele uma obrigação moral de me voluntariar igualmente no serviço militar.

Em analogia, parece plausível supor que, dada a quantidade de dor e sofrimento que Deus permite que os seres humanos suportem (devido a um bom propósito – como, por exemplo, haver livre-arbítrio, entre outros…), seria obrigatório Deus partilhar uma vida humana de sofrimentos. Ora, isto seria alcançado por uma pessoa divina que encarnasse como um ser humano e que vivesse uma vida que tenha muito sofrimento. Aliás, parece que uma forma óbvia de como esse Deus encarnado poderia partilhar os piores sofrimentos que os seres humanos suportam seria ele próprio viver uma vida que acabaria com uma morte dolorosa e injusta. 

Portanto, se Deus amor existe e cria um mundo e humanos com sofrimento, então Deus partilha (e tem obrigação moral de partilhar) da vida humana e desse sofrimento. Esta é a condicional que me parece estar presente na conclusão do argumento de Swinburne. Além disso, a inexistência de Deus não tornaria a condicional falsa e um ateu pode bem aceitar este argumento. 

A condicional só seria falsa caso exista um mundo possível em que (1) Deus amor existe e cria um mundo e humanos com sofrimento e (2) Deus não partilha (nem tem obrigação moral de partilhar) da vida humana e desse sofrimento. E isto parece ser algo que tanto judeus como muçulmanos aceitam (apesar dos judeus pensarem que Deus ainda não partilhou da vida humana, alguns pensam que no futuro vai partilhar). Agora seria preciso examinar que razões têm as outras religiões para negarem a condicional. Pelo menos, Swinburne apresenta três razões para se pensar que a condicional é verdadeira; a primeira foi o argumento que agora expus aqui, a segunda tem a ver com a remissão dos pecados e a terceira com um modelo moral de vida. Serão estes argumentos procedentes? [Para acompanhar a discussão deste argumento clique aqui]


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