20/07/2011

Um Diálogo Filosófico




A tentativa de analisar a plausibilidade e relevância de algumas ideias que estou a pensar actualmente, sobre a própria natureza da filosofia, fez-me encetar um interessante diálogo com o filósofo João Carlos Silva. Penso que vale a pena partilhar este diálogo filosófico com a comunidade:


Domingos Faria - Considera a seguinte proposição: uma teoria filosófica é plausível ou verdadeira se, e só se, for sustentada por razões melhores que as teorias alternativas. Concordas com ela?

João Carlos Silva - Sim e não. Sim, em relação à plausibilidade; não, em relação à verdade, embora esta distinção te possa parecer eventualmente estranha e contra-intuitiva. Explico-me sinteticamente: quando ignoramos o valor de verdade absoluto de uma teoria, dado que a sua plausibilidade é um critério epistémico híbrido (ou misto), que envolve uma componente obejctiva e outra subjectiva na avaliação daquilo que se considera serem as melhores razões a favor ou contra essa mesma teoria, não temos outra alternativa disponível que não seja confiar mais naquela que nos pareça apresentar as melhores razões a seu favor, em detrimento daquelas outras que, do nosso ponto de vista, pareçam ser pior sustentadas. Isso não prova a sua verdade nem sequer a sua maior probabilidade objectiva em termos absolutos, mas dá-nos o melhor critério possível de que podemos dispor face à nossa contingente ignorância da verdade e à nossa essencial falibilidade cognitiva. Por outro lado, se entendermos a verdade de uma teoria no sentido clássico da sua adequação ou correspondência com a realidade que ela tenta descrever ou explicar, então a verdade de uma teoria é uma propriedade objectiva completamente independente do conhecimento que tenhamos ou deixemos de ter das razões que a sustentam, podendo acontecer, inclusive, que tenhamos boas ou excelentes razões para rejeitarmos uma teoria verdadeira e aceitarmos outra que é falsa, como já aconteceu historicamente por diversas vezes e certamente continuará a acontecer no futuro, tanto na história da filosofia como, de forma mais visível e inequívoca, na história da ciência. Para que tal ocorra, basta que os conhecimentos, indícios ou dados disponíveis que, à época, parecem justificar racionalmente a crença na verdade da teoria sejam incompletos, insuficientes ou ilusórios - embora sendo erroneamente interpretados como argumentos a seu favor, de acordo com aquilo se sabe ou julga saber na época e comunidade em que são aceites como tais. Portanto, em jeito de conclusão, poderia talvez dizer-te que sou relativamente relativista - passe o aparente jogo de palavras - no que diz respeito ao critério da plausibilidade, pelas razões invocadas, enquanto sou claramente absolutista ou objectivista, pelas mesmas razão, no que toca ao critério da verdade. Espero que a minha resposta seja suficientemente satisfatória e razoavelmente plausível, já que considerá-la como indiscutivelmente verdadeira é capaz de ser excessivamente presunçoso da minha parte.

Domingos Faria - Obrigado pela tua resposta. De qualquer forma penso que a aproximação da verdade deve ser aquilo ao que o filósofo deve aspirar. É verdade que não somos deuses, mas podemos pensar criticamente e analisar que algumas teorias são melhores do que outras, umas são mais plausíveis outras nem tanto. E para não errarmos tanto devemos sempre submeter à discussão pública as teorias... Como formularias a minha proposição inicial? Já agora consideras que podem existir verdades em ética? Mas, parece que não existem factos morais (pelo menos a moralidade não é como os fenómenos físicos)... Então como pode haver uma adequação com a realidade?

