19/04/2011

O mal da credulidade



"Se me permito acreditar seja no que for com indícios insuficientes, da mera crença pode não resultar grande mal; pode afinal ser verdadeira, ou posso nunca ter ocasião de a manifestar em acções públicas. Mas não deixo de cometer este grande mal contra o Homem: o de me tornar crédulo. O perigo para a sociedade não é meramente o de acreditar em coisas erradas, embora isso seja suficientemente mau; mas o de se tornar crédula e perder o hábito de testar as coisas e de as investigar; pois então reincidirá forçosamente na selvajaria.
O mal que a credulidade faz num homem não se limita à estimulação de um carácter crédulo nos outros e à decorrente defesa de crenças falsas. O hábito de ser descuidado com aquilo em que acredito leva os outros a serem por hábito descuidados com a verdade daquilo que me é dito. Os homens dizem a verdade uns aos outros quando cada um respeita a verdade na sua própria mente e na mente do outro; mas como poderá o meu amigo respeitar a verdade na minha mente quando eu próprio sou descuidado com ela, quando acredito em coisas porque quero acreditar nelas, porque são reconfortantes e agradáveis? Não aprenderá ele a exclamar «paz», na minha presença, quando não há qualquer paz? Adoptando tal caminho, envolver-me-ei numa atmosfera carregada de falsidade e fraude e aí tenho de viver. Talvez seja de pouca importância para mim, no meu castelo nas nuvens, feito de doces ilusões e mentiras queridas; mas para a humanidade é de enorme importância que eu tenha preparado os meus vizinhos para enganarem. O homem crédulo é o pai do mentiroso e do batoteiro; vive no seio da sua família, e não é de admirar que fique igualzinho a eles. Tão intimamente unidos estão aos nossos deveres que quem observa a lei em geral e, no entanto, a transgride num ponto particular, é culpado de tudo.
Resumindo: é sempre incorrecto, em todo o lado, para qualquer pessoa, acreditar seja no que for com base em indícios insuficientes.
Se um homem, ao manter uma crença que lhe foi ensinada em criança ou da qual o persuadiram mais tarde, reprime e afasta quaisquer dúvidas que lhe surgem na mente a esse respeito, evita intencionalmente a leitura de livros e a companhia de homens que questionam ou discutem essa crença, e considera ímpias as perguntas que não se podem colocar facilmente sem a perturbar - a vida desse homem é um enorme pecado contra a humanidade".

William Clifford (1877) "A ética da crença", tradução de Vítor Guerreiro. In Murcho, Desidério (org.) A Ética da Crença. Lisboa, Ed. Bizâncio, 2010, pp. 107-108.

[Cartoon de Sherif Arafa, Alittihad]


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