05/06/2013

Crítica de Frege ao Argumento Ontológico



No parágrafo §53 de "Os Fundamentos da Aritmética" de Frege podemos ler a seguinte crítica ao argumento ontológico:
“Naturalmente que não entendo por propriedades que podem ser atribuídas a um conceito as características que compõem o conceito. Estas são propriedades das coisas que caem sob o conceito e não propriedades do conceito. Deste modo, «rectângulo» não é uma propriedade do conceito «triângulo rectângulo»; no entanto, a proposição que afirma não existir qualquer triângulo rectângulo, rectilíneo e equilátero exprime uma propriedade do conceito «triângulo rectângulo, rectilíneo e equilátero»; a este conceito atribuiu-se o número zero.
Neste contexto, a existência tem semelhanças com o número. A afirmação da existência nada mais é que a negação do número zero. Uma vez que a existência é uma propriedade de um conceito, a prova ontológica da existência de Deus não atinge o seu objectivo. Também a unicidade é tão pouco quanto a existência uma característica do conceito «Deus». A unicidade pode tanto ser usada para definir este conceito com a solidez, amplidão e comodidade de uma casa podem ser usadas na construção, juntamente com os tijolos, a argamassa e as vigas. Não deve, no entanto, ser inferido de forma geral do facto de que algo é uma propriedade de um conceito que essa propriedade não se pode seguir do conceito, ou melhor, das suas características. Isso pode acontecer sob determinadas condições, tal como, por vezes, se pode inferir, a durabilidade de um edifício a partir da consideração do tipo de pedra usado na sua construção. Daí que seja ir longe de mais afirmar que nunca é possível inferir a unicidade e a existência a partir das características de um conceito; só que isso nunca poderia ocorrer duma forma tão imediata como a que consiste em atribuir a um objecto como sua propriedade uma característica de um conceito sob o qual ele cai.
Seria igualmente falso negar que a existência e a unicidade alguma vez possam ser características de conceitos. O que elas não são é características daqueles conceitos, aos quais, de acordo com a língua quereríamos atribuir. Se, por exemplo, juntarmos num único conceito todos aqueles conceitos sob os quais cai um objecto, então a unicidade é uma característica desse conceito. Sob este conceito cairia, por exemplo, o conceito «lua da Terra», mas não o corpo celeste que assim chamamos. Desta forma, um conceito pode cair sob um outro conceito superior, isto é, sob um conceito, por assim dizer, de segunda ordem. Esta relação, porém, não deve ser confundida com a relação de subordinação”.
(Tradução de António Zilhão, publicação de 1992 na Imprensa Nacional Casa da Moeda)


Gostou deste artigo? Receba outros por e-mail, assine a nossa newsletter. Digite aqui o seu e-mail:

Este artigo, com comentários, encontra-se no seguinte tema:

Escreva aqui os seus comentários ao artigo "Crítica de Frege ao Argumento Ontológico":

5 Domingos Faria: Crítica de Frege ao Argumento Ontológico No parágrafo §53 de "Os Fundamentos da Aritmética" de Frege podemos ler a seguinte cr...
< >