17/04/2011

Por que há realmente algo?


"Resumindo, a pergunta «por que há realmente algo?» parece perfeitamente sensata, parece seguir o modelo de «por que existe isto?» ou «como se originou isto?» Parece uma pergunta sobre a origem de uma coisa.
Contudo, não é uma tal pergunta, pois o universo não é uma coisa, mas a totalidade das coisas. Não há, portanto, razão para pressupor que o universo tenha uma origem. O próprio pressuposto de que tem está pejado de contradições e absurdos. Mesmo assim, se fosse verdade que o universo se originou a partir do nada, então isto não exigiria uma explicação desvexatória nem uma explicação-modelo. Não exigiria a segunda porque não poderia haver qualquer modelo disso retirado de outra parte da nossa experiência, dado que na nossa experiência nada há de análogo à origem a partir de nada. Não exigiria a primeira porque não pode haver perplexidade devido a uma incompatibilidade entre um modelo bem estabelecido e um facto inegável, dado não haver um facto inegável e um modelo bem estabelecido. Por outro lado, como é mais provável, se o universo não teve qualquer origem, mas é eterno, então a questão de como ou por que se originou pura e simplesmente não se levanta. Não pode haver uma questão sobre a razão pela qual existe realmente algo, pois não pode ser uma questão sobre como ou por que razão o universo se originou dado que, por hipótese, não tem origem. E que outra questão poderá ser?
Finalmente, temos de ter em mente que a hipótese de que o universo foi feito por Deus a partir do nada só nos reconduz à questão de saber quem fez Deus ou como se originou Deus. E se não nos repugna dizer que Deus é eterno, não nos pode repugnar dizer que o universo é eterno. A única diferença é que sabemos sem dúvidas que o universo existe, ao passo que temos a maior dificuldade até a dar sentido à afirmação de que Deus existe" (Kurt Baier).

Será que Kurt Baier tem razão?

Fonte:
Kurt Baier (1957) "O Sentido da Vida". In Desidério Murcho (org) Viver para quê? Ensaios sobre o sentido da vida. Lisboa: Dinalivro, pp. 74-75.


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