12/06/2012

O problema do livre-arbítrio no cinema



Até que ponto controlas a tua vida? Até que ponto a tua vontade consegue impor-se ao desenrolar dos acontecimentos? És dotado de uma genuína liberdade ou és inteiramente determinado por fatores que não controlas? O filme “Corre, Lola, Corre” (Lola Rennt) pode estimular o pensamento crítico deste problema filosófico do livre-arbítrio.

"Tom Tykwer, diretor e argumentista, transforma o filme Corre, Lola, Corre num surpreendente conjunto de coincidências e acasos. Por exemplo: quando há um acidente aéreo sempre aparecem pessoas a dizer aos jornalistas em tom dramático: “Nasci de novo, era para estar naquele voo mas o meu filho sentiu-se mal e tive que adiar a viagem”. Tykwer usa esses pequenos detalhes do quotidiano para elaborar o seu enredo. O famoso “e se” é a tónica do filme (e também a sua própria mensagem). Se Manni não tivesse apanhado o metro nada teria acontecido com o dinheiro, ou teria? Se Lola tivesse comprado a bicicleta talvez ela conseguisse evitar uma tragédia.
O filme é dividido em «três tentativas» de Lola para conseguir o dinheiro. Em cada uma das partes faz praticamente o mesmo trajeto, com uma pequena diferença no tempo, mas que faz toda a diferença no enredo. Essa é a mensagem do filme. A vida humana está à mercê de casualidades, como tropeçar e perder um segundo da caminhada pode salvar alguém de, por exemplo, ser atropelado na próxima esquina.
No final de cada um dos enredos há um flashback em que Manni e Lola conversam sobre relações, tanto as suas quanto as relações em geral. Através destes momentos, onde se pode conhecer mais a psicologia de cada personagem, a trama volta novamente ao início e Lola volta a correr. As três histórias, que podem ser “paralelas” ou independentes, não servem para o espectador “escolher” qual a que mais lhe convém ou agrada. Servem para nos fazer pensar sobre as escolhas que fazemos, as diferentes atitudes e comportamentos que podemos ter sob as mesmas circunstâncias e o peso que a casualidade e o acaso têm nas nossas vidas.  

1ª Tentativa:
O telefone toca. É Manni. Está metido em sarilhos, grandes sarilhos. Esqueceu-se de um saco com 100.000 marcos no metro mas um vagabundo deitou-lhe a mão antes que Manni pudesse reencontrá-lo. Ronnie, o chefe do gangue a que Manni pertence exige que o dinheiro resultante de assaltos e roubos – sobretudo de carros – lhe seja devolvido em 20 minutos. Se Manni contar a Ronnie que perdeu o dinheiro cuja guarda este lhe confiara será morto. Manni não planeara apanhar o metro. Esperava que a sua namorada Lola o viesse buscar mas não apareceu. E faltou ao encontro porque foi roubada. À pressa apanhou um táxi mas o taxista enganou-se no caminho. Ao receber a chamada telefónica de Manni, Lola diz-lhe para se manter perto da cabine telefónica. Promete-lhe que vai conseguir os 100.000 marcos antes dele se ter de encontrar com Ronnie. Manni não acredita que Lola consiga. Diz-lhe que pretende assaltar uma grande mercearia do outro lado da rua para arranjar o dinheiro. Lola suplica-lhe que se mantenha junto da cabine telefónica. Em vinte minutos trar-lhe-á o dinheiro. Manni promete que o fará.
Lola decide pedir o dinheiro emprestado ao seu pai, um banqueiro rico. Passa pela mãe descendo as escadas do apartamento em que moram. Corre rua abaixo. E corre e corre. Embate numa senhora que passeia um bebé. Atravessa uma ponte. Quatro quarteirões. Corre para salvar a vida de Manni. Passa por um grupo de freiras e por um rapaz em bicicleta. Faltam dez minutos. Só para um momento para solicitar ao segurança do banco que possa entrar. Desce o corredor em direção ao gabinete do pai. Interrompe uma discussão entre o pai e a secretária – não é uma discussão de negócios. O pai não pode disponibilizar os 100.000 marcos. Além disso nem faz a mínima ideia de que seja Manni. Acompanha Lola à porta e despede-se dela.
Lola está angustiada. São 11: 57. Recomeça a corrida. Desta vez mais rápida do que antes. Passa uma ambulância que quase acerta numa vidraça transportada por operários. Manni encaminha-se lentamente para a mercearia que decidiu assaltar. Pára. Lola surge na esquina da rua e vendo Manni grita «Espera!». Ele não a ouve. Dando um disparo de aviso, manda que toda a gente na loja se atire ao chão e permaneça quieta e calada. «O dinheiro para cá!» grita impaciente e sucessivamente aos empregados que estão nas caixas. Lola aparece à entrada da loja. Olham-se rapidamente. Manni pergunta-lhe se quer ajudá-lo. Entrando na loja, Lola derruba o segurança e apodera-se da sua arma. Saem da loja com o dinheiro mas dão com uma barricada de polícias. Não têm para onde fugir. Num gesto de derrota e de desalento, Manni atira o dinheiro ao ar na direção da polícia. Surpreendidos, os polícias começam a disparar. Uma bala atinge o peito de Lola. O impacto da bala faz com que o seu corpo seja projetado. Cai e Manni ajoelha-se inclinando-se sobre o seu corpo. Prestes a dar o último suspiro, relembra uma conversa que teve com Manni. Queria saber se este realmente a amava. Desconfiado, ele perguntara se ela não estava a pensar deixá-lo. Lola respondera «Não tenho a certeza. Mas preciso de tomar uma decisão quanto à nossa relação». Com sangue a sair da sua boca e prestes a morrer, Lola sussurra: «Mas eu não quero ir embora! Pára».

