25/06/2011

Um Diário Filosófico



A natureza das coisas do ponto de vista da eternidade” (Chiado Editora, 2010) é uma obra filosófica do meu amigo João Carlos Silva (professor do ensino secundário) que escreveu 860 pensamentos, máximas, aforismas e reflexões, sobre o ser humano, a vida, o universo, deus, o tempo presente, entre outros… Do seu livro, que me parece uma espécie de grande viagem ou diário filosófico, decidi destacar cinco reflexões sobre a natureza da filosofia e do filosofar que penso que vale a pena ler:
[ 16 ]
Porquê e para quê, hoje, a Filosofia? Pela mesma razão de sempre: porque uma vida não examinada não é digna de ser vivida, não passando, portanto, de um erro, de uma aberração ou de uma anomalia – embora possa ser (e seja) essa a norma geral.
[ 75 ]
Se é verdade que apenas as almas de eleição, ou as naturezas nobres, podem almejar à excelência da Filosofia, como justificar racionalmente o seu ensino escolar?! Exactamente porque só dessa forma se torna possível a detecção, a selecção, o encaminhamento e a orientação dos espíritos naturalmente dotados e predispostos no sentido da sua potencial conversão filosófica. E para que tal finalidade seja atingida e plenamente cumprida, o professor de filosofia tem, não só também ele de ser um filósofo, na verdadeira acepção da palavra, como deve assumir a missão de ser simultaneamente um despertador, um exemplo e um guia (um Mestre) dos seus alunos/discípulos, não para os convencer ou converter a uma qualquer suposta verdade doutrinária que julgue possuir, mas sim para criar ou desenvolver neles (e com eles) a vontade de saber, o amor à verdade e a capacidade de pensar sobre aquilo que mais importa de forma crítica e autónoma, contribuindo, deste modo, para a sua formação global como seres humanos e para a sua educação, desenvolvimento e realização integral como pessoas e cidadãos do mundo.
[ 78 ]
A Filosofia é, absolutamente, um caso de Vida ou de Morte: quem se interroga e quer verdadeiramente saber quem é, o que faz aqui, donde vem, para onde vai, e o quê e o porquê de tudo isto, Vive autenticamente e merece ser chamado Homem ou Ser Humano; quem não se interroga e não quer realmente saber a resposta a todas essas questões – as quais, até prova em contrário, só nós podemos colocar e tentar resolver –, não merece aquele Título de Honra que inventámos para a nossa própria espécie ao definirmo-nos como animais racionais e como Homo Sapiens Sapiens, não passando, portanto, de um animal morto, ainda que ignore, por isso mesmo, que o é ou está.
[ 119 ]
Duas tentações extremas e permanentes da filosofia: o dogmatismo e o cepticismo. O dogmatismo, porque, seja pelo cansaço, pela preguiça, pelo orgulho, pela vaidade ou pelo medo, mais tarde ou mais cedo, é praticamente irresistível ceder à tentação de acreditar na ilusão de que já se sabe, de que já se alcançou a resposta definitiva para a questão, de que já se encontrou a solução verdadeira e válida para o problema, de que se atingiu uma certeza absoluta que está acima de qualquer dúvida e para além de qualquer crítica possível; o cepticismo, porque, exactamente pelas mesmas razões, é de igual modo extremamente difícil resistir à tentação de acreditar na ilusão de que nada se sabe realmente, de que nunca se alcançará a resposta definitiva para nenhuma questão filosófica, de que nunca se encontrará a solução verdadeira e válida para nenhum problema filosófico, e de que é impossível atingir uma certeza absoluta acima de qualquer dúvida e resistente a toda a crítica possível no que diz respeito a qualquer tópico ou matéria filosófica. A permanência da procura, a insatisfação pelas soluções encontradas, a vontade de saber mais e de compreender melhor, a persistência da dúvida, a vigilância crítica constante, a abertura de espírito e a consciência humilde da própria ignorância, que são virtudes filosóficas por excelência, são muito difíceis de manter e conservar a tempo inteiro, sem cedências, concessões ou compromissos com qualquer um daqueles desvios, os quais constituem assim as duas formas filosóficas da tentação dos extremos e mais uma variação da dicotomia absolutismo/relativismo.
[ 133 ]
Um filósofo é alguém que tem perfeita consciência da sua própria ignorância, quer dizer, alguém que sabe que não sabe nada, que tem vergonha desse estado (o qual sabe ser humanamente vergonhoso), e que está, por isso mesmo, disposto a fazer tudo para se libertar dele e superá-lo através da constante procura da sabedoria.

Para além deste livro o professor João Carlos Silva tem alguns artigos interessantes na revista de filosofia “Crítica na rede”:





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