23/05/2012

Poderia Deus ter criado um mundo com bem moral mas sem mal moral? (Alvin Plantinga)



“Suponha-se que recapitulamos a lógica da situação. A defesa do livre-arbítrio afirma que o seguinte é possível: 
(1) Deus é omnipotente mas não tem o poder para criar um mundo que contenha bem moral e não contenha mal moral. 
Como resposta, o ateólogo insiste que há mundos possíveis que contêm bem moral e não contêm mal moral. E acrescenta que um ser omnipotente poderia ter actualizado qualquer mundo possível que quisesse. Logo, se Deus é omnipotente, segue-se que poderia ter actualizado um mundo que contivesse bem moral mas não contivesse mal moral e portanto 1, ao contrário do que afirma a defesa do livre-arbítrio, não é possível. O que vimos até agora é que a segunda premissa do ateólogo — o lapso de Leibniz — é falsa. 
É claro que isto não dá razão à defesa do livre-arbítrio. O lapso de Leibniz (como é próprio de um lapso) é falso; mas isto não mostra que 1 é possível. Para o mostrar temos de demonstrar a possibilidade de que entre os mundos que Deus não poderia ter actualizado estão todos os mundos que contêm bem moral mas nenhum mal moral. Como poderemos abordar esta questão? 
[…] Suponhamos que pensamos sobre uma acção moralmente significativa, como aceitar um suborno. Curley Smith, o presidente da câmara de Bóston, opõe-se ao traçado proposto da auto-estrada; exigiria a demolição da Igreja Old North, juntamente com outros edifícios antiquados e estruturalmente frágeis. L. B. Smedes, o director das estradas, pergunta-lhe se por um milhão de dólares ele deixará de se opor. 
— Claro —, responde Curley. 
— E aceitarias dois dólares apenas? —, pergunta Smedes.
A resposta indignada não se faz esperar: 
— Por quem me tomas? 
— Já está estabelecido que tipo de pessoa és — sorri Smedes. — Só falta é saber qual é o teu preço. 
Smedes oferece-lhe então um suborno de 35 mil dólares. Sem desejo algum de quebrar a velha tradição do estilo de política do estado do Massachusetts, Curley aceita. Smedes passa então uma noite em branco pensando se teria conseguido comprar Curley por apenas 20 mil dólares. 
Agora, suponha-se que Curley era livre com respeito à acção de aceitar o suborno — tinha a liberdade de o aceitar ou de o recusar. E suponha-se, além disso, que ele teria aceitado o suborno. Isto é, suponhamos que
Se Smedes tivesse tentado subornar Curley por 20 mil dólares, ele teria aceitado. 
[…] Segue-se que Deus não tinha o poder de criar um mundo no qual Curley produz bem moral mas não produz mal moral. Qualquer mundo que Deus possa actualizar é tal que, se Curley é livre nesse mundo, ele faz pelo menos uma acção errada. 
É óbvio que Curley está em apuros. Chamo «depravação transmundial» ao mal de que ele sofre. […] 
[…] se uma pessoa sofrer [de depravação transmundial], então Deus não tem o poder de actualizar qualquer mundo no qual essa pessoa é significativamente livre mas não faz coisas incorrectas — isto é, um mundo no qual essa pessoa produz bem moral mas não produz mal moral. 
[…] 
Obviamente, é possível que existam pessoas que sofram de depravação transmundial. Em termos mais gerais, é possível que toda a gente sofra disso. E se esta possibilidade fosse actual, então Deus, apesar de omnipotente, não poderia ter criado qualquer dos mundos possíveis que só contêm as pessoas que de facto existem, e que contêm bem moral mas não contêm mal moral. Pois para o fazer Deus teria de criar pessoas que fossem significativamente livres (caso contrário, não existiria bem moral) mas que sofressem de depravação transmundial. Tais pessoas agem mal pelo menos no que respeita a uma acção em qualquer mundo que Deus pudesse ter actualizado e no qual sejam livres com respeito a acções moralmente significativas; logo, o preço de criar um mundo no qual elas produzem bem moral é criar um em que elas também produzem mal moral”.
Alvin Plantinga (1974) God, Freedom, and Evil.

Algumas questões para o leitor reflectir: Plantinga defende que a existência de Deus não é logicamente incompatível com a existência de mal no mundo. Mas, será que a sua resposta explica o mal natural? E mesmo que não haja contradição lógica entre a existência de Deus e a existência do mal, não será o excessivo mal presente no mundo um forte indício contra a existência de Deus?



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