14/04/2011

O Mito de Sísifo segundo Richard Taylor


"Se pudermos em imaginação libertar as nossas vontades das nossas vidas e não atender ao interesse profundo que todos temos na nossa própria existência, veremos que não são poucas as semelhanças com Sísifo. 
Labutamos para alcançar objectivos, a maior parte deles de importância transitória - na realidade, todos - e, mal alcançamos um, lançamo-nos ao seguinte, como se nunca tivesse existido, sendo o seguinte essencialmente mais do mesmo. Olhe-se uma rua movimentada num dia qualquer e observe-se a multidão a andar de cá para lá. Para onde? Um escritório ou loja, onde as mesmas coisas serão feitas hoje como foram ontem, e são agora feitas para que se possam repetir amanhã. E se pensarmos que, ao contrário de Sísifo, estes labores têm um objectivo, que culminam em algo permanente e, independentemente dos interesses profundos que nós mesmos nutrimos por eles, que valem muito a pena, então não considerámos pura e simplesmente as coisas suficientemente de perto. Tais esforços dirigem-se apenas, na sua maior parte, ao estabelecimento e perpetuação de um lar e da família; isto é, à geração de outros que irão imitar-nos fazendo mais do mesmo. As vidas de todas as pessoas assemelham-se assim a uma das subidas de Sísifo ao cimo do seu monte, e cada dia é um dos seus passos; a diferença é que enquanto o próprio Sísifo regressa ao ponto de partida para carregar outra ver a pedra, nós deixamos isso aos nossos filhos. (…)
Numa estrada de província dá-se por vezes com as estruturas em ruínas de uma casa e de muitas construções, todas a desfazer-se, espalhadas e cobertas de ervas. Um olhar curioso pode reconstruir na imaginação, com base nestas ruínas, uma vida animada e próspera, repleta de propósito. Havia a lareira, onde uma família falou, cantou e fez planos; havia os quartos, onde as pessoas amaram e onde nasceram bebés de uma mãe jubilosa; há os restos bolorentos de um sofá, infestado de bichos, que foi comprado a preço elevado para realçar o conforto, a beleza e o aconchego cada vez maiores. Todo o pequeno pedaço de talha preenche a mente com o que, não há muito tempo, foi inteiramente real, com as vozes das crianças, planos e empreendimentos. Foi assim que estas pedras de Sísifo foram carregadas e foi assim que se integraram num templo belo, e é esse templo que agora está perante nós. Entretanto, outras construções, instituições, nações e civilizações nascem por todo o lado, para nada mais senão partilhar o mesmo destino ao fim de não muito tempo. E se se fizer agora a pergunta «para quê?», a resposta é clara: para que precisamente isto possa continuar para sempre".


Fonte:
Richard Taylor (1970) "O Sentido da Vida". In Desidério Murcho (org) Viver para quê? Ensaios sobre o sentido da vida. Lisboa: Dinalivro, pp. 40-42.


Ligações:
- Mito de Sísifo (Albert Camus).


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