06/07/2012

A norma do interesse próprio



Será que é verdade que todas as nossas ações são egoístas? Todas as ações humanas são motivadas pelo egoísmo? Quando agimos temos unicamente em conta os nossos interesses? Será que o altruísmo é apenas uma ilusão? Se isto for plausível, então as razões que temos para agir eticamente são meramente egoístas: por exemplo, ajudamos um idoso a atravessar a rua porque quando formos idosos também queremos ser ajudados. Esta teoria do egoísmo psicológico defende que as pessoas são na realidade egoístas (isto é, só têm em conta os seus próprios interesses) ainda que não o reconheçam. Mas, será esta uma boa teoria? Peter Singer no livro “A vida que podemos salvar” argumenta que esta teoria é refutada por pequenos acontecimentos do quotidiano. Vale a pena analisar o seguinte excerto:
À nossa volta há uma abundância de outros indícios de que as pessoas agem por outros motivos além do interesse próprio. Deixam gorjetas quando vão jantar a restaurantes que não visitarão uma segunda vez. Dão sangue a estranhos, embora isso não aumente a probabilidade de receberem sangue caso venham a precisar. Votam em eleições quando a hipótese de o seu voto inverter a relação de forças é incrivelmente pequena. Tudo isto sugere que a norma do interesse próprio é uma crença ideológica, que resiste a ser refutada pelo comportamento que encontramos na vida quotidiana. Encontramo-nos sob o jugo da ideia de que o comportamento autocentrado é «normal». Uma vez que a tendência para entrar em sintonia com o resto do grupo é um comportamento humano maioritário, contamos histórias acerca dos nossos atos de compaixão que dão a estes atos a aparência do interesse próprio. Consequentemente, a norma do interesse próprio parece confirmar-se, e, assim, o comportamento persiste. A norma reforça-se a si própria, e, no entanto, é socialmente perniciosa, porque, se acreditarmos que ninguém mais age de forma altruísta, a probabilidade de nós próprios o fazermos é menor; a norma torna-se uma daquelas profecias que se realizam pelo facto de terem sido proferidas.
Durante um passeio em Londres, Thomas Hobbes, o filósofo seiscentista célebre pela afirmação de que todas as nossas ações são autocentradas, deu uma moeda a um mendigo. A pessoa que o acompanhava no passeio, ansiosa por encurralar o grande homem, disse a Hobbes que acabara de refutar a sua própria teoria. «Nada disso», respondeu Hobbes: dera o dinheiro porque lhe agradava ver o pobre homem feliz. Hobbes evitou assim a refutação da sua teoria alargando a noção de interesse próprio de modo a torná-la compatível com um nível considerável de generosidade e compaixão. Isto lembra-nos que há um sentido lato e um sentido estrito de interesse próprio. O longo debate acerca de os seres humanos serem ou não capazes de altruísmo genuíno é, na prática, menos importante do que a questão de saber como compreendemos os nossos próprios interesses. Teremos deles uma compreensão estrita, concentrada na aquisição de riqueza e poder pessoal? Pensamos que os nossos interesses são mais bem realizados por um estilo de vida que exiba sucesso económico através do consumo ostensivo de tantas coisas dispendiosas quanto possível? Ou será que incluímos nos nossos interesses a satisfação resultante de ajudar os outros? Os membros da Liga dos 50% descobriram que a doação introduz sentido, realização, até «prazer» no que, de outro modo, seriam vidas menos gratificantes. Será que isto subordina a dádiva ao interesse próprio? Se sim, precisamos de mais pessoas autocentradas.
Peter Singer (2011) A vida que podemos salvar. Trad. de Vitor Guerreiro. Lisboa: Gradiva, pp. 104-105.




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