João Carlos Silva - Comecemos então pelo princípio: pensas tu que a aproximação à verdade deve aquilo a que o filósofo deve aspirar. Não poderia estar mais de acordo com isso, conforme já o disse e defendi por diversas vezes, voltando a fazê-lo sempre que esse ponto é objecto de dúvida ou secundarizado em relação a qualquer outro (como por ex. a felicidade, a utilidade, a consolação, o prazer, etc). Também me parece relativamente óbvio que somente uma concepção objectivista da verdade, tanto da sua possibilidade como da sua existência e valor, pode consistemente dar conta e salvaguardar esse princípio ideal do vírus relativista/subjectivista que quer tudo fazer depender dos gostos, preferências ou opiniôes subjectivas, sejam elas individuais ou colectivas. Ainda que também ele seja filosoficamente discutível, como tudo em filosofia, pessoalmente não tenho qualquer dúvida de que esse princípio é absolutamente fundamental para toda a ética subjacente à investigação filosófica ou científica. Esclarecido este ponto, quero dizer-te que também não alimento grandes dúvidas relativamente ao segundo, isto é, que, a despeito de não sermos deuses - ou até precisamente por isso, diria eu -, podemos pensar criticamente e concluir que algumas teorias são mais plausíveis que outras, pois se não concordasse com isso não só, seguramente não me dedicaria de corpo e alma à filosofia, como o faço, como há muito me teria convertido ao cepticismo ou às suas variantes relativista ou subjectivista, desistindo de procurar a verdade por acreditá-la inexistente, incognoscível ou inefável, o que, como podes ver, não é exactamente o meu caso, ou não estaríamos simplesmente a ter esta conversa. O elemento de relatividade que, como frisei na outra mensagem, me parece existir na avaliação do grau de plausibilidade de uma teoria quando se desconhece o seu valor de verdade absoluto, não resulta, conforme expliquei, do facto em si mesmo contraditório de a verdade ser ou poder ser relativa às nossas crenças, opiniôes ou pontos de vista, mas sim da finitude e imperfeição constitutivas das nossas mentes e conhecimentos e, por consequência, da nossa falibilidade inclusive na ponderação do valor das razões que suportam as teorias, facto que me parece indiscutível face ao desacordo essencial desde sempre existente entre teorias filosóficas rivais. Quer isto dizer que somos, por princípio, incapazes de uma avaliação criticamente imparcial das teorias filosóficas e das razões que as sustentam, implicando isso que a verdade objectiva é aqui inatingível, restando-nos determinar o seu valor em função de critérios mais ou menos subjectivos de plausibilidade relativa? Não, não me parece, até porque eu não disse, nem penso, que a plausibilidade de uma teoria seja um critério puramente subjectivo, como disse atrás. Claro que existem melhores e piores razões, argumentos mais fortes e mais fracos, argumentos válidos e inválidos, argumentos cogentes e falaciosos, para além de premissas verdadeiras e falsas, ou prováveis e improváveis, ou razoáveis e insensatas. O problema é que não dispomos, e talvez nunca venhamos a dispor, de um critério objectivamente imparcial e universalmente válido para, de forma infalível e mecânica, decidirmos as nossas disputas teóricas, qual espécie de algoritmo mágico que bastasse utilizar para conseguirmos resolver todos os nossos problemas e responder a todas as nossas questões. Ora, se tiver razão neste ponto, então a melhor maneira de tentar obviar essa nossa nossa limitação essencial é, evidentemente, submetermos as nossas teorias a discussão pública, a fim de reduzirmos o risco de podermos estar enganados sem o sabermos - isto, é claro, desde que que o nosso verdadeiro interesse esteja centrado na verdade em si mesma e não em quaisquer outros considerandos derivativos, por muito interessantes ou importantes que eles sejam. Dito isto, perguntas-me ainda como (re)formularia eu a tua proposição original, e a minha resposta é: Uma teoria filosófica é mais ou menos plausível consoante a força dos argumentos, factos ou razões que a sustentam, e verdadeira ou falsa conforme corresponde ou não objectivamente à realidade a que se refere.
