30/01/2013

Deus existe? Cinco argumentos de Tomás de Aquino


Na questão número dois do primeiro livro da Suma Teológica trata-se do seguinte problema filosófico: Será que Deus existe? Tomás de Aquino responde que Deus existe. No entanto, defende que a existência de Deus não é por si mesma evidente. Aliás, Deus não é algo tão evidente que basta apenas a apreensão do seu termo (ou da sua definição) para saber se existe (crítica ao argumento ontológico). Mas, para Tomás de Aquino a existência de Deus pode ser racionalmente demonstrada de forma a posteriori, ou seja, partindo do que constatamos no mundo e dos seus efeitos podemos chegar à conclusão da existência de Deus. E é precisamente isso que tenta fazer no artigo terceiro da questão dois.
Para responder ao problema filosófico inicial, Tomás de Aquino começa por expor os melhores argumentos contra a existência de Deus, de modo a examinar se estes são plausíveis ou não. O primeiro argumento que apresenta é o argumento lógico do mal. Este argumento, que é um grande desafio para aqueles que acreditem em Deus, tem as suas origens no livro de Job e também em Epicuro, e está presente ao longo da história até aos nossos dias. Tomás de Aquino formula-o desta forma:
(1) Se Deus existisse, então não haveria mal no mundo.
(2) Há mal no mundo.
(3) Logo, Deus não existe.
Este argumento, que é formalmente válido por modus tollens, procura defender que a existência de Deus é logicamente inconsistente com a existência do mal. Ou seja, se Deus é bom, então quer acabar com o mal; se é omnisciente, então sabe que o mal existe; e se é omnipotente, então pode acabar com o mal. Portanto, se Deus existe, então destruiria totalmente o mal. Mas como existe mal, então segue-se que não existe Deus.
Um outro argumento que Tomás de Aquino apresenta procura dispensar a necessidade de Deus para explicar a realidade. Pode-se formalizar o argumento da seguinte forma:
(4) O que pode ser explicado por poucos princípios, não o é por muitos.
(5) Todas as coisas que aparecem no mundo podem ser explicadas por outros princípios que não Deus.
(6) Logo, não há necessidade da existência de Deus.
Na premissa (4) defende-se o princípio da parcimónia, isto é, as explicações e as entidades não devem ser multiplicadas sem necessidade. Além disso, como se advoga na premissa (5), para se explicar as coisas no mundo basta recorrer à natureza no caso dos fenómenos naturais, bem como à razão ou à vontade no caso das ações intencionais. Por isso, postular Deus seria acrescentar um princípio desnecessário. Portanto, podemos prescindir de Deus para explicar a realidade.
Com estes argumentos parece que se conseguiu provar que Deus não existe. Mas serão plausíveis estes argumentos? Tomás de Aquino considera que estes não são argumentos sólidos, pois partem de pelo menos uma premissa falsa. Assim, não se pode aceitar a verdade da conclusão.
Tomás de Aquino, no primeiro argumento, nega a premissa (1). Ao negar esta premissa defende que Deus existe, mas há mal no mundo. Ou seja, defende que a existência de Deus pode ser logicamente compatível com a existência do mal. Para isso, citando Santo Agostinho, salienta que Deus pode extrair o bem até do mal, ou por outras palavras que o mal no mundo pode ser necessário para haver um bem maior. E isto parece claro com o livre-arbítrio. A ideia é que um mundo com livre-arbítrio é melhor do que um mundo sem livre-arbítrio, pois num mundo sem livre-arbítrio o ser humano seria um mero autómato ou um mero robô. Porém ter um genuíno livre-arbítrio implica escolher não apenas o bem, mas também o mal. Ora, se Deus quer o melhor para nós e nos dá livre-arbítrio, então tem de haver a possibilidade de haver mal.
No segundo argumento, nega a premissa (5). Pois, as coisas que aparecem no mundo estão orientadas para um determinado fim, estão ordenadas e são feitas com um propósito. Ora, esta orientação para um fim não pode ser explicada pela natureza, nem pela razão ou vontade, porque estas são mutáveis e imperfeitas. Por isso, precisa-se de algo superior, necessário e imutável, que explique a direção das coisas do mundo para um fim; ou seja, Deus não é dispensável para explicar a realidade.
No entanto, Tomás de Aquino não se limita apenas a mostrar a falta de cogência nos argumentos contra a existência de Deus. Procura, do mesmo modo, avançar com cinco argumento, as “cinco vias”, que tentam provar que Deus existe. Os seus primeiros três argumentos são diferentes versões do argumento cosmológico, o qual parte de uma premissa empírica sobre a causalidade para concluir a existência de Deus. E o seu último argumento é uma versão do denominado argumento teleológico ou do desígnio, pois parte de uma premissa de que as coisas do mundo têm uma ordem e finalidade para se concluir que Deus existe.
