30/03/2013

Filosofia da Ressurreição



Na Páscoa os cristãos celebram a ressurreição de Jesus. E os cristãos acreditam que a ressurreição de Jesus serve como um modelo para a ressurreição das pessoas no futuro. Se a doutrina cristã da ressurreição dos mortos for verdadeira, então haverá num futuro distante muitas pessoas que serão ressuscitadas. Mas surge um problema filosófico: cada uma destas pessoas ressuscitadas será numericamente a mesma que aquela que vivia antes de morrer? Com esta questão não se está a perguntar se elas são qualitativamente a mesma pessoa, mas sim se elas são numericamente idênticas a alguém que viveu no passado. Por um lado, a identidade numérica é aquela relação que cada coisa tem consigo mesma e com nenhuma outra coisa, apresentando uma relação reflexiva, simétrica e transitiva. Do mesmo modo, respeita o princípio da indiscernibilidade dos idênticos: ∀x ∀y (x=y → ∀P (Px ↔ Py). Por exemplo: Véspero e Fósforo são numericamente idênticos, pois são um e o mesmo objeto (i.e. o planeta Vénus). Por outro, existe identidade qualitativa entre x e y quando x e y são fortemente semelhantes com respeito a determinados aspetos. Por exemplo: dois exemplares do “Naming and Necessity” são qualitativamente idênticos, mas não numericamente idênticos, pois são dois e não um e o mesmo objeto.
Dualistas de substâncias, como Richard Swinburne [que no livro “The Resurrection of God Incarnate” (2003) aplica o teorema de Bayes a um argumento para mostrar que a probabilidade da ressurreição de Jesus ronda os 97%], respondem à questão inicial defendendo que a pessoa permanece a mesma, uma vez que aquilo que lhe dá a identidade é a alma. E a alma é numericamente a mesma antes e depois da ressurreição, mesmo que o corpo não seja igual ou mesmo que a alma exista sem corpo. Porém, penso que os argumentos de Swinburne a favor da alma são implausíveis [publicarei mais tarde uma análise crítica destes argumentos]. 
Mas será que se rejeitarmos o dualismo de substâncias abandonamos a possibilidade da ressurreição? Um materialista pode sustentar a doutrina da ressurreição? De facto, parece que é mais difícil para um materialista explicar a identidade numérica da pessoa antes e depois da ressurreição. Para isso vamos imaginar, como sugere Peter van Inwagen, um manuscrito escrito pelo próprio Santo Agostinho. Além disso, vamos supor que este manuscrito foi queimado e destruído nalgum momento passado. Mas o que alguém pensaria de um monge que alega que está agora na posse do mesmo manuscrito de Agostinho que foi queimado e destruído no passado? Van Inwagen nega que o monge possa possuir um manuscrito numericamente igual ao que foi queimado e destruído, apesar do monge poder ter uma cópia qualitativamente igual do manuscrito. Mesmo que Deus reconstrua o manuscrito, o tal manuscrito será apenas um duplicado, sendo este qualitativamente igual ao original mas não numericamente igual.
Agora podemos fazer uma analogia com as pessoas. Para o materialista as pessoas são objetos materiais, tal como o manuscrito. Deste modo, se o corpo de uma pessoa que morre entra em decomposição e é destruído, então Deus (apesar de omnipotente) não pode reconstruir o corpo da pessoa na ressurreição para ser numericamente igual à anterior (o máximo que pode fazer é uma cópia qualitativamente igual), tal como no caso do manuscrito. Portanto, se o materialismo for correto, então a ressurreição de pessoas numericamente iguais parece colocada em causa.
No entanto, Peter van Inwagen no artigo “The Possibility of Resurrection” (1978) argumenta a favor da possibilidade metafísica da ressurreição que é compatível com o materialismo. Então, de que forma van Inwagen ultrapassa o problema que foi levantado ao materialismo? A solução passa por ser possível haver uma ressurreição dos corpos antes destes serem deteriorados ou destruídos. Assim, é lógica e metafisicamente possível que no momento da morte de cada pessoa, Deus remova o cadáver e substitui-lo por um simulacro (imitação), que é aquilo que entra em decomposição e é destruído. Despois na ressurreição dos mortos, Deus toma o cadáver que tem preservado e restaura-o à vida. Esta teoria funciona como a defesa do livre-arbítrio em Alvin Plantinga: não tem de ser verdadeira, mas apenas possível e consistente.
Será esta teria de Peter van Inwagen plausível? Podemos objetar que nesta perspetiva Deus é um enganador, pois quando enterramos ou cremamos cadáveres pensamos que estes são os originais e não meros simulacros. Então, se estamos errados acerca disto, parece que Deus nos anda constantemente a enganar. Apesar disso, van Inwagen no Postscript em 1997 concede que pode haver outras maneiras de um ser omnipotente poder realizar a ressurreição dos mortos sem recurso ao simulacro.
Uma boa forma de passar o dia de Páscoa é discutir estes assuntos filosóficos sobre a ressurreição. Por isso deixo em anexo o artigo do filósofo Peter van Inwagen para que os leitores possam examiná-lo criticamente, apresentando tanto objeções como outras alternativas. Convido a escreverem as vossas opiniões críticas sobre isto nos comentários. Uma boa Páscoa!



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