24/06/2011

Até onde se pode ir?


[Cartoon de Jorge Lima]

Um outro exemplo de psicofoda negativa, que parece continuar patente na sociedade contemporânea, encontra-se exposta no livro “Até onde se pode ir?” de David Lodge. Apesar deste livro ser um romance (ou talvez melhor um drama), representa bem a situação de pessoas reais que foram (e continuam a ser) manipuladas por sistemas ideológicos de crenças consideradas infalíveis. No caso concreto, o livro retrata a vida (entre os anos 50 e 70 do século XX) de desespero e angústia de jovens e adultos que foram católicos, e que por isso mesmo foram obrigados a reprimir constantemente os seus impulsos naturais sexuais, bem como foram reprimidos a não recorrer aos métodos contraceptivos. E toda esta auto-repressão e sacrifício da líbido para quê? Simplesmente em nome da salvação eterna e por medo da condenação ou do inferno, que parecia uma espécie de jogo. Como Lodge esclarece:
“Talvez seja boa ideia explicar a metafísica ou a visão do mundo que estes jovens adquiriram com a educação e formação católicas. Lá em cima estava o céu e lá em baixo o inferno. O nome do jogo era Salvação e o objectivo alcançar o céu e evitar o inferno. Era como o jogo das «Snakes and Ladders»: o pecado fazia-os recuar cinquenta casas; os sacramentos, as boas acções, os actos de mortificação, davam-lhes a possibilidade de voltar a subir em direcção à luz” (p. 14).
A educação num pensamento único, rigidamente dogmático e acrítico, levava as pessoas a aceitarem de forma passiva este tipo de mundividência com as suas concomitantes crenças. Assim, é pecado as relações sexuais pré-matrimoniais (até onde poderiam avançar os namorados?), as relações homossexuais, a masturbação, entre outros… E por que razão isto era pecado? Simplesmente porque a Igreja Católica dizia que era pecado! (Mas, como poderiam dizer que isto era pecado se mesmo Cristo não disse nada sobre casuística sexual?). E para isso recorria-se frequentemente a práticas de controlo (manipulação) como o exemplo dos sermões dominicais, da catequese ou de uma forma mais eficaz através das confissões, em que os sacerdotes sondavam os seus “fiéis” sobre os pecados da carne, violando até frequentemente as intimidades mentais das pessoas. Para além disso, nem os que casavam em “sagrado matrimónio” estavam livres do controlo rígido da hierarquia católica:
“Embora cada um dos casais quisesse ter filhos, eles chegavam mais depressa e com maior frequência do que os pais desejavam ou planeavam. A razão óbvia era a de obedecerem ao ensinamento da Igreja e confiarem na abstinência periódica como meio de planear a família, sistema conhecido como métodos das temperaturas ou método seguro e que, na prática, não era nem seguro nem aferível” (p. 75).
Ora, tudo isto originava ansiedades e medos que condicionavam a relação de amor do casal. Porém, por que razão é pecaminoso utilizar, por exemplo, a pílula ou o preservativo como métodos contraceptivos? Simplesmente porque impedia a procriação! Mas, qual é o mal disso? Porquê tanta mania das autoridades eclesiásticas em se meterem debaixo dos lençóis dos casais e dos namorados?
É verdade que muita coisa tem mudado desde os anos 50. Houve o concílio Vaticano II e com ele todo um conjunto de reformas teológicas, mas a nível da sexualidade a Igreja ainda parece continuar a psicofoder a mente de muitas pessoas. Ainda hoje se idolatra a “Humanae Vitae” (e o seu famoso número 14). Mas, quem ainda dará crédito a tremenda invasão e opressão???



Resumo do livro “Até onde se pode ir?”: As dúvidas, angústias e dislates de um grupo de católicos britânicos para quem a revolução sexual chegou tarde demais. Os encontros e desencontros de um grupo de católicos ingleses, desde os seus tempos de universidade, no início da década de 50, até ao final dos anos 70, servem de cenário a esta sátira - simultaneamente divertida e amarga - que consegue a proeza de descrever as questões morais vividas pela grande maioria dos cristãos. Dennis, Michael, Ruth, Polly, entre outros, são confrontados com as inevitáveis atribulações da vida: do casamento ao adultério, passando pela doença e a perda, e, como uma sombra, o Concílio Vaticano II e a encíclica papal Humanae Vitae contra a concepção. Ou seja, de um lado, a tradicionalista Igreja Católica, e, no extremo oposto, o canto da sereia da sociedade permissiva. E com a invenção da pílula e a extinção do Inferno, será difícil a este grupo de amigos manter intacta a sua virgindade espiritual e não desapontar Cristo.


Para saber mais:
- Comentários do padre Anselmo Borges sobre a encíclica Humanae Vitae: comentário_1, comentário_2.




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