24/05/2012

A resposta de Richard Swinburne ao problema do mal




No livro “Será que Deus existe?” (1998), Richard Swinburne procura explicar que a existência de Deus é compatível quer com o mal moral, quer com o mal natural. Deixo aqui alguns excertos mais significativos:

"O problema do mal
§1 O mundo contém, pois, muito mal. Um deus omnipotente poderia ter evitado este mal – e sem dúvida que um deus sumamente bom e omnipotente o teria feito. Mas então, por que razão existe o mal? Não será a sua existência um forte indício contra a existência de Deus? Sê-lo-ia, sem dúvida – a menos que possamos construir o que é conhecido por teodiceia, uma explicação da razão pela qual Deus terá permitido que o mal ocorresse. (…)

Mal moral
§2 Acho que o núcleo de qualquer teodiceia tem de ser a «defesa do livre arbítrio» (…). A defesa do livre arbítrio preconiza que a possibilidade de os seres humanos terem certo tipo de livre arbítrio, a que chamarei escolha livre e responsável, é um grande bem, mas que, se o tiverem, haverá necessariamente a possibilidade natural do mal moral. (…) Um deus que dê aos seres humanos tal livre arbítrio dá necessariamente origem à possibilidade do mal moral e deixa fora do seu próprio controlo a sua ocorrência ou não. Não é logicamente possível – isto é, seria autocontraditório supor – que Deus possa dar-nos esse livre arbítrio e que, no entanto garanta que o usamos sempre bem.
§3 A escolha livre e responsável não é apenas o livre arbítrio no sentido restrito de poder escolher entre acções alternativas, sem que a nossa escolha tenha sido causalmente determinada por uma qualquer causa anterior. (…) Mas os seres humanos poderiam ter esse tipo de livre arbítrio unicamente em virtude de serem capazes de escolher livremente entre duas alternativas igualmente boas e sem importância. Ter a possibilidade da escolha livre e responsável é antes ter livre arbítrio (do tipo discutido) para fazer escolhas entre o bem e o mal que sejam significativas, profundamente importantes para o agente, para os outros e para o mundo. (…) É bom que as escolhas livres dos seres humanos incluam uma responsabilidade genuína pelos outros seres humanos – e isso implica a oportunidade de os beneficiar ou de os prejudicar. (…) Eis uma das maiores dádivas que um criador nos pode dar: tornar as nossas escolhas extremamente importantes, fazer com que possamos alterar significativamente as coisas para bem ou para mal.

Mal natural
§4 [Uma maneira] segundo a qual o mal natural opera de maneira a dar aos seres humanos a sua liberdade consiste em tornar possível certos tipos de acção relacionados com o mal e entre os quais os seres humanos podem escolher. Aumenta-se assim o domínio de escolhas significativas. Um mal natural específico, tal como a dor física, oferece uma escolha à sua vítima – pode suportá-la com paciência ou lamentar a sua sorte. Os seus amigos podem escolher entre mostrar compaixão e ser indiferentes. A dor torna possíveis estas escolhas, que de outro modo não existiriam. (…)
§5 Imagine, no entanto, que se elimina de uma vez todo o sofrimento mental e corpóreo causado pelas doenças, terramotos e acidentes que os seres humanos não podem evitar. Imagine que não existiriam doenças nem luto em consequência da morte prematura dos jovens. Muitos de nós teriam então uma vida de tal modo fácil que não teríamos pura e simplesmente muitas oportunidades para mostrar coragem nem, na verdade, de nos manifestarmos de maneira muito bondosa. Precisamos desses insidiosos processos de declínio e dissolução que nem o dinheiro nem o esforço podem evitar durante muito tempo para termos as oportunidades, de outro modo tão fáceis de evitar, de nos tornarmos heróis. (…)
§6 Ter algumas oportunidades significativas para desempenhar verdadeiros actos heróicos e para a consequente formação do carácter é um benefício para a pessoa a quem essas oportunidades são dadas. Os males naturais dão-nos o conhecimento para fazermos várias escolhas entre o bem e o mal e a oportunidade desempenhar acções de tipos particularmente valiosos."

Será que é plausível esta resposta de Swinburne ao problema do mal?



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