14/05/2012

A resposta ateísta de Kurt Baier para o sentido da vida




§1 Há […] duas acepções muito diferentes de "propósito". […] Que acepções são essas? A primeira acepção, mais básica, só se atribui, normalmente, a pessoas ou ao seu comportamento como em "Para que deixaste o carro a trabalhar?" No segundo sentido, o propósito só se atribui normalmente às coisas, como em "Para que serve aquela engenhoca que instalaste na garagem?" […]

§2 Há muitas coisas que um homem pode fazer, tais como comprar e vender, contratar trabalhadores, lavrar a terra, derrubar árvores, etc., que serão tolas, sem sentido, tontas e talvez loucas se não tivermos qualquer propósito em vista ao fazê-las. Um homem que faz estas coisas sem qualquer propósito estará a entregar-se a tarefas inanes e fúteis. Vidas preenchidas com tais actividades sem propósito serão destituídas de razão de ser, fúteis e sem valor. […]
§3 Em contraste, ter ou não ter um propósito, na outra acepção, é algo neutro quanto ao valor. Não prezamos mais ou menos uma coisa por ter ou não um propósito. "Ter um propósito", neste sentido, não confere qualquer prestígio, e "não ter um propósito" não acarreta qualquer estigma. Uma fila de árvores perto de uma quinta pode ter ou não um propósito: pode servir ou não para cortar o vento, as árvores podem ter sido ou não plantadas naquele local ou ali deixadas propositadamente para evitar que os ventos assolem os campos. […]
§4 Contudo, o homem pertence a uma categoria completamente diferente. Atribuir a um ser humano um propósito nesta acepção não é neutro, nem sequer lisonjeiro: é ofensivo. É degradante para um homem ser encarado meramente como algo que serve um propósito. Se, numa festa, eu perguntar a um empregado "Qual é o seu propósito?", estarei a insultá-lo. Poderia igualmente ter-lhe perguntado "Para que serve você?". Tais questões reduzem-no ao nível de uma geringonça, um animal doméstico, ou talvez um escravo. Estou a sugerir que nós lhe atribuímos as tarefas, os objectivos, os fins que ele deve procurar alcançar; que as suas aspirações e desejos e propósitos pouco ou nada contam. Estamos a tratá-lo, na expressão de Kant, meramente como um meio para os nossos fins, e não como um fim em si.
§5 A mundividência cristã difere realmente da científica a este respeito, a um nível fundamental. A última despoja o homem de um propósito neste sentido. Vê o homem como um ser sem qualquer propósito que lhe tenha sido atribuído por seja quem for excepto ele mesmo. Despoja o homem de qualquer objectivo, propósito ou destino que lhe tenha sido atribuído por qualquer força exterior. A mundividência cristã, por outro lado, encara o homem como uma criatura, um artefacto divino, algo a meio caminho entre um robot (manufacturado) e um animal (vivo), um homúnculo, ou talvez um Frankenstein, feito no laboratório divino, com um propósito, ou tarefa, que lhe foi atribuído pelo seu Criador.


Kurt Baier
(Excerto do artigo "o sentido da vida" [1957])


Guião de leitura | Questões 
1. Explica quais são as duas acepções de “propósito” de que fala Baier.
2. Segundo Baier, por que razão a mundividência cristã encara os seres humanos como artefactos divinos?
3. Concordas que a mundividência cristã encara o homem como um artefacto divino? Porquê?



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