24/02/2012

O que a ética não é, segundo P. Singer




1. A primeira coisa a dizer da ética é que não se trata de um conjunto de proibições particularmente respeitantes ao sexo (p. 18):
«Mesmo na época da SIDA, o sexo não levanta nenhuma questão ética específica. As decisões sobre o sexo podem envolver considerações sobre a honestidade, o respeito pelos outros, a prudência, etc., mas não há nisso nada de especial em relação ao sexo, pois o mesmo se poderia dizer de decisões respeitantes à condução de um automóvel. (Na realidade, as questões morais que a condução de um automóvel levanta, tanto do ponto de vista ambiental como do da segurança, são muito mais sérias do que as suscitadas pelo sexo.) Há questões éticas bem mais importantes.»
2. Em segundo lugar, a ética não é um sistema ideal nobre na teoria, mas inútil na prática (p.18):
«O inverso está mais perto da  verdade: um juízo ético que seja mau na prática sofre necessariamente de um defeito teórico, porque a finalidade do juízo ético é orientar a prática.»
3. Em terceiro lugar, a ética não é algo que apenas se torne inteligível no contexto da religião (p.19):
«Alguns teístas dizem que a ética não faz sentido sem a religião porque o próprio significado de "bem" é "aquilo que Deus aprova". Platão refutou uma tese semelhante há mais de 2000 anos, argumentando que se os deuses aprovam uma acção, é porque essa acção é um bem; não pode ser a aprovação dos: deuses que a torna um bem. A perspectiva alternativa toma a aprovação divina totalmente arbitrária: se os deuses por acaso aprovassem a tortura e reprovassem a ajuda aos nossos semelhantes, a tortura teria sido um bem e a ajuda ao próximo um mal. (…) Há uma longa tradição de pensamento que encontra a origem da ética nas atitudes de benevolência e solidariedade para com os outros que a maioria das pessoas possui.»
4. A quarta e última afirmação sobre a ética que refutarei (…) é a de que a ética é relativa ou subjectiva (p.20):
«A perspectiva (…) de que a ética é sempre relativa a uma determinada sociedade tem consequências muito improváveis. Se a nossa sociedade condena a escravatura enquanto uma outra a aceita, não temos bases para escolher entre ambas as perspectivas  antagônicas. Na realidade, numa análise relativista não existe conflito entre elas. Quando digo que a escravatura é um mal, estou apenas a dizer que a minha sociedade a rejeita; e quando os esclavagistas da outra sociedade dizem que a escravatura é um bem, estão apenas a afirmar que a sua sociedade a aprova. Para quê discutir? É óbvio que ambos estaríamos a dizer a verdade.»
«Se quem defende que a ética é subjectiva quer com isso dizer que, quando afirmo que a crueldade infligida a animais é um mal, estou na realidade apenas a dizer que condeno a crueldade para com os animais, então enfrenta uma forma agravada de uma das dificuldades do relativismo: a incapacidade de explicar a divergência ética. O que era verdadeiro para o relativista a propósito do desacordo entre pessoas de diferentes sociedades  é verdadeiro para o subjectivista a propósito do desacordo entre quaisquer duas pessoas. Eu digo que a crueldade para com os animais é condenável; outra pessoa qualquer diz que não; ambas as proposições podem ser verdadeiras, nada havendo, portanto, para discutir»

Peter Singer (2002) Ética Prática. Lisboa: Gradiva.



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