29/01/2012

Filosofia: a crítica das nossas crenças (texto de Jerome Stolnitz)


«Se tivesse de escolher uma só palavra para descrever a função e "espírito" da filosofia, seria crítica. Mas o significado desta palavra não deve ser mal entendida. Quotidianamente, esta palavra tem geralmente um significado mais estrito do que o que tenho em mente. Quando dizemos, quotidianamente, que "somos críticos relativamente àquela pessoa", queremos geralmente dizer que lhe encontramos defeitos. A filosofia não é "crítica" neste sentido. Não se trata da procura rabugenta de defeitos; não é "sempre a deitar abaixo", como as pessoas com maus temperamentos que todos conhecemos.

Ao invés, a filosofia é "crítica" num sentido mais lato. Neste sentido, a filosofia examina algo para determinar os seus pontos fortes e fracos. Neste sentido, a investigação crítica ocupa-se tanto das virtudes como dos defeitos do que estuda. Ora, o que estuda a filosofia criticamente? Não é tão fácil responder a esta questão como se poderia pensar. Pode dizer-se, contudo, que a filosofia critica algumas das crenças mais importantes e comuns dos seres humanos. Um exemplo seria a crença de que Deus existe. Outro exemplo seria a crença de que há certos atos, como cumprir promessas ou agir como um patriota, que temos o dever de executar, e outros, como mentir ou fazer batota nos exames, que são moralmente errados. Outro exemplo ainda é a crença em certos fins ou "valores" da existência humana que devemos procurar atingir, por exemplo, ter tanto prazer quanto possível ou, no pólo oposto, praticar o amor cristão abnegado.
Descrevi as crenças que a filosofia critica dizendo que são "importantes e comuns". Será óbvio, a partir dos exemplos, que tais crenças são realmente comuns. Virtualmente todos os seres humanos adultos, seja qualquer for a cultura ou período histórico em que viveram, tiveram uma crença de um tipo ou outro sobre cada uma destas questões. Se o estudante pensar durante uns momentos, descobrirá que isto é verdade também relativamente a si próprio, por mais que as suas crenças sejam vagas ou inseguras.
Mas não podemos compreender a importância das crenças estudadas pela filosofia até considerarmos o significado das crenças em geral. As crenças não são como que outras tantas coisas nas prateleiras dos nossos armazéns intelectuais, geralmente sem qualquer uso, mas a que ocasionalmente limpamos o pó e tiramos da prateleira — para conversar de trivialidades, por exemplo. As crenças são muito mais importantes do que isto. Pois controlam e dirigem o curso das nossas vidas. Estamos sempre a agir à luz das nossas crenças. O que tomamos como verdadeiro sobre o mundo e sobre nós mesmos é crucial para a nossa decisão de agir de uma maneira e não de outra, para a prossecução de um dado objectivo e não de outro. As suas crenças sobre si próprio determinam a sua escolha de uma determinada área de estudos; as suas crenças sobre os outros determinam a sua escolha da pessoa que convida para sair.
Assim, muitas coisas dependem da solidez das nossas crenças. A acção não será geralmente compensadora nem terá sucesso a não ser que se baseie em crenças fidedignas. A acção que não conte com a lucidez da crença verdadeira está condenada a ser incerta e fútil. É o produto da superstição, do "palpite" ou da inércia.
As crenças estudadas pela filosofia são as que subjazem ao nosso comportamento em áreas centrais da experiência humana. No caso da ética, a filosofia não se ocupa tanto de decisões morais específicas — deverei dizer uma mentira para ganhar mais nesta transacção comercial? — mas antes dos princípios do correcto e do incorrecto nos quais a decisão se baseia. Um homem cujos princípios morais não são sólidos irá agir de maneira mesquinha e repreensível. A situação é semelhante na área de experiência de que nos ocuparemos — a criação e apreciação artísticas. O prazer que temos com a arte — se o temos — depende das nossas crenças sobre a sua natureza e valor. Também neste caso, como veremos pormenorizadamente, as crenças falsas conduzem ao comportamento infrutífero.
* * *
