06/02/2011

Pertinência dos Materiais Didácticos no Ensino da Filosofia


Nas aulas de filosofia é comum ver-se professores a fazer recurso do powerpoint, dos filmes, dos esquemas, das fichas de trabalhos de grupo, entre outros… Isto faz-me levantar uma questão: serão pertinentes os materiais didácticos no ensino da filosofia? Mas, parece-me que esta questão levanta ainda uma questão prévia: como alcançar a excelência no processo de ensino-aprendizagem da filosofia? Ou com outra formulação: com que aspectos o professor se deve preocupar para leccionar adequadamente filosofia, e para que este ensino se torne uma experiência relevante para os alunos? Neste texto, pretendo defender as seguintes ideias:

  1. Os materiais didácticos tornam-se relevantes para um bom ensino da filosofia se estiverem devidamente ancorados à filosofia e se o professor dominar de forma sólida os conteúdos científicos da filosofia.
  2. Num ensino de excelência da filosofia não tem qualquer sentido materiais didácticos que tenham apenas e só uma função de animação ou entretenimento.
  3. Os materiais didácticos devem essencialmente facilitar, promover e estimular a compreensão e discussão dos problemas, teorias, argumentos e conceitos da filosofia.

Vou iniciar pela resposta à questão prévia. Considero que uma condição absolutamente necessária para se ensinar filosofia é o domínio alargado, rigoroso, e sólido dos conteúdos científicos da filosofia. Sem esta condição necessária a aula de filosofia torna-se totalmente irrelevante, transformando-se ou em entretenimento, ou em conversa de café, ou em jogo de palavras, ou noutra surrealidade qualquer. Neste desvirtuamento a filosofia só se pode tornar “aquela coisa com a qual e sem a qual tudo fica tal e qual”; pois, gasta-se literalmente tempo em vão, bem como se promove a aversão a uma disciplina que, inversamente, se correctamente leccionada, tem genuíno interesse cognitivo, ficando-se com uma ideia completamente distorcida do que é a actividade filosófica. Se o professor não dominar os conteúdos científicos, então nunca poderá promover a compreensão e a discussão séria e rigorosa dos problemas, teorias e argumentos da filosofia, nem sequer poderá estimular para se analisar criticamente as teorias e argumentos para assim se encontrar uma possível resposta plausível ao problema em estudo. Aliás, como poderá o professor ensinar e estimular o debate crítico das teorias filosóficas se ele previamente não as conhece? Pelo contrário, para que o ensino da filosofia se torne relevante, o professor deverá dominar os conteúdos científicos da filosofia, ou seja, saber adequadamente os vários problemas, teorias e argumentos. Este conhecimento não deve estar num grau superficial, mas sim deve ser bastante aprofundado e rigoroso para se poder esclarecer devidamente as possíveis dúvidas pertinentes dos alunos e para se ter à-vontade na leccionação.
Defendi que o domínio alargado dos conteúdos científicos é uma condição absolutamente necessária para um bom ensino da filosofia. Mas, será esta também uma condição suficiente? Não me parece… Pode-se perfeitamente conceber um professor que domine irrepreensivelmente os conteúdos, mas que não promove a compreensão e discussão das teorias, limitando-se a “despejar” mecanicamente os conteúdos para os alunos repetirem acriticamente; ora, isto não corresponde minimamente àquilo que é de esperar de uma boa aula de filosofia. Logo, o domínio dos conteúdos científicos não é uma condição suficiente para um bom ensino da filosofia. Então, para além do domínio dos conteúdos científicos, será preciso pelo menos outras condições necessárias, tais como: ter uma metodologia socrática (para ajudar os alunos na compreensão de teorias, bem como para estimular uma avaliação critica das mesmas), ter uma boa relação pedagógica (sem se cair em estilos demasiado autoritários ou demasiado permissivos), ter entusiasmo e dedicação (para motivar os alunos), ter métodos apropriados de avaliação (onde se avalie estritamente as competências filosóficas), ter actividades e materiais didácticos adequados à filosofia (para se promover a compreensão, análise e discussão critica dos vários problemas, teorias e argumentos). Conjuntamente estas diversas condições necessárias podem ser, muito provavelmente, uma condição suficiente para um bom ensino da filosofia.
Feitas estas considerações prévias, quero agora sobretudo focar a última condição necessária que referi: os materiais didácticos. Afinal, serão os materiais didácticos realmente pertinentes para o ensino da filosofia? Serão mesmo uma imprescindível condição necessária para um bom ensino da filosofia?
Quando falo de “materiais didácticos” estou a referir-me a todos os instrumentos (inclusive actividades) fornecidos aos alunos e que normalmente os ajudam na sua aprendizagem (por exemplo, em filosofia auxiliam na melhor compreensão de uma dada teoria, ou estimulam para se pensar criticamente um determinado problema, etc). Os acetatos, o powerpoint, os esquemas-síntese, as chaves hermenêuticas ou interpretativas, os excertos de texto de autores primários, as fichas formativas (com questões de revisão e discussão), as WebQuests, os filmes (com o correspondente guião), os manuais escolares, entre outros, são exemplos de alguns materiais didácticos que se podem utilizar na sala de aula.
