08/06/2011

Três teorias sobre o sentido da vida




1) Uma Resposta Teísta – Leão Tolstoi

Argumento:
P1 – Se formos mortais, a vida não tem sentido. (A mortalidade anula o sentido porque todos estaremos mortos daqui a algum tempo, e assim não poderemos continuar para sempre a fazer coisas de valor).
P2 – Se nada do que fazemos é permanente, nada do que fazemos tem sentido. (A impermanência anula tudo o que fazemos porque tudo acabará por desaparecer. Mesmo que ajudemos os outros, que criemos um mundo melhor, mais belo e mais justo, mesmo que sejamos imensamente felizes, nada disso restará daqui a um milhão de anos).
P3 – Mas, se temos uma alma imortal e se Deus nos criou com uma finalidade, a vida humana tem sentido. (Vale a pena viver, pois Deus dá sentido à vida: Deus criou-nos com uma alma imortal, e deste modo não seremos reduzidos à morte e ao nada; do mesmo modo Deus irá recompensar-nos ou castigar-nos em função do modo como vivemos a vida, e assim o que fazemos ganha permanência, marcando para sempre a nossa existência após a morte).
C – Logo, a vida faz sentido se, e só se, Deus existe.

Texto de Tolstoi: “Confissão” (1882).



2) Uma Resposta Ateísta – Kurt Baier

Argumento:
P1 – Na mundividência medieval judaico-cristã, Deus atribui um propósito ao ser humano e é este propósito que dá sentido à vida. (Ou seja, o ser humano serve para cumprir a lei de Deus, para venerar Deus, para se submeter e resignar à vontade de Deus, etc… e ao fazer isto recebe uma vida eterna…).
P2 – Mas, isto seria ofensivo para o ser humano. (Isto porque o ser humano seria tratado meramente como um meio para os fins de Deus; não seria um fim em si. Segundo Kurt Baier, qualquer finalidade única ou propósito que nos tenha sido atribuído por Deus é degradante porque nos trata como objectos ou artefactos e não como pessoas que realizam os seus próprios propósitos).
C – Logo, só se Deus não existir é que a vida pode ter sentido.

Texto de Kurt Baier: “O sentido da vida” (1957).



3) Uma Resposta Agnóstica – Susan Wolf

Argumento:
P1 – Uma vida tem sentido quando é uma entrega activa a projectos de valor.
P2 – Essa entrega activa a projectos de valor não está dependente da existência ou da inexistência de Deus.
C – Logo, a vida pode ter sentido quer Deus exista quer não.

Ideias básicas:
1. “Quer Deus exista quer não, o facto permanece: alguns objectos, actividades e ideias são melhores do que outras”.
2. “Se uma actividade vale a pena e outra é um desperdício, então temos razão para preferir a primeira, mesmo que não exista qualquer deus para nos olhar de cima aprovadoramente”.
3. “A diferença entre uma vida significativa e uma vida que não o é (…) trata-se de uma diferença entre uma vida que faz o bem ou é boa ou realiza valor e uma vida que é essencialmente um desperdício”.
4. “Ter uma vida significativa é preocuparmo-nos em ter uma vida de entrega activa, e pelo menos bem sucedida, a projectos (entendendo este termo numa acepção lata) que não parecem apenas ter valor positivo, mas que realmente o têm”.
5. “Mesmo que a vida como um todo não tenha um propósito [atribuído por um deus], isso não é uma razão para duvidar da possibilidade de encontrar e fazer sentido na vida”.

Textos de Susan Wolf: “Felicidade e sentido: dois aspectos da vida boa” (1997); e “Os sentidos das vidas” (2007).


Resta estimular o pensamento crítico do leitor: Qual será a teoria/resposta mais plausível?


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