Vamos agora à tua segunda questão. Perguntas-me se considero poderem existir verdades em ética. Apesar de saber perfeitamente que essa questão é filosoficamente disputável, não tenho qualquer problema em responder-te que sim, parecendo-me a mim que o erro do teu raciocínio reside, como é costume em filosofia e no pensamento em geral, tanto nas premissas de que partes, como no carácter não-necessário, ou sequer altamente provável, da conclusão que retiras. Porquê? Em primeiro lugar, porque partes do princípio, em si mesmo filosoficamente discutível (e, a meu ver, falso) que não existem factos morais (embora insinues a dúvida com o "parece"), aparentemente apenas com base no argumento de que os factos morais não seriam como os físicos. Ora bem, que os factos morais, a havê-los, não serão exactamente da mesma natureza que os factos ou fenómenos físicos, podemos dá-lo de barato, para fins de argumento; que essa eventual diferença justifique, por si só, a inexistência dos primeiros, eis o que o que precisa de ser demonstrado e não meramente assumido ou pressuposto como tal. Se admitirmos que os seres humanos são sujeitos morais, na medida em que possuem consciência moral, agem com intenções morais, fazem escolhas morais e atribuem ou reconhecem valor moral às suas vidas, então essa mesmas vidas, acções, escolhas, crenças, intenções e valores são, em si mesmas, factos morais, independentemente de serem fisicos, psicológicos ou sociais, subjectivos ou objectivos, racionais ou emocionais, não é verdade?! Mais: caso sejamos dotados de livre-arbítrio e, logo, responsáveis por aquilo que fazemos - e se não o formos toda a moralidade cai por terra, como é óbvio -, então todos os nossos actos praticados com intenção moral, ou seja, que envolvam conceitos e valores como o bem e o mal, o certo e o errado, o justo e o injusto, na medida em que podemos escolher racional e conscientemente não só aquilo que fazemos mas também o que devemos fazer, esses actos, atitudes ou decisões são em si mesmos morais, não apenas para quem os percepciona ou interpreta, como querem os subjectivistas, mas também para o próprio que os pratica, assim como na sua origem e essência objectivas. Por outro lado, mesmo que seja verdade que os factos morais são de natureza distinta dos factos ou fenómenos físicos, já que envolvem agentes, intenções, vontade, princípios e significados que aqueles por si mesmos não possuem, convém não esquecer, que os seres humanos também são seres físicos e que, por consequência, existe uma dimensão fisica omnipresente em tudo aquilo que fazemos, tanto nos nossos actos interiores - como pensamentos, desejos ou emoções, que ocorrem fisicamente no cérebro -, como nas nossas acções exteriores - que ocorrem objectivamente no mundo físico exterior a nós e têm consequências igualmente físicas nesse mundo -, o que significa que os factos morais e físicos, para além de terem em comum o serem factos, também partilham algo da sua própria natureza, não sendo por isso completa e radicalmente distintos ou independentes, nomeadamente os primeiros em relação aos segundos. Portanto, se admitirmos como verdadeira e objectivamente existente essa dimensão moral dos seres humanos, qualquer que seja a natureza exacta dos factos morais, sejam eles objectivos ou subjectivos, relativos ou absolutos (e eu defendo que existem ambos, residindo parte do problema em saber como distingui-los), pode haver adequação à realidade, sim senhor, embora talvez não da mesma forma que há relativamente aos factos ou fenómenos físicos, dadas as diferenças naturais existentes entre ambos os tipos de realidade. Mas quer a sua natureza e valor resida nas intenções, nas consequências, nas qualidades do carácter (ou virtudes), na conformidade a um princípio transcendental do dever racionalmente determinado, ou numa combinação variável de tudo isto, a minha posição é que existem factos morais e que, por isso mesmo, pode haver adequação à realidade das teorias que pretendem descrever, explicar ou descrever essa mesma realidade.

Domingos Faria - Aquelas perguntas sobre ética foram apenas uma provocação. Concordo com o teu argumento que podemos ter factos morais e ser objectivistas em ética. Mas, isto ainda me está a dar muito que pensar... 
Mais uma pequena provocação e tentativa de esclarecimento: Tu defendes que "uma teoria filosófica é mais ou menos plausível consoante a força dos argumentos, factos ou razões que a sustentam, e verdadeira ou falsa conforme corresponde ou não objectivamente à realidade a que se refere". Portanto, uma teoria filosófica é verdadeira se corresponde à realidade. Mas, em ética essa correspondência pode variar muito, pois a realidade, os factos morais (consciência moral, valores, etc), variam de pessoa para pessoa. Não há "uma" realidade moral, mas sim múltiplas realidades morais, muitas vezes contraditórias. Assim, a verdade em ética é múltipla e relativa.
Deste modo, em vez de dizer que em ética a verdade é a correspondência com a realidade, não terá mais sentido dizer como Rachels defende que "as verdades morais são verdades da razão"? O Rachels defende que "uma verdade em ética é uma conclusão apoiada por razões: a resposta correcta a uma questão moral é simplesmente a resposta que tem do seu lado o peso da razão". Talvez o mesmo se poderia dizer em geral na filosofia: uma verdade em filosofia é uma conclusão apoiada por razões. No entanto, isto não é ter a arrogância da infalibilidade, pois como também defende Rachels "podemos enganar-nos sobre o que é bom ou mau [e já agora sobre o que é verdadeiro ou falso] porque podemos estar enganados sobre o que a razão recomenda". Faz sentido?

