29/10/2011

A filosofia como arte de pensar: a obrigação da Academia de ensinar a filosofar, ensinando filosofia



No passado dia 28 de Outubro de 2011 o professor de filosofia Nel Rodriguez Rial (da Universidade de Santiago de Compostela) proferiu uma conferência na Universidade do Minho, no âmbito do 9º Simpósio Luso-Galaico de Filosofia, que se insere na temática “A Filosofia na Academia”. Nesta conferência o professor Nel sublinhou alguns aspectos que são bastante pertinentes para os professores de filosofia, nomeadamente ao advogar que o ensino da filosofia deve fomentar hábitos de pensamento e diálogo crítico nos alunos, não devendo ser assim um mero ensino reprodutor. Fiz uma tradução livre das partes mais relevantes da comunicação do professor Nel que devem ser atendidos pelos professores e alunos de filosofia:

Costumamos diariamente deixar as nossas casas, a vida dos nossos interesses e afazeres quotidianos, das nossas preocupações e ocupações habituais, para nos recolhermos no edifício da Academia, no qual, segundo o rótulo que muito acertadamente leva, nos deverá facultar para a filosofia. No entanto, temos de reconhecer que, infelizmente, nestas instituições públicas não se trata tanto de pensar, mas sim mais de aprender o que alguns têm pensado para logo se ensinar aos outros. Tudo na Academia está organizado a fim de cumprir com as funções reprodutoras do saber. O conselho dado por Kant – não se trata de aprender filosofia, mas sim de aprender a filosofar – parecer ter-se esquecido. Não nos temos mesmo curado daquele velho vício, criticado já pelo sábio Montaigne, segundo o qual não fazemos nada senão dedicarmo-nos a interpretar livros, a elaborar textos sobre textos, esquecendo-nos de pensar sobre a vida que decorre ao nosso lado.
Penso que a filosofia académica deveria afastar esta tentação de recolhimento excessivo, esta atitude autista e nostálgica para a qual se conta a si mesma, uma e outra vez, a sua própria história. A filosofia que se ensina nas Faculdade costuma ser quase sempre história da filosofia. Pelos vistos este é um mal que arrastamos desde há muito tempo, pois se Montaigne já se queixava no seu tempo, em meados do Século XIX, Schopenhauer voltava a denunciar o mesmo vício quando, em Sobre a Vontade na Natureza, escrevia:
“Gasta-se hoje em dia, em geral, demasiado estudo na história da filosofia, por ser esta, em virtude da sua própria natureza, o fim para o qual o saber ocupa o lugar do pensar, e cultiva-se precisamente com o propósito de fazer consistir a filosofia com a sua história”.
De facto, os professores de filosofia perdem muito tempo e energia excessiva nos trabalhos de exploração bibliográfica e de hermenêutica textual, a fim de produzir claridade sobre obras que os outros tinham pensado e escrito. Quanta razão tinha George Simmel quando sugeria que havia “três categorias de filósofos: os primeiros escutam bater o coração das coisas; os segundos, só o dos homens, e os terceiros, só o dos conceitos; e existe uma quarta categoria (a dos professores de filosofia), que só escutam o coração da bibliografia”. […]
Consideramos, pois, que, na Academia, o professor tem de aproveitar a obrigação de instruir para exercer a devoção de educar; e o aluno tem de aproveitar a obrigação de saber filosofia, para exercer a devoção de aprender a filosofar. E a arte de filosofar, como toda a téchne, habilidade ou destreza, aprende-se filosofando, ou seja, exercitando e realizando na aula o próprio acto do pensamento através da prática efectiva da meditação e da especulação pessoais, mas também do exercício compartilhado do “lógon didónai”, do dar e receber razões. Sempre com a finalidade de colocar em causa as nossas crenças particulares, opiniões e interesses, às quais costumamos estar tão cegamente apegados, e das quais convém duvidar sempre enquanto não forem submetidas ao exame crítico e livre.
Implementar nos estudantes o hábito de pensar por si mesmos, do diálogo crítico, assim como da dúvida, da perplexidade e do assombro… parecem-me uma das primeiras finalidades formativas que tem de abordar e cumprir o ensino da filosofia. Sem tais hábitos, tanto o ensino com o exercício efectivo da filosofia tornam-se ingénuos e, o que é pior todavia, dogmáticos. Como escrevia Dante na Divina Comédia, “o duvidar, como o saber, me agrada” e Montaigne acrescentava nos seus Ensaios, como comentário a esta frase de Dante, que “só os loucos estão certos e resolutos”.


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