17/05/2012

A epistemologia da crença religiosa segundo Alvin Plantinga



"Já ouvi argumentar que se não tenho quaisquer indícios a favor da existência de Deus, então se aceito aquela proposição, a minha crença será infundada, ou gratuita ou arbitrária. Penso que isto é um erro; permita-se-me que explique.

Suponha-se que consideramos as crenças perceptivas, crenças de memória e crenças que atribuem estados mentais a outras pessoas: crenças como 1) Vejo uma árvore, 2) Tomei o pequeno-almoço esta manhã, e 3) Aquela pessoa está zangada.
Embora as crenças deste género sejam típica e apropriadamente aceites como básicas, seria um erro descrevê-las como infundadas. Ao ter uma experiência de certo género, acredito que estou a percepcionar uma árvore. No caso típico não adopto esta crença com base noutras; ainda assim não é infundada. (…) Podemos dizer que esta experiência, juntamente, talvez, com outras circunstâncias, é o que me dá justificação para a adoptar; este é o fundamento da minha justificação, e, por extensão, o fundamento da própria crença. (…)
Em cada um destes casos se aceita uma crença como básica, e em cada caso se a aceita apropriadamente como básica. Há em cada caso uma circunstância ou condição que confere a justificação; há uma circunstância que serve como o fundamento da justificação. Pelo que em cada caso haverá uma proposição verdadeira do género: Na condição C, S tem justificação para aceitar p como básica. Claro que C variará com p. (…) O aspecto central aqui, contudo, é que uma crença só é apropriadamente básica em determinadas condições; estas condições são, digamos, o fundamento da sua justificação e, por extensão, o fundamento da própria crença. Neste sentido, as crenças básicas não são, ou não são necessariamente, crenças infundadas. 
Pode-se afirmar coisas similares a propósito da crença em Deus. Quando os reformistas afirmam que esta crença é apropriadamente básica, não pretendem, evidentemente, afirmar que não há circunstâncias justificantes para essa crença, ou que nesse sentido é infundada ou gratuita. Muito pelo contrário. (…) Ao ler a Bíblia, pode-se ficar impressionado com o profundo sentido de que Deus nos fala. Depois de fazer o que considero reles, ou imoral ou malévolo, posso sentir-me culpado aos olhos de Deus e formar a crença Deus desaprova o que fiz. Ao confessar-me e arrepender-me, posso sentir-me perdoado formando a crença Deus perdoa-me o que fiz. Uma pessoa em grave perigo pode voltar-se para Deus, pedindo-lhe protecção e ajuda; e claro que ele ou ela formará então a crença de que Deus é de facto capaz de ouvir e ajudar se o considerar apropriado. Quando a vida é doce e gratificante, um sentido espontâneo de gratidão pode ascender na alma; alguém nesta condição pode agradecer e louvar o Senhor pela sua bondade e formará evidentemente a crença concomitante de que na verdade há que agradecer ao Senhor e louvá-lo. 
Há portanto muitas condições e circunstâncias que evocam a crença em Deus: culpa, gratidão, perigo, a sensação da presença de Deus, um sentimento de que Deus fala, a percepção de diversas partes do universo. (…)
Uma segunda objecção, que ouço frequentemente: se a crença em Deus é apropriadamente básica, por que não pode qualquer crença ser apropriadamente básica? (…) E quanto à crença de que a Grande Abóbora regressa em todos os dias das bruxas? Poderia eu aceitar essa crença como básica? E se não posso, por que posso aceitar apropriadamente a crença em Deus como básica? (…)
Em conformidade, o epistemólogo reformista pode defender apropriadamente que a crença na Grande Abóbora não é apropriadamente básica; apesar de defender que a crença em Deus é apropriadamente básica (…). Assim, por exemplo, o epistemólogo reformista pode concordar com Calvino na afirmação de que Deus implantou em nós uma tendência natural para ver a sua mão no mundo à nossa volta; o mesmo não se pode afirmar da Grande Abóbora; não existindo qualquer Grande Abóbora nem qualquer tendência natural para aceitar crenças acerca da Grande Abóbora".

Alvin Plantinga
(Excerto do artigo “Será a crença em Deus apropriadamente básica?” [1981])


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