2ª Tentativa:
O telefone toca. É Manni. Está metido em sarilhos, grandes sarilhos. Esqueceu-se de um saco com 100.000 marcos no metro mas um vagabundo deitou-lhe a mão antes que Manni pudesse reencontrá-lo. Ronnie, o chefe do gangue a que Manni pertence exige que o dinheiro resultante de assaltos e roubos – sobretudo de carros – lhe seja devolvido em 20 minutos. Se Manni contar a Ronnie que perdeu o dinheiro cuja guarda este lhe confiara será morto. Manni não planeara apanhar o metro. Esperava que a sua namorada Lola o viesse buscar mas não apareceu. E faltou ao encontro porque foi roubada. À pressa apanhou um táxi mas o taxista enganou-se no caminho. Ao receber a chamada telefónica de Manni, Lola diz-lhe para se manter perto da cabine telefónica. Promete-lhe que vai conseguir os 100.000 marcos antes dele se ter de encontrar com Ronnie. Manni não acredita que Lola consiga. Diz-lhe que pretende assaltar uma grande mercearia do outro lado da rua para arranjar o dinheiro. Lola suplica-lhe que se mantenha junto da cabine telefónica. Em vinte minutos trar-lhe-á o dinheiro. Manni promete que o fará.
Lola decide pedir um empréstimo ao seu pai. Talvez consiga convencê-lo a tirar dinheiro das poupanças que estão no nome dela. A correr passa pela mãe e desce as escadas do prédio em que mora. No corredor de entrada do prédio um rapaz de forma maldosa prega-lhe uma rasteira. Lola acaba por cair já fora do prédio. Levanta-se e corre rua abaixo. E corre e corre. Embate numa senhora que passeia um bebé. Atravessa uma ponte. Quatro quarteirões. Corre para salvar a vida de Manni. Passa por um grupo de freiras e por um rapaz em bicicleta. Faltam dez minutos. Embate num vagabundo que carrega várias malas. Pára por alguns momentos solicitar ao segurança do banco que possa entrar. Desce o corredor em direção ao gabinete do pai. Interrompe uma discussão entre o pai e a secretária – não é uma discussão de negócios. O pai diz – lhe que não pode arranjar os 100.000 marcos. De forma rude, diz-lhe para sair. Lola sai furiosa.
Dirige-se apressadamente à entrada do banco e consegue de surpresa tirar arma ao segurança do banco. Dirige-se de novo para o gabinete do pai e faz dele um refém. No interior do banco exige que lhe sejam dados os 100.00 marcos num saco de plástico. Mas de momento só estão disponíveis oitenta e oito mil marcos. Ordena ao caixa que vá arranjar os restantes doze mil. Rapidamente cumprem a sua vontade. Lola sai rapidamente do banco atirando a arma para um caixote no interior do banco. Ao sair dá com uma barricada de polícias. Prestes a render-se e a entregar o dinheiro, fica surpreendida porque a polícia julga que ela não é a assaltante. Colocam-na em segurança e esperam julgando que o autor do assalto irá sair do banco.
Lola corre outra vez. São 11: 57. Uma ambulância passa a grande velocidade e destrói uma enorme vidraça transportada por operários. Manni aparece á entrada da mercearia que pretende assaltar. Lola surge na esquina da rua e ao vê-lo grita: «Espera!». Ouvindo a sua voz, Manni começa a atravessar a rua na sua direcção. Contudo, a meio da rua, é violentamente atropelado pela já referida ambulância. Lola ajoelha-se junto do seu corpo. Prestes a dar o último suspiro, relembra uma conversa que teve com Lola. Perguntara-lhe: «O que farias se eu morresse?». «Eu salvar-te-ia» respondeu Lola. Manni insistiu: «Mas se não pudesses? É evidente que chorarias e lamentarias a minha morte durante algum tempo mas depois irias esquecer-me e encontrar outra pessoa».
Acariciando os cabelos de Manni enquanto o sangue começa a sair da boca e do nariz deste Lola parece adivinhar os seus últimos pensamentos e grita «Não!».