João Carlos Silva - Perguntas-me se faz sentido, face a uma supostamente irredutível diversidade e relatividade da realidade moral, ou dos factos morais, defender ao mesmo tempo que as verdades morais são verdades da razão, que uma verdade em ética é uma conclusão apoiada por razões e, por fim, que uma verdade em filosofia é uma conclusão apoiada por razões, não obstante a nossa natural falibilidade racional e/ou moral. Respondo-te que sim, do meu ponto de vista faz sentido sustentar simultaneamente essas teses, embora com reservas e condições que devem ser clarificadas:
Que a realidade moral é composta de factos múltiplos e muitas vezes contraditórios, caso incluamos aí tudo aquilo a normalmente atribuímos essa designação  - como sejam acções, causas, razões, decisões, escolhas, intenções, valores, qualidades, consequências, princípios, problemas, argumentos e teorias -, não me parece que possa existir grande controvérsia, pois é própria realidade dos conflitos morais, tanto teóricos como práticos, que sempre existiram, que está aí para o provar à saciedade; já me parece mais duvidoso e digno de discussão se reduzirmos o campo semântico do termo e adoptarmos única e exclusivamente a designação de realidade moral para o plano dos princípios ou critérios formais que nos permitem aferir essa mesma realidade múltipla, mutável, relativa e contraditória que compõe a matéria dos factos a que habitualmente chamamos morais, por possuírem um significado ou valor moral, seja ele positivo ou negativo. É que se limitamos o conceito de realidade moral a esse plano de fundamentação de última instância que nos permite determinar, mesmo que falivelmente, o valor moral das nossas acções, escolhas, intenções ou qualidades pessoais, sendo considerados factos ou verdades morais apenas aqueles factos - sejam eles sensíveis (empíricos) ou inteligíveis (racionais ou intuitivos) - que estejam de acordo com essa mesma realidade formal  transcendental, então não tenho grandes hesitações em aceitar a razão humana, com todas as suas debilidades estruturais e funcionais, como o melhor candidato a órgão de deliberação final ou  juiz supremo no tribunal de última instância do que deve ou não contar como moralmente correcto, embora o “coração” possa desempenhar (e desempenhe, de facto, complementarmente) um papel igualmente decisivo na determinação, compreensão  e motivação para a acção moral, sendo mesmo certas verdades morais virtualmente inacessíveis, ininteligíveis ou impraticáveis a quem for desprovido da sensibilidade e dos afectos necessários à sua realização. Deste modo, talvez se possa e deva  afirmar que as verdades morais são verdades da razão, mas, a não ser que excluas absurdamente a própria razão da realidade, isso não refuta nem altera decisivamente a tese que contestas, uma vez que aquilo que aqui contaria como facto ou realidade a que a teoria deve acomodar-se é a realidade da própria razão, com os seus princípios, procedimentos, leis e ideais reguladores, que nos podem guiar, ainda que falivelmente, no labirintos moral das nossas vidas. Ora, se uma verdade moral é uma verdade da razão, então é com a razão que a teoria deve estar de acordo, correspondendo a sua verdade a essa mesma concordância racional interna (como acontece com as verdades lógico-formais) e não ao acordo ou adequação a qualquer realidade externa ou sensível (como acontece com as verdades sensíveis ou empíricas).
Quanto à segunda tese que enuncias, que uma verdade em ética é uma conclusão apoiada por razões - apesar do uso dos termos “razão” e “razões”, quando são respectivamente utilizados no singular ou no plural, gerar alguma ambiguidade que exige certa cautela crítica -, julgo que seria no mínimo contraditório com o que afirmei atrás negar por completo a razoabilidade de semelhante tese, desde que aquilo que conta aqui como razões de apoio ou sustentação da conclusão sejam elas, em si mesmas, racionais, passe a aparente redundância do termo. Quer isto dizer que, uma vez mais, teria de ser a razão a determinar criticamente que razões seriam validamente aceitáveis para justificar a verdade moral conclusiva que se pretenderia obter, dependendo esta, portanto, como de costume, quer do valor de verdade ou probabilidade daquelas mesmas razões, quer da conexão logicamente necessária ou altamente provável entre elas e a conclusão que visam estabelecer. Significa isto que não existem verdades morais cujas razões de suporte sejam desconhecidas ou inarticuláveis pelos sujeitos que as reconhecem como tais? Não, não significa, pois