No primeiro argumento, defende a existência de um primeiro motor (Deus) para explicar o movimento no mundo:
(7) No mundo, algumas coisas são movidas.
(8) Tudo o que é movido, é movido por outro.
(9) Não se pode proceder até ao infinito nos moventes e movidos.
(10) Logo, é necessário um primeiro motor, que é Deus.
O primeiro pormenor que é importante clarificar neste argumento é o conceito de movimento que significa qualquer mudança, transformação, mutação. Quanto à justificação das premissas, a (7) pode ser constatada pela experiência, pois vemos constantemente que algumas coisas se movem, transformam, alteram. 
A premissa (8) exige uma justificação mais cuidada: para Tomás de Aquino o que é movido está em potência (i.e., pode vir a ser o caso) e o que move está em ato (i.e., é de facto o caso). E mover algo é conduzi-lo da potência ao ato. Mas, algo só atualiza a sua potência por causa de outro móbil. Ou seja, um móbil não se pode mover a si próprio. Por exemplo, a água fria com 5°C não consegue transformar-se por si só em água a ferver com aproximadamente 100°C. A água não atualiza a sua potência por si mesmo, mas por outro (neste caso devido a uma fonte de calor com 100°C). Além disso, não é possível que a mesma coisa esteja sobre um mesmo aspeto simultaneamente em ato e potência. Por exemplo, é impossível que a mesma água esteja simultaneamente com 100°C em ato e com 100°C em potência. Portanto, algo passa da potência ao ato por causa de outro que está em ato e não por si mesmo.
Porém não se pode ir até ao infinito nos moventes e movidos, como refere a premissa (9), porque assim não existiria um primeiro movente, nem qualquer outro, o que implicaria que nada poderia ser movido. Ora como há coisas que se movem, então tem de existir um primeiro motor, ou seja, Deus. É preciso salientar que Tomás de Aquino está a referir-se aqui a uma subordinação essencial ou simultânea (per se) entre moventes e movidos, e não a uma subordinação sequencial ou acidental (per accidens). No per accidens a subordinação ou a causalidade é independente; pois, por exemplo um filho depende do pai para existir, mas não depende do seu pai para gerar uma criança. Aqui não há transitividade porque numa sequência “A, B e C”, é possível que B cause C sem A (isto é, o filho pode procriar mesmo que o seu pai esteja morto), portanto B pode ser independente de A. E até pode ser possível regredir indefinidamente (por exemplo, um fruto surge de uma árvore, a árvore surge de uma semente, e uma semente surge de um fruto e por aí em diante…). Porém, no per se a subordinação ou causalidade entre moventes e movidos não é independente. Por exemplo, um bastão move uma pedra porque este é movido pela mão de um homem – o movimento da pedra, do bastão e da mão é simultâneo e transitivo (se A causa B e B causa C, então A causa C), não podendo os efeitos persistirem sem a primeira causa (sem o A); ou seja, se a mão não move o bastão ao mesmo tempo que o bastão se encontra em contacto com a pedra, então o bastão não moverá a pedra. Por isso, a subordinação per se não pode regredir ao infinito, uma vez que numa série infinita de moventes e movidos, em que são simultânea e transitivamente subordinados, não haveria um primeiro motor imóvel que fosse a causa de todo o movimento. Se não houver um primeiro motor, todo o movimento fica sem causa e sem explicação – não há lugar para uma cadeia simultânea e transitiva de movimento e causas. Esta causalidade per se é igualmente importante para se compreender o próximo argumento.
No segundo argumento, Tomás de Aquino defende a existência de uma causa primeira (Deus) para explicar as cadeias causais no mundo:
(11) No mundo, todas as coisas têm uma causa eficiente.
(12) Nada pode ser a causa eficiente de si mesmo.
(13) Não é possível que se proceda até ao infinito nas causas eficientes.
(14) Logo, existe uma causa primeira eficiente, que é Deus.
Causa eficiente é a causa que gera mudança, que produz e que leva uma coisa a existir. E de facto, no mundo sensível, verifica-se uma ordem de causas eficientes, como se defende na premissa (11). Por exemplo, como é que temos o pão? O pão foi causado pelo calor do forno e pelo amassar da farinha; por sua vez a farinha foi causada pelo moer do grão de milho; o grão de milho foi causado pelo crescimento da planta do milho que fez nascer as espigas; e a planta do milho cresceu por causa da água, da terra, do sol, entre outros. Assim, temos um conjunto de causas que nos levam ao efeito do pão. Portanto, parece razoável aceitar que as coisas dependem de outras para existirem.
Além disso, nenhuma destas coisas é causa eficiente de si própria, como se expressa na premissa (12); ou seja, nada das coisas sensíveis do mundo pode ser a sua própria causa porque nada pode causar antes de existir. Se o grão de milho fosse a causa da sua própria existência, então tinha de se causar a si mesmo antes de existir. Mas isto é absurdo, uma vez que as coisas só começam a causar caso existam. Portanto, o grão de milho não se causa a si mesmo, mas é a planta do milho que causa o grão do milho. 
