03/06/2014

Será a função apropriada uma condição necessária para a garantia?



No próximo dia 5 de Junho apresentarei uma comunicação sobre a teoria epistémica de Plantinga no 1º Encontro de Pós-graduandos e Jovens Investigadores de Filosofia, Comunicação e Informação (ver programa) que se realizará na Universidade de Coimbra. Aqui fica o resumo:

Será a função apropriada uma condição necessária para a garantia? Um exame da teoria epistémica de Plantinga

Platão, no Teeteto, estabeleceu a ordem de trabalhos para a epistemologia ocidental, nomeadamente: o que distingue o conhecimento da mera crença verdadeira? Chame-se garantia (warrant) ao que deve ser acrescentado à crença verdadeira para se ter conhecimento. Assim, a questão central é a seguinte: o que é a garantia? 
Na resposta a este problema, Alvin Plantinga (1993) argumenta que noção de função apropriada é central para a garantia; ou seja, defende que haver faculdades cognitivas que funcionem adequadamente, sem qualquer disfunção ou mau funcionamento, é uma condição necessária para a garantia. Na clarificação de função apropriada, Plantinga esclarece que este conceito está intrinsecamente conectado com a noção de plano (que especifica a forma pela qual uma coisa deve funcionar), bem como com a noção de propósito ou função, entre outros, podendo todos estes conceitos ser interdefiníveis. Portanto, de acordo com esta teoria, uma crença p tem garantia para um sujeito S só se p é produzida em S por faculdades cognitivas que funcionem apropriadamente.
O meu objetivo com esta comunicação é analisar as motivações e argumentos de Plantinga para aceitar essa condição necessária. Por exemplo, Plantinga argumenta que teorias rivais da garantia, como é o caso das teorias internalistas ou das teorias externalistas fiabilistas, falham e são suscetíveis de contraexemplos do tipo Gettier precisamente porque não contemplam a condição da função apropriada. A ideia é que se uma dada teoria epistémica da garantia não acolher essa condição necessária, então mesmo que um sujeito cognitivo preencha todas as condições (necessárias e suficientes) dessa teoria, esse sujeito pode mesmo assim ter uma crença verdadeira apenas por acidente e, por isso, não ter conhecimento. Ou seja, nenhuma teoria da garantia pode ser bem-sucedida enquanto não reconhecer a necessidade da função apropriada.
Para desafiar estas ideias e argumentos de Plantinga, pode-se conceber alguns contraexemplos para a tese de que a função apropriada é necessária para a garantia. Isto é, pode-se imaginar contraexemplos, como os de Sosa (1993) ou os de BonJour (2002), em que os sujeitos têm crenças garantidas, mas que não exibem uma função cognitiva apropriada (devido a um plano medíocre ou até ao facto de não haver qualquer plano). Um desses contraexemplos é o cenário do “homem do pântano” (swampman), que foi originalmente concebido por Davidson, mas que pode ser adaptado para criticar a teoria de Plantinga. Nesse cenário conclui-se que é logicamente possível que o homem do pântano tenha crenças garantidas, no entanto não tem um plano ou propósito (por ter surgido apenas por acidente) e, por isso, não funciona apropriadamente.
Procurarei defender que este tipo de contraexemplos não é plausível, pois ou não é claro que sejam logicamente possíveis ou, mesmo que sejam possíveis, daí não se segue que entidades como o homem do pântano não tenham um plano ou propósito. Por isso, não considero que este tipo de críticas coloque em causa a tese de que a função apropriada é uma condição necessária para a garantia.



Gostou deste artigo? Receba outros por e-mail, assine a nossa newsletter. Digite aqui o seu e-mail:

Este artigo, com comentários, encontra-se no seguinte tema:

Escreva aqui os seus comentários ao artigo "Será a função apropriada uma condição necessária para a garantia? ":

5 Domingos Faria: Será a função apropriada uma condição necessária para a garantia? No próximo dia 5 de Junho apresentarei uma comunicação sobre a teoria epistémica de Plantinga n...
< >