também me parece dificilmente disputável que muitos de nós agem moralmente apenas com base em razões de ordem afectiva ou sentimental, por compaixão, piedade, generosidade ou bondade natural, por sensibilidade ao interesse ou sofrimento dos outros, em suma, por razões do coração, muitas vezes somente derivadas da nossa educação moral, sentimental ou do carácter, e não racionalmente determinadas ou justificadas por nenhum instância superior que as julgue. Dir-me-ás, porventura, que existe aqui uma falácia genética, confundindo-se o plano transcendental  da verdade material ou da validade formal dos valores ou princípios morais com o plano empírico da génese cognitiva ou do nosso meio de acesso a esses mesmos princípios e valores, que pouco importaria para o caso. Mas não é esse o caso, pois o que defendo é que possam precisamente existir razões, valores ou princípios morais que valem ou são verdadeiros independentemente do grau de consciência racional que os sujeitos tenham deles, não sendo por isso necessário que o sujeito que age moralmente de forma correcta disponha subjectivamente do conhecimento racional e objectivo que validamente justifica a sua acção. Em suma, uma verdade moral não precisa ser racionalmente justificada do ponto de vista subjectivo para o ser realmente, cabendo à investigação filosófica a determinação objectiva dessas razões. Ora, sendo a ética a disciplina filosófica a quem compete realizar essa investigação, pode-se dizer com propriedade que uma verdade em ética é uma conclusão apoiada por razões, desde que se salvaguarde a independência objectiva dessa mesma verdade relativamente ao conhecimento subjectivo dos agentes morais e desde que por “razões” se entenda “boas razões”, “melhores razões” ou “razões válidas”, sob pena de se confundir a existência de razões com o ter-se razão ou ter a razão do seu lado, erro que pode ser filosoficamente fatal, tanto por causa da ambiguidade do termo “razão” e seus derivados, como porque muitas vezes existem razões de ambos os lados, ou prós e contras em relação a uma mesma tese, que tornam necessário ponderar e avaliar os pesos relativos de ambas(os). Assim sendo, a bom rigor, em vez de as fazer equivaler, ou de inferir a segunda a partir da primeira, distinguiria mais cuidadosamente as duas proposições: uma verdade em ética até pode ser uma conclusão apoiada por razões, mas isso não implica nem é mesmo que afirmar que a resposta correcta a uma questão moral é simplesmente uma resposta que tem do seu lado o peso da razão, já que podem existir razões de ambos os lados e a razão se encontrar eventualmente distribuída por eles, tornando a operação de pesagem do valor relativo dessas razões um exercício racional difícil e complicado, e não simplesmente a uma análise linear de verificação de onde é que se encontra a razão ou , pior ainda, onde é que estão as razões. Além disso, também distinguiria uma verdade ética, enquanto conclusão ou resposta a uma questão formulada na investigação filosófica sobre a moral, de uma verdade moral tout court, que pode simplesmente existir objectivamente, de forma independente do facto de ser reconhecida ou não como tal (diferença entre o plano epistémico ou cognitivo e o plano ontológico ou metafísico), podendo inclusive esse reconhecimento ser realizado por outra faculdade que não a razão, muitas vezes tardia e secundária nesse processo, limitando-se esta muitas vezes a afirmar ou a justificar de maneira intelectualmente mais sofisticada o que era relativamente óbvio ao “coração”, à sensibilidade, à intuição moral ou à inteligência emocional. Por exemplo, não é certamente necessário recorrer a sofisticados argumentos morais para se saber que é moralmente errado torturar ou matar outros seres vivos, humanos ou não-humanos, animais ou vegetais, sem qualquer necessidade, pelo simples prazer de o fazer; ou que ninguém tem o direito moral de escravizar ninguém, dispondo da vida e da liberdade de outra pessoa a seu belo prazer. Claro que demonstrar racionalmente por que é assim é “ligeiramente” mais complicado do que simplesmente afirmá-lo de forma dogmática, mas isso não significa que esses princípios não sejam verdadeiros independentemente de serem ou não reconhecidos como tais, seja por todos, pela maioria, por alguns ou por nenhuns. E a maioria das pessoas, felizmente para todos nós, sabe-o por outros meios que não os meios racionais da investigação filosófica, embora depois possam ignorá-los na prática, seja por fraqueza, conveniência, interesse ou maldade, como bem sabemos.