Mas, não se pode regredir ao infinito na cadeia causal, como está patente na premissa (13), pois se as cadeias causais fossem infinitas e não existisse uma primeira causa, então não haveria qualquer dos seus efeitos. Ora, existem efeitos no mundo; logo, tem de existir uma primeira causa, Deus. 
No terceiro argumento, defende a existência de um ser necessário (Deus) do qual dependem os seres contingentes:
(15) No mundo, há coisas contingentes, i.e. que existem mas poderiam não existir.
(16) Mas é preciso que algo seja necessário entre as coisas.
(17) Não é possível que se proceda até ao infinito nas coisas necessárias.
(18) Logo, existe um primeiro necessário, que é Deus.
Podemos constatar que na realidade há coisas que existem mas podiam não existir. Por exemplo, objetos materiais, como computadores e telemóveis, podiam não existir na realidade (e de facto no passado não existiram). Do mesmo modo, é possível que os seres humanos e animais possam não existir. Por isso são contingentes ou não necessários, como está patente na premissa (15). No entanto, é um absurdo para Tomás de Aquino que todas as coisas sejam contingentes. Isto porque o que é contingente em algum momento não existe. Ora, se tudo fosse contingente, então em algum momento nada existiu na realidade. E se nada existiu a um dado momento, então agora também não existe, pois algo só começa a existir a partir de algo que já existe. Mas é absurdo dizer que agora nada existe na realidade. Logo, tem de haver algo que exista necessariamente e que seja a causa das coisas contingentes, como se refere na premissa (16). Além disso, do mesmo modo que já ficou provado nas premissas (9) e (13) que não se pode regredir infinitamente nos móbeis nem nas causas eficientes, também não é possível regredir infinitamente nas coisas necessárias, como salienta a premissa (17). Portanto, tem de existir algo necessário por si que seja a causa da necessidade de todas as outras coisas necessárias, ou seja, Deus.
No quarto argumento, defende a existência de um ser máximo (Deus) do qual os seres participam em diferentes graus de perfeição:
(19) No mundo, as coisas têm diferentes graus de perfeição.
(20) Os graus de perfeição atribuem-se em relação à proximidade do grau máximo.
(21) O grau máximo de um género é a causa de todas as coisas desse género.
(22) Logo, há algo que é a causa da existência para todas as coisas, que é Deus.
Pode-se sondar na realidade que as coisas do mundo são compostas por vários graus de perfeição, como expõe a premissa (19). Ou seja, algumas coisas são melhores outras piores, umas boas e outras menos boas, e o mesmo se diz a respeito da verdade, nobreza, entre outros. Mas, como se vê na premissa (20), tais graus de perfeição atribuem-se com referência a um grau máximo. Por exemplo, algo é mais ou menos quente consoante se aproxime ou afaste do maximamente quente. Tal como o maximamente quente, também existe o maximamente verdadeiro, nobre, etc, e o grau máximo de ser (que engloba todos os outros máximos). Cada um destes graus máximos causa a existência de todas as coisas desse género, como se vê na premissa (21). Por exemplo, o fogo, que é o grau máximo do quente, causa todas as coisas que são quentes. Portanto, o grau máximo de ser é causa da existência para todas as coisas. Este grau máximo de ser é Deus.
No quinto e último argumento, Tomás de Aquino defende a existência de um arquiteto inteligente (Deus) que orienta e organiza as coisas do mundo:
(23) No mundo, algumas coisas operam por causa de um fim.
(24) Estas coisas não atingem o fim por acaso.
(25) Estas coisas não tendem para um fim a não ser dirigidas por algo inteligente.
(26) Logo, existe algo inteligente, que é Deus, que dirige as coisas a um fim.
Na premissa (23) refere-se à causa final, ou seja, ao propósito em função do qual alguma coisa acontece. E defende que certas coisas que carecem de inteligência e que são regidas pelas leis da natureza estão ordenadas com regularidade para uma finalidade. Por exemplo, enquanto se escreve com a caneta no quadro, se porventura a largarmos ela cairá em direção ao chão. E também quando um cão nasce, tende a orienta-se de modo a tornar-se um cão adulto desenvolvido. Toda esta orientação ou direção para uma finalidade não é feita por acaso. Se fosse ao acaso, então cada finalidade seria arbitrária. Mas, tal finalidade não é arbitrária, uma vez que existe constância nas coisas que se orientam para um fim, o que justifica a premissa (24). Portanto, se não se orientam por ocaso, então orientam-se por intenção. Todavia, as coisas carentes de inteligência não têm intenção; por isso, é preciso algum ser inteligente que as oriente, como se defende na premissa (25). Logo, Deus existe, pois é esse ser inteligente.

Resta questionar: Será toda esta argumentação tomista plausível? Será que se conseguiu provar que Deus existe? O que pensa o leitor?



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