16/10/2011

Penso… logo, Deus existe



Recentemente encontrei uma novidade que considero muito interessante. Um grupo de jovens "sentiu a necessidade de deixar o seu «canto confortável» e trabalhar no sentido de descobrir as melhores respostas para uma das perguntas mais formuladas de sempre: Pode de facto Deus existir?". Podem encontrar este projecto em: http://sedeusexistir.org/ . Como gosto bastante de reflectir nestas questões decidi analisar criticamente, embora de forma breve, um dos vídeos que este site apresenta. Escolhi um vídeo do teólogo Artur Machado que tenta mostrar que o argumento “Penso… logo, Deus existe” é lógico e racional. O vídeo está presente no seguinte seguinte link:


No entanto, eu vou defender telegraficamente que este argumento do teólogo Artur Machado não é logicamente válido nem é racional. Em primeiro lugar não é logicamente válido, pois tem a seguinte forma lógica P ╞ Q, e se recorrermos a um inspector de circunstâncias constataremos facilmente a invalidade deste argumento. De facto, da premissa “penso” não se segue de forma alguma a conclusão “Deus existe”. Em segundo lugar não é racional, pois a conclusão “Deus existe” não foi devidamente fundamentada por boas razões.
E que razões o teólogo Artur Machado avança para provar que Deus existe? Ele diz que apresenta três argumentos. Mas, olhando para todo o vídeo só consigo encontrar dois argumentos: o argumento cosmológico e o argumento do sentido da vida.
O teólogo Artur Machado avança duas versões do argumento cosmológico.
A primeira versão do argumento cosmológico (que levou algumas modificações minhas para o tornar mais coerente) é o seguinte:
P1 – Somos seres finitos, que fomos causados por algo ou alguém.
P2 – Existe uma cadeia de causas e efeitos.
P3 – Ora, temos que pensar numa causa incausada que causou todas as outras (para assim se dar início à cadeia causal e para, por conseguinte, podermos ser causados).
C – Essa primeira causa é Deus.
E a segunda versão do argumento cosmológico é a seguinte:
P1 - Eu sou um ser contingente e limitado e tudo à minha volta é contingente e limitado.
P2 - Exige-se que pela relação das causas, tenha havido uma causa não contingente nem limitada que tenha dado origem a todas as outras causas.
C - Essa causa é Deus.
No entanto, estas duas versões do argumento cosmológico, que na realidade dizem exactamente o mesmo, não justificam de facto que Deus existe. Mas, porquê? Existem várias razões:
1) Neste argumento cosmológico está a pressupor-se a existência de uma primeira causa que é a origem de todas as outras. Todavia, por que razão a cadeia causal não poderá regredir infinitamente? Por que razão não pode existir uma cadeia causal infinita? Uma cadeia causal que regrida infinitamente não precisa de qualquer primeira causa para as causas seguintes se originarem.
2) Mas, mesmo que aceitemos cadeias causais finitas e mesmo que afinal tudo tenha uma causa, daqui não se segue que essa causa tenha de ser a mesma para tudo. Diz-se algures no argumento que “temos que pensar numa causa incausada que causou todas as outras”. Mas, isto é falacioso. Pois, não é pelo facto de todos nós termos uma mãe (ou uma causa) que há uma única mãe (ou causa) para todos nós. Logo, não se prova com este argumento cosmológico que exista apenas uma causa primeira que seja a mesma para as cadeias causais.
3) Mas, mesmo que se possa concluir que exista uma única causa primeira, nada garante que essa causa seja o Deus teísta. Ou seja, o máximo que este argumento cosmológico poderá provar é a existência de uma primeira causa. Mas, será um salto lógico dizer que essa causa é o Deus teísta (ou seja, o Deus omnipotente, omnisciente, e sumamente bom das religiões abraâmicas). Para se dar início à cadeia causal bastava um ser que tivesse algum poder suficiente para impulsionar essa cadeia. Mas, daqui não se segue que esse ser seja o Deus teísta.
Destas razões segue-se que o argumento cosmológico apresentado não parece um bom argumento para sustentar a existência de Deus teísta como o teólogo Artur Machado parece defender.
Mas, este teólogo apresenta um argumento suplementar que baptizei de argumento do sentido da vida. De uma forma simples o argumento pode ser resumido e formulado desta forma:
P1 – Se não houver Deus, a vida deixa de ter sentido.
P2 – Mas, a minha vida tem sentido.
C – Logo, Deus existe.
Este argumento é formalmente válido (tem a forma lógica de “modus tollens”). Mas será sólido? Isto é, serão as suas premissas verdadeiras? Parece que não! Pelo menos podemos questionar seriamente a primeira premissa: Por que razão se não houvesse Deus a vida deixaria de fazer sentido? O teólogo Artur Machado não fundamenta esta premissa. De qualquer forma é possível negar a primeira premissa, dizendo que não existe Deus, mas a vida tem sentido. Aliás, é isto que muitos ateus dizem e vivem. Tenho muitos amigos ateus que têm uma vida repleta de sentido e de projectos com valor e para isso não precisam de Deus. Logo, parece falso dizer que Deus é uma condição necessária para se ter uma vida com sentido. Talvez a condição necessária para uma vida com sentido não seja a existência de Deus, mas sim a entrega activa a projectos de valor positivo como lhe costuma chamar Susan Wolf.
O teólogo Artur Machado debita também outras proposições como: “a própria noção de história não tem sentido se não tiver por base a existência de Deus” ou “uma história que apenas se desenrola na experiência humana e terrena sem qualquer noção de infinito ou eternidade não tem sentido”. Porém, não fundamenta estas suas proposições. Logo, não está justificado a dizer que de facto Deus existe.
De qualquer forma, a questão do sentido da vida não é assim tão simples de resolver ao laçar-se para a equação a palavra Deus. É preciso perceber que este problema tem respostas variadas muito interessantes como apresento aqui: http://blog.domingosfaria.net/2011/06/tres-teorias-sobre-o-sentido-da-vida.html .
Com esta simples e rápida análise crítica não estou de forma alguma a negar que Deus existe. Só estou a mostrar que os argumentos apresentados pelo teólogo Artur Machado não são consequentes :)


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