Agora quanto à tua última questão, se é ou não lícita a generalização para toda a filosofia de que uma verdade é uma conclusão apoiada em razões, remeto-te para o que disse atrás relativamente ao mesmo problema na área específica da ética, pois as reservas que fiz aí são exactamente as mesmas que faço em relação à tese geral, em particular a reserva quanto à possível confusão entre haver razões e ter razão, uma vez que razões podem sempre haver, o que implica, como é óbvio, que se tenha sempre a razão do seu lado. Isto pode parecer um preciosismo excessivo da minha parte, mas não me parece que seja, pelos motivos que referi atrás, nomeadamente a confusão habitual entre causas, razões, motivos e razão, a qual, se não for rigorosamente clarificada, pode originar muito disparate racionalmente desnecessário e potencialmente perigoso - como acontece com frequência em ética quando, por exemplo, se confundem os motivos que explicam acção com as razões que a justificam, reduzindo assim a ética à psicologia ou a filosofia política à história, à sociologia ou à economia; ou em teoria do conhecimento, quando se confunde as causas ou motivos de uma crença com a sua justificação racional; ou quando, na filosofia da religião, e prolongando os erros anteriores, se julga que haver causas ou motivos para as pessoas acreditarem em Deus equivale a terem razões justificativas para o fazerem. Claro que o erro subjacente a todos estes se pode reduzir a uma confusão categorial ou de níveis de análise, em que o ser e o dever ser, o real e o ideal, os factos e os valores (ou os juízos de facto e de valor), as causas e as razões, as explicações e as justificações, ou o descritivo e o normativo, são indevidamente misturados e confundidos, gerando diferentes tipos de falácias, como a falácia genética e a eventual falácia naturalista. Mas é precisamente para evitar cometer esse erro filosoficamente primário que convém definir e distinguir claramente os termos que usamos, mesmo, ou sobretudo, quando eles nos parecem óbvios, inequívocos e desprovidos de qualquer ambiguidade conceptual ou semântica.
Em suma, a definição que propões de verdade filosófica como uma conclusão apoiada por razões parece-me enfermar, em parte, do mesmo erro ou limitação que a definição clássica de conhecimento como crença verdadeira justificada: assim como esta parece ser condição necessária mas não suficiente do conceito de conhecimento, dadas as dificuldades e objecções conhecidas, também a tua definição de verdade filosófica como conclusão apoiada por razões me parece necessária mas não suficientemente satisfatória, uma vez que falta esclarecer que as razões que apoiam a conclusão devem provar ou implicar necessariamente a sua verdade, pois caso contrário não poderíamos falar de uma verdade, mas sim de uma possibilidade ou de uma probabilidade, por muito forte que ela fosse. Falta também esclarecer que as razões em questão devem ser elas próprias verdadeiras ou válidas, consoante se trate de premissas simples ou de argumentos compostos, pois, como sabemos, somente a combinação da verdade das premissas e da validade formal dos argumentos é que pode estabelecer a verdade necessária das conclusões. Portanto, tal como na definição clássica de conhecimento falta explicar que a justificação das crenças verdadeiras deve, ela mesma, ser verdadeira e válida (ou cogente), sob pena de poder ser errada e não justificar coisa nenhuma, também na tua definição de verdade filosófica falta explicar que o valor de verdade da conclusão estabelecida depende do valor de verdade das razões que a sustentam e da validade do raciocínio que a ela conduz, não bastando por isso afirmar que uma verdade filosófica é uma conclusão apoiada por razões, mas sim dizer que uma verdade filosófica é uma conclusão validamente justificada por razões verdadeiras, ou seja, em que a combinação da verdade das mesmas e a sua conexão lógica implica necessariamente a verdade da conclusão. Reformulando a definição, talvez ficasse melhor assim: uma verdade filosófica é uma conclusão que tem a razão do seu lado, ou, talvez melhor ainda, uma verdade filosófica é uma crença verdadeira solidamente justificada. Isto permitiria, inclusive, contornar a dificuldade patente na conciliação entre o carácter absoluto do conceito de verdade, seja ela filosófica ou não, e a relatividade inerente à nossa fatal falibilidade cognitiva essencial, também extensível, como não podia deixar de ser, ao plano da razão. Portanto, se não somos deuses, se também podemos equivocar-nos racionalmente, se a razão também não é infalível e pode induzir-nos em erro, se aquilo que a razão recomenda ou determina não é um critério infalível de verdade, então das duas uma: ou bem que, em bom rigor, não se pode falar de todo em verdades filosóficas - caso não se possa ter, filosófica ou racionalmente, a certeza absoluta de nada -, ou bem que se reserva o termo de verdade filosófica unicamente para aqueles casos que não ofereçam quaisquer dúvidas razoáveis, usando termos mais fracos que não induzam desnecessariamente em erro, apenas para criarem depois, como acontece frequentemente em ciência, o problema absurdo de se terem de rever supostas verdades que afinal não o eram.


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