22/10/2012

Noções de lógica: introdução




A filosofia é uma atividade crítica que examina as nossas ideias mais básicas recorrendo fundamentalmente ao pensamento. Para isso, na atividade filosófica começa-se pelos problemas, depois tenta-se responder a estes problemas com teorias e sustenta-se estas teorias com razões ou argumentos. Ora, como as teorias não nascem nas árvores nem caem do céu, precisamos de descobri-las e fundamentá-las através da argumentação. Através dos argumentos os filósofos apresentam razões a favor das suas ideias ou teorias. Isto é relevante, pois para defenderem que as suas ideias são as que respondem de forma mais razoável a um determinado problema filosófico têm que apresentar razões para isso e submeter tais razões e argumentos à avaliação crítica e discussão pública para se analisar se tais argumentos são realmente plausíveis ou não. Um argumento pode ser definido como “um conjunto de proposições que utilizamos para justificar (provar, dar razão, suportar) algo. A proposição que queremos justificar tem o nome de conclusão; as proposições que pretendem apoiar a conclusão ou a justificam têm o nome de premissas” (cf. António Padrão). Uma proposição é o pensamento que determinadas frases declarativas (não todas) podem literalmente exprimir. Assim, se questionarmos “que dia é hoje?” ou se exclamarmos “fecha a porta!” não estamos perante proposições. Só estamos diante de proposições quando temos uma frase declarativa com valor de verdade, ou seja, suscetível de ser verdadeira ou falsa. E é preciso ainda atender que existem argumentos bons e outros maus. Por este motivo a lógica surge como um instrumento fundamental para analisarmos se estamos diante de um argumento válido ou inválido. Este é um exemplo de um argumento que pode surgir em qualquer linguagem natural:
Parece que Deus não existe; pois, “os animais e os seres humanos sofrem (em resultado de processos naturais, como doenças e acidentes) e causam sofrimento uns aos outros (magoamo-nos e ferimo-nos uns aos outros e matamo-nos uns aos outros à fome). O mundo contém, pois, muito mal. Um deus omnipotente poderia ter evitado este mal – e sem dúvida que um deus sumamente bom e omnipotente o teria feito. Mas então, por que razão existe este mal? Não será a sua existência um forte indício contra a existência de Deus?” (Swinburne [1996] Será Que Deus existe? Lisboa: Gradiva, p. 109).
Mas para se discutir mais facilmente as teorias e argumentos da filosofia é conveniente fazer a reconstituição dos argumentos que surgem naturalmente ao longo de um texto tornando-os mais explícitos e formulando-os na sua representação canónica. Isto é muito útil para se poder discutir proficientemente os argumentos, uma vez que fica claro quais são as premissas e qual é a conclusão. Para isso é necessário sabermos identificar as premissas, as conclusões e os seus indicadores, os entimemas, bem como deve saber eliminar o ruído (que não contribui em nada para o argumento e para a sua validade), etc. Sem esta reconstituição ativa de argumentos pode-se correr o risco de não se discutir proficuamente os argumentos, podendo-se igualmente cair num mero comentário de textos mas sem haver o tal exame crítico tão característico da filosofia. Este é um exemplo de um argumento, canonicamente representado, que constitui um sério desafio para a crença no Deus teísta:
P1 – Se Deus existe, então não pode existir mal no mundo.
P2 – Ora, existe mal no mundo.
C – Logo, Deus não existe.

Será este argumento dedutivamente válido? A validade dedutiva, que depende unicamente da forma lógica, ocorre quando é impossível que as premissas sejam verdadeiras e a conclusão falsa. Ou seja, se supusermos que as premissas de um argumento dedutivo válido são verdadeiras, a sua conclusão não poderá ser falsa. Uma boa sugestão para analisar a validade ou invalidade de um argumento dedutivo pode ser a seguinte: “Mesmo que as premissas do argumento não sejam verdadeiras, imagina que são verdadeiras. Consegues imaginar alguma circunstância em que, considerando as premissas verdadeiras, a conclusão é falsa? Se sim, então o argumento não é válido. Se não, então o argumento é válido” (cf. António Padrão). Por exemplo: Sócrates e Platão eram filósofos; logo, Sócrates era filósofo. Este é um argumento válido, pois não é possível imaginar uma situação em que a premissa seja verdadeira e a conclusão falsa. Claro que se poderá imaginar que Sócrates não era um filósofo tornando-se a conclusão falsa, mas isso também tornará a premissa falsa. Além disso, se recorrermos a um inspector de circunstâncias constataremos que a forma lógica P ˄ Q ╞ P é uma forma argumentativa válida. Outro exemplo: Sócrates é filósofo; logo, Platão é um habitante da Grécia. Este argumento é inválido, pois é possível que a premissa seja verdadeira e a conclusão falsa. Podemos, por exemplo, imaginar uma circunstância em que Platão fosse habitante de Roma – assim, a conclusão seria falsa, apesar da premissa ser verdadeira. Neste argumento a premissa não justifica de forma alguma a conclusão, sendo por isso a forma lógica P╞ Q inválida.

Depois desta telegráfica explicação sobre a validade argumentativa dedutiva, será então válido ou inválido o argumento que conclui que Deus não existe? O argumento em análise é válido, pois não é possível imaginar qualquer situação em que as premissas sejam verdadeiras e a conclusão falsa. Aliás, este é um argumento que tem a forma lógica válida de “modus tollens”: P → Q, ¬Q ╞ ¬P. Mas será que se provou de modo tão fácil que Deus não existe? É evidente que não! Pois, com a validade só afirmamos que se as premissas forem verdadeiras, a conclusão não pode ser falsa; ou seja, garantimos que a forma do argumento é correta. Mas, ainda nem sequer começamos a reflexão crítica filosófica; por exemplo, será que o conteúdo do argumento é verdadeiro? A validade lógica é apenas o ponto de partida da análise argumentativa. Por isso, ainda temos que fazer as perguntas fundamentais: Serão as premissas efetivamente verdadeiras? Será este argumento sólido? E serão as premissas mais plausíveis do que a conclusão? Ou seja, será este argumento cogente?


Gostou deste artigo? Receba outros por e-mail, assine a nossa newsletter. Digite aqui o seu e-mail:

Este artigo, com comentários, encontra-se no seguinte tema:

Escreva aqui os seus comentários ao artigo "Noções de lógica: introdução":

5 Domingos Faria: Noções de lógica: introdução A filosofia é uma atividade crítica que examina as nossas ideias mais básicas recorrendo fund...
< >