O que significa, especificamente, dizer que a filosofia faz a "crítica" das nossas crenças? Para começar, admitamos que a maior parte das nossas crenças sobre questões vitais como a religião e a moralidade são manifestamente acríticas. Faça uma vez mais uma pausa para avaliar as suas crenças sobre estas questões, perguntando-se por que razão veio a ter as crenças que tem. Na maior parte dos casos, podemos afirmar com segurança, irá descobrir que não "veio a ter" tais crenças em resultado de uma reflexão prolongada e séria sobre elas. Pelo contrário, aceitou-as com base em alguma autoridade, isto é, um indivíduo qualquer, ou instituição, que lhe transmitiu essas crenças. A autoridade pode ser os seus pais, professores, igreja ou amigos. Muitas das nossas crenças são tomadas de assalto pelo que chamamos vagamente "sociedade" ou "opinião pública". Estas autoridades, regra geral, não lhe impõem as suas convicções. Ao invés, o leitor absorveu essas crenças a partir do "clima de opinião" no qual se desenvolveu. Assim, a maior parte das suas crenças sobre questões como a existência de Deus ou sobre se por vezes é correcto mentir são artigos intelectuais em "segunda mão".
Mas isto não significa, claro, que essas crenças sejam necessariamente falsas ou que não sejam sólidas. Podem perfeitamente ser sólidas. Os artigos em "segunda mão" por vezes são muito bons. O que está em causa, contudo, é isto: uma crença não é verdadeira simplesmente porque uma autoridade qualquer diz que o é. Suponha que, perante uma certa crença, eu lhe perguntava: "Como sabe que isso é verdade?" Certamente que não seria satisfatório responder "Porque os meus pais (professores, amigos, etc.) me disseram". Isto, em si, não garante a verdade da crença, porque tais autoridades se enganaram muitas vezes. Verificou-se que muitas das crenças sobre medicina dos nossos antepassados, que eles transmitiram às gerações posteriores, eram falsas. E desde que se fundaram as primeiras escolas que os estudantes — graças aos céus — encontraram erros no que os seus professores diziam e tentaram encontrar por si crenças mais sólidas. Por outras palavras, a verdade de uma crença tem de depender dos seus próprios méritos. Se os seus pais lhe ensinaram que é desastroso abusar de maçãs verdes, então a asserção deles é verdadeira não porque eles o disseram, mas porque certos factos (muito desagradáveis) mostram que é verdadeira. Se o leitor aceitar uma "lei" científica que leu num manual, essa lei deve ser aceite não porque está escrita num manual, mas porque se baseia em provas experimentais e no raciocínio matemático. Estamos justificados em aceitar uma crença unicamente quando esta é sustentada por provas e lógica sólida. Mas, como tenho vindo a insistir, a maior parte de nós nunca testa as nossas crenças desse modo. É aqui que entra a actividade "crítica" da filosofia. A filosofia recusa-se a aceitar qualquer crença que a prova e o raciocínio não mostre que é verdadeira. Uma crença que não possa ser estabelecida por este meio não é digna da nossa fidelidade intelectual e é habitualmente um guia incerto da acção. A filosofia dedica-se, portanto, ao exame minucioso das crenças que aceitámos acriticamente de várias autoridades. Temos de nos libertar dos preconceitos e emoções que muitas vezes obscurecem as nossas crenças. A filosofia não permitirá que crença alguma seja passe a inspecção só porque tem sido venerada pela tradição ou porque as pessoas acham que é emocionalmente compensador aceitar essa crença. A filosofia não aceitará uma crença só porque se pensa que é "simples senso comum" ou porque foi proclamada por homens sábios. A filosofia tenta nada tomar como "garantido" e nada aceitar "por fé". Dedica-se à investigação persistente e de espírito aberto, para descobrir se as nossas crenças são justificadas, e até que ponto o são. Deste modo, a filosofia impede-nos de nos afundarmos na complacência mental e no dogmatismo em que todos os seres humanos têm tendência para cair».

Jerome Stolnitz


Tradução de Desidério Murcho
Retirado de Aesthetics and Philosophy of Art Criticism: A Critical Introduction, de Jerome Stolniz (Boston: Houghton Mifflin, 1960)


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