04/11/2014

A evolução natural é incompatível com o teísmo?


Será que a evolução natural darwinista implica que não pode haver um Deus que guie o processo da evolução? Tanto os teístas criacionistas como os ateístas evolucionistas parecem responder afirmativamente a essa questão. Por um lado, os teístas criacionistas, como Michael Behe, alegam que o processo evolutivo é incapaz de produzir as complexas e irredutíveis características adaptativas que os organismos têm (como o caso dos cílios e dos flagelos) e que tais características têm de ser o resultado da direta intervenção de Deus na natureza. Por outro lado, os ateus evolucionistas, como Richard Dawkins, insistem que a evolução natural é um processo cego, inconsciente, sem qualquer propósito e por isso não há espaço para qualquer Deus. Apesar destas duas posições serem opostas, de forma geral tanto teístas criacionistas como ateístas evolucionistas concordam com a seguinte premissa, sendo ‘E’ a abreviatura de ‘evolução natural darwinista’ e ‘D’ a abreviatura de ‘Deus teísta existe’:

(1) □(E→¬D)

Ou seja, necessariamente, se num mundo há E, então não há D. Ou, por outras palavras, em todos os mundos possíveis a conjunção de E e D é falsa. No entanto, enquanto os teístas criacionistas fazem modus tollens a partir de (1) para concluírem que o evolucionismo é falso:

(2) D
(3) ∴ ¬E

Os ateístas fazem modus ponens a partir de (1) para concluírem que Deus não existe:

(2’) E
(3’) ∴ ¬D

Todavia, os teístas evolucionistas discordam das duas posições anteriores uma vez que negam a premissa (1); assim sustentam a seguinte premissa:

(1*) ◊(E∧D)

Ou seja, é (logicamente) possível a conjunção da evolução e de Deus. Mais concretamente os teístas evolucionistas sustentam que Deus fez os organismos e as suas complexas características adaptativas ao colocar o processo evolutivo em andamento. Neste caso, Deus produz os organismos indiretamente.

Mesmo assim, quando falamos da teoria da evolução, para além da seleção natural, também falamos da mutação genética aleatória. Ora, a ideia de que as mutações são "aleatórias" pode parecer um ponto de conflito entre E e D; pois a mutação aleatória sugere "acaso cego". Porém, de acordo com o teísmo, o que Deus causa não ocorre por acaso cego, uma vez que os teístas frequentemente pensam a evolução como sendo guiada por Deus. Mas como pode isto ser verdade se as mutações não são guiadas?

Parece haver portanto aqui um conflito; mas tal conflito é ilusório uma vez que quando os evolucionistas dizem que as mutações ocorrem ao acaso ou aleatoriamente, eles não querem dizer que as mutações não são causadas. Em vez disso, como salienta o filósofo da ciência Elliott Sober (2011), "o seu ponto é que as mutações não ocorrem porque elas seriam úteis para os organismos nos quais elas ocorrem. É bem conhecido que há eventos físicos, como a radiação, que influenciam as probabilidades das mutações. Alguns desses eventos causam o aumento das taxas de mutação (...)". Na mesma linha de raciocínio, Ernst Mayr (1988) alega que "quando é dito que a mutação ou variação é aleatória, a afirmação simplesmente significa que não há correlação entre a produção de novos genótipos e as necessidades adaptacionais de um organismo num dado ambiente". Todavia, de acordo com este sentido, uma mutação pode ser aleatória e também pretendida e causada (indiretamente) por Deus, de tal forma que a teoria da evolução é compatível tanto com um Deus deísta como com um Deus teísta, tal como defende Sober:
"Teístas evolucionistas podem claro ser deístas, sustentando que Deus coloca o universo em movimento e, depois, recusa-se sempre a intervir. Mas não há contradição em adotar um Deus mais ativo cujas interversões pós-criação passem sob o radar da biologia evolutiva. A intervenção divina não é parte da ciência, mas a teoria da evolução não implica que isso não ocorra".
O filósofo e ateu Michael Ruse também defende que o processo da evolução é aleatório, mas não no sentido de não-causado, sendo logicamente possível que, caso Deus exista, Deus pode causar por vezes as mutações num nível quântico ou sub-atómico. Ou seja, defende que a evolução natural e um Deus teísta que intervém é uma conjunção logicamente possível. Isto é igualmente defendido por cientistas, como Kenneth Miller ou Robert John Russell. Não são apenas os teístas que advogam a verdade de (1*), mas também há vários ateístas insuspeitos que defendem que a premissa (1*) é verdadeira ou plausível, como é o caso de Michael Ruse, Elliott Sober ou até mais recentemente Daniel Dennett. 

Sobre este tema vale a pena ler:
  • Elliott Sober (2008) Evidence and Evolution – the Logic Behind the Science.
  • Kenneth Miller (2007) Finding Darwin's God: A Scientist's Search for Common Ground Between God & Evolution.
  • Michael Ruse (2000) Can a Darwinian Be a Christian? The Relationship Between Science and Religion.


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