10/02/2012

Síntese – Valores: o problema e as principais teorias




O problema dos critérios valorativos:

     1.  Os juízos de valor (como os éticos/morais) têm valor de verdade?
     2.  Se têm valor de verdade, são verdadeiro ou falsos independentemente da perspectiva de quaisquer sujeitos?


1 – A teoria do subjectivismo moral:

j        Ideias principais:
o   Os juízos morais têm valor de verdade, mas a sua verdade é relativa ao sujeito.
o   Não existem verdades universais, mas apenas opiniões pessoais; deste modo, cada sujeito tem a sua verdade.
o   Os juízos morais descrevem os sentimentos de aprovação ou reprovação do indivíduo que julga. O certo e errado dependem meramente dos sentimentos de cada um. Assim, “X é bom” significa que “Gosto de X”.
j        Argumentos/razões que sustentam a teoria:
o   Torna possível a liberdade – Somos livres se não nos impuserem opiniões diferentes das nossas que limitem as nossas possibilidades de acção.
o   Promove a tolerância – Se o certo e o errado dependem dos sentimentos de cada um, toleramos preferências e opiniões dos outros porque não há motivos para pensar que os sentimentos de uma pessoa são melhores ou piores do que os de outra.
j        Objecções à teoria:
o   Permite que qualquer juízo moral seja verdadeiro – Nenhum ponto de vista, por muito absurdo ou monstruoso que seja, pode ser considerado realmente errado ou pelo menos pior do que pontos de vista alternativos.
o   Implica consequências bizarras na educação moral – Ensinaríamos as crianças a seguir os seus sentimentos e a deixarem-se guiar pelos seus gostos. Assim, se uma criança gostar de maltratar outra, o subjectivista tem de aceitar isso.
o   Torna absurdo o debate racional sobre questões morais – Se todos estão certos porque defendem o que sentem, não faz sentido pretender que mudem de opinião ou argumentar que estão enganados.
o   É incapaz de explicar a existência de desacordos morais – Se os juízos morais equivalem a descrições dos sentimentos dos indivíduos que os fazem, então dois indivíduos que fazem juízos aparentemente diferentes estão na verdade a dizer apenas que têm sentimentos opostos. Por exemplo, não existe qualquer contradição entre o “José aprova X” e a “Maria reprova X”. Portanto, o desacordo entre ambos é completamente ilusório.

2 – A teoria do relativismo cultural:

j        Ideias principais:
o   Os juízos morais têm valor de verdade, mas a sua verdade é sempre relativa às sociedades, sendo diferentes consoante as diferentes culturas.
o   O juízo moral é verdadeiro numa sociedade quando a maioria dos seus membros acreditam que é verdadeiro; falso quando acreditam que é falso.
o   Na ética não há verdades universais. Os juízos morais são interpretados em termos de aprovação social. O bem e o mal morais são convenções estabelecidas em cada sociedade.
o   “X é bom “ ou “X é moralmente correcto” significa “ A sociedade aprova X”.
j        Argumentos/razões que sustentam a teoria:
o   Argumento da diversidade cultural – Premissa: Em culturas diferentes as pessoas têm convicções morais diferentes. Conclusão: Logo, as verdades morais são relativas à cultura. (Este argumento é inválido, pois da existência de desacordos morais não se segue que não haja verdades morais objectivas).
o   O relativismo cultural promove a coesão social – Esta coesão é fundamental para a sobrevivência da sociedade e assim para o nosso bem-estar.
o   O relativismo cultural promove a tolerância entre sociedades diferentes – Leva-nos a não ter uma atitude destrutiva em relação aos outros povos e culturas.
j        Objecções à teoria:
o   Conduz ao conformismo – O relativismo parece dizer que nos devemos conformar à opinião da maioria, anulando as nossas próprias opiniões. Assim, ficamos limitados a agir de acordo com as ideias dominantes da sociedade.
o   A maioria pode estar enganada – O relativista defende que a maioria tem sempre razão. Esta ideia é implausível pois sabemos que muitas vezes a maioria é ignorante, não está informada e por isso as suas ideias podem não ser as melhores.
o   A tolerância nem sempre é desejável – Estamos condenados à passividade. Se aceitarmos o relativismo, não podemos criticar nem tentar convencer outros povos de que estão errados. Mas, há comportamentos que não são toleráveis.
o   Conduz à aprovação da intolerância – Se o que uma sociedade aprova é moralmente correcto, segundo os relativistas, então se a intolerância (como a humilhação, perseguição, destruição de pessoas) for aprovada pela maioria, terá de ser aceite.

3 – A teoria da objectividade e do diálogo de culturas:

j        Ideias principais da objectividade:
o   Os juízos morais têm valor de verdade e a sua verdade é suportada por boas justificações ou razões imparciais.
o   O objectivismo caracteriza-se pela ideia de que um juízo moral é correcto quando, independentemente de gostos e de convenções, tem as melhores razões do seu lado. Essas razões são imparciais.
o   As avaliações morais têm de ser justificadas de uma forma que seja aceitável para qualquer indivíduo racional, seja qual for a sua sociedade. Quanto melhor for a justificação que suporta o juízo morais, mais razões teremos para considerá-lo objectivamente verdadeiro.
o   Podemos encontrar critérios transubjectivos de valoração – É um critério que ultrapassa as perspectivas de cada um e que pode ser utilizado para avaliar imparcialmente a moralidade de actos e práticas, podendo ser aplicados por todos os indivíduos racionais (independentemente dos seus gostos ou interesses).
j        Ideias principais do diálogo de culturas (ou do diálogo intercultural):
o   O diálogo permite que cada sociedade se aperfeiçoe devido ao contacto com as outras. Faz-nos compreender melhor as razões das práticas das outras culturas.
o   Através do diálogo intercultural cada sociedade pode aprender com as outras e perceber o que é bom ou mau, certo ou errado, ultrapassando os diferentes contextos sociais e avaliando de uma forma imparcial as práticas morais, através de critérios transubjectivos universais. Assim podemos compreender que a nossa cultura pode estar errada em certos aspectos e igualmente criticar racionalmente as outras práticas culturais que nos parecem incorrectas, contribuindo para o aperfeiçoamento social.



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