3ª Tentativa:
O telefone toca. É Manni. Está metido em sarilhos, grandes sarilhos. Esqueceu-se de um saco com 100.000 marcos no metro mas um vagabundo deitou-lhe a mão antes que Manni pudesse reencontrá-lo. Ronnie, o chefe do gangue a que Manni pertence exige que o dinheiro resultante de assaltos e roubos – sobretudo de carros – lhe seja devolvido em 20 minutos. Se Manni contar a Ronnie que perdeu o dinheiro cuja guarda este lhe confiara será morto. Manni não planeara apanhar o metro. Esperava que a sua namorada Lola o viesse buscar mas não apareceu. E faltou ao encontro porque foi roubada. À pressa apanhou um táxi mas o taxista enganou-se no caminho. Ao receber a chamada telefónica de Manni, Lola diz-lhe para se manter perto da cabine telefónica. Promete-lhe que vai conseguir os 100.000 marcos antes dele se ter de encontrar com Ronnie. Manni não acredita que Lola consiga. Diz-lhe que pretende assaltar uma grande mercearia do outro lado da rua para arranjar o dinheiro. Lola suplica-lhe que se mantenha junto da cabine telefónica. Em vinte minutos trar-lhe-á o dinheiro. Manni promete que o fará.
Lola decide pedir um empréstimo ao seu pai. Talvez consiga convencê-lo a tirar dinheiro das poupanças que estão no nome dela. A correr, passa pela mãe e desce as escadas do prédio em que mora. No corredor de entrada do prédio evita que um rapaz maldoso lhe pregue uma rasteira. Corre rua abaixo. E corre e corre. Por pouco não embate numa senhora que passeia um bebé. Atravessa uma ponte. Quatro quarteirões. Corre para salvar a vida de Manni. Passa por um grupo de freiras e por um rapaz em bicicleta. Faltam dez minutos. Um vagabundo bem vestido passa por ela numa boa bicicleta.
O pai de Lola não está no gabinete do banco. Saiu de carro com um colega provavelmente para uma reunião de negócios. O bem vestido vagabundo passa por Manni de bicicleta junto à cabine telefónica onde este espera por Lola. De repente, ao olhar para a bicicleta Manni repara no saco com dinheiro que perderas no metro. Reconhece o vagabundo e corre atrás dele. Provocam um acidente de automóvel que causa graves ferimentos ao pai de Lola.
Lola continua a correr. Pára em frente a um casino. Desesperada decide tentar a sua sorte. É tão bem sucedida que para espanto dos outros jogadores consegue ganhar mais de 100.000 marcos.
São 11:57. Lola corre para a cabine telefónica. Entretanto, Manni apanha o vagabundo e apontando-lhe a arma recupera o dinheiro que perdera. Passa uma ambulância que quase acerta numa vidraça transportada por operários. Agarrando-se à parte traseira da ambulância, Lola decide apanhar uma boleia. Paramédicos estão atentar reanimar um ferido. Lola segura a sua mão. Ele recupera. Lola salta Ada ambulância ao meio dia em ponto. Manni desapareceu. Lola procura-o. Encontra-o no fim da rua na companhia de Ronnie. Com ar aliviado, Manni afasta-se de Ronnie e aproxima-se de Lola. Beija-a e pergunta-lhe «O que te aconteceu? Vieste a correr?»."

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