16/06/2011

A arte de foder o juízo



Não me f**** o juízo: Crítica da manipulação mental” foi um dos livros de filosofia mais divertidos que li até hoje. O filósofo Colin McGinn, para além de explorar de uma forma clara e rigorosa o conceito de “psicofoda”, escreve com muito sentido do humor. Neste ensaio McGinn denuncia a arte de foder o juízo, ou mais especificamente a psicofoda (no seu sentido negativo), que visa explorar, intimidar, invadir, oprimir, controlar e manipular os seres humanos, fazendo recurso do logro, de crenças falsas, de vulnerabilidades, de emoções, ente outros… Este é um conceito milenar surgindo ao que parece na Grécia Antiga:
“Talvez pareça estranha esta afirmação mas penso que a origem do conceito de foder o juízo remonta pelo menos a Platão (pelo que também este ensaio é mais uma nota de rodapé a Platão). Pois Platão preocupava-se seriamente em combater aqueles oradores da Grécia Antiga conhecidos como «sofistas», que foram na verdade os primeiros fode-juízos de que há registo. Os sofistas propunham-se, mediante um pagamento, ganhar qualquer discussão, especialmente em tribunal, por quaisquer meios de que dispusessem. O seu objectivo não era a favor da verdade, usando apenas argumentos válidos e premissas verdadeiras; sentiam-se à vontade para conquistar o assentimento por quaisquer meios possíveis, usando truques retóricos, falácias atraentes, apelo aos sentimentos, medo, preconceitos e tudo o mais. Em vez de usar apenas os meios da persuasão racional, empenhando as faculdades racionais do público, recorriam a métodos de manipulação psicológica. Lisonjeavam e seduziam, fodendo o juízo do público e não tinham quaisquer escrúpulos em usar falácias e falsidades. Além disso, também lhe ensinariam a fazer o mesmo: a tornar-se, você mesmo, um fode-juízos. A essência da sua técnica era persuadir, não apelando às faculdades racionais mas recorrendo à emoção (soa-lhe familiar?). Platão opunha-se profundamente aos sofistas, dado dar tanto valor ao discurso racional, gostando de distinguir claramente entre o procedimento racional dos filósofos genuínos como ele próprio e o saco de truques psicológicos usados pelos sofistas” (pp. 31-32).

Existem muitos exemplos que podem ilustrar bem esta manipulação mental utilizada desde os sofistas. Um caso paradigmático está patente na obra 1984 de George Orwell, onde o governo através de meios como a propaganda, a doutrinação e a lavagem cerebral, psicofode as pessoas a «amar» o Big Brother. Mas, infelizmente a psicofoda não é algo que se encontra apenas na ficção literária. Na vida real as pessoas estão constantemente a ser psicofodidas quer por governos, como na Coreia do Norte (e já agora também em Portugal durante os seis anos de governação do engenheiro e querido líder Pinto de Sousa), quer por seitas religiosas, como os fundamentalistas cristãos ou islâmicos. A este propósito McGinn refere que:
“Um governo ou seita religiosa podem adoptar métodos que se aproximam da psicofoda: instilam um conjunto de crenças, geralmente falsas, por vezes de um modo extravagante, além de emoções que as acompanham, através de métodos que não a persuasão racional: tipicamente, apelando ao medo e à ansiedade. Temos de classificar a concepção medieval do inferno como um exemplo perfeito: usou-se o medo do que acontece depois da morte para coagir e controlar as pessoas segundo os ditames da Igreja, e dedicou-se um elaborado sistema à sustentação da ilusão. O fascismo e o comunismo soviético são também exemplos óbvios: ambos apelavam a preconceitos latentes, ressentimentos e ansiedades, para manipular as mentes das pessoas (…) e empregava-se todos os recursos de propaganda” (pp. 66-67).
No entanto, esta atitude de manipulação mental não está presente apenas no âmbito da política ou da religião. Pode-se encontrar muitos exemplos desta imoral psicofoda nas relações humanas quotidianas, nos casais, nos amigos, nos colegas de trabalho, ou nas pseudociências como a astrologia, etc... O nosso mundo está repleto de muitos casos particulares em que pessoas querem propositadamente violentar e manipular outras, em suma, foder-lhes o juízo. Estamos conscientes deste perigo? Por que não cultivar antes uma psicofoda positiva (como a do verdadeiro Sócrates através de um constante exame critico das nossas crenças mais queridas) em vez de uma psicofoda negativa (que apenas quer violentar as pessoas)?

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