Mas, serão eles relevantes para um bom ensino da filosofia? Penso que sim, desde que tenham como objectivo ajudar efectivamente os alunos na melhor aprendizagem da filosofia. Assim, um primeiro aspecto que pretendo salientar é o seguinte: os materiais didácticos não são o fim da aprendizagem, mas apenas um meio para atingir um fim; ou seja, são apenas instrumentos para facilitarem a aprendizagem da filosofia. Para acontecer isto deverá haver uma clara ancoragem dos materiais didácticos à filosofia. Se não houver esta relação e ancoragem dos materiais didácticos à filosofia, então não estão a servir para a aprendizagem da filosofia, podendo ficar apenas pelo mero entretenimento ou diversão. Nesta ancoragem à filosofia, os materiais didácticos utilizados na sala de aula devem ser devidamente justificados, averiguando também quais as finalidades e objectivos que se pretendem atingir. Se os materiais forem justificados de forma a contribuir para uma melhor aprendizagem da filosofia, e se tiverem como finalidade, por exemplo, a compreensão e a discussão dos vários problemas, teorias e argumentos da filosofia, então penso que os materiais didácticos podem-se tornar pertinentes na sala de aula.
No entanto, para além da ancoragem à filosofia, o professor que utiliza esses materiais didácticos deverá dominar solidamente os conteúdos científicos. Pois, mesmo que se tenha um excelente material didáctico a nível filosófico, isso em nada garante o bom sucesso da aprendizagem dos alunos. Imagine-se, por exemplo, que um professor utiliza na sala de aula acetatos bem elaborados sobre uma determinada teoria; mas, depois não sabe explicar por outras palavras a teoria em estudo, não sabe tirar dúvidas aos alunos, e limita-se apenas a ler o que está nos acetatos. Será esta uma boa aprendizagem da filosofia? Logo, constata-se que não chega ter materiais didácticos bem realizados e ancorados à filosofia, será também essencial o professor dominar os conteúdos científicos (também pelas razões que avancei na primeira parte deste texto).
Portanto, considero que os materiais didácticos são pertinentes no ensino da filosofia, pois, normalmente ajudam os alunos na compreensão e discussão do que foi leccionado. Mas, como referi, para que um determinado material didáctico se tornar realmente uma experiencia pertinente são necessários dois requisitos básicos: 1) uma boa ancoragem do material didáctico à filosofia, e 2) que o professor domine solidamente os conteúdos científicos. Sem estes dois requisitos um qualquer material didáctico deixa de ter relevância num bom ensino da filosofia.
Vejamos um exemplo onde se desrespeita estes dois requisitos: suponhamos que existe um professor que vai começar a leccionar filosofia da religião e decide passar numa aula um filme aos alunos. Esse professor escolhe o filme “O Sétimo Selo” de Bergman; mas, não prepara qualquer guião para orientação do filme (pois, segundo ele isso iria castrar a contemplação da totalidade da obra que representa o filme); para além disso, ele não está interessado em discutir a partir do filme os vários problemas, teorias e argumentos da filosofia, apenas quer que os alunos contemplem… Neste caso será o recurso ao filme um bom material didáctico para o ensino da filosofia? É óbvio que não, pois está a usar o cinema como pressuposta mera fruição estética ou como mero preenchimento do tempo, sem qualquer relevância filosófica. Concomitantemente, os alunos sem qualquer guião facilmente se podem perder e dispersar daquilo que interessa a nível filosófico: ou seja, a compreensão e discussão crítica dos problemas, teorias e argumentos suscitados pretensamente a partir do visionamento do filme.
Mas, imaginemos um outro professor que também vai leccionar filosofia da religião e quer estimular os alunos para a discussão dos problemas, teorias e argumentos filosóficos a partir da visualização do filme “Religulous” de Larry Charles. Este professor dedica-se a construir um bom guião para os alunos, para que assim eles se concentrem no essencial: na discussão do problema do sentido da vida, da epistemologia e ética da crença, do problema do mal, etc… Neste último caso será o recurso ao filme um bom material didáctico para o ensino da filosofia? Provavelmente sim, se o professor dominar as várias teorias e argumentos da filosofia da religião e se ancorou devidamente o material didáctico do filme à filosofia (através do guião e da sua discussão). Esse professor está a usar o material didáctico do filme para estimular e motivar os alunos a debater problemas, teorias e argumentos da filosofia. Assim, este material didáctico torna-se pertinente para o ensino da filosofia. No primeiro exemplo, o professor usa o filme apenas para passar tempo ou dar prazer estético. Porém, num ensino de excelência da filosofia é necessário atender àquilo que é realmente essencial na filosofia e no seu ensino. Ora, se os materiais didácticos devem servir o que é essencial na filosofia e no seu ensino, então estes devem essencialmente facilitar, promover e estimular a compreensão e discussão dos problemas, teorias, argumentos e conceitos da filosofia.
Tentei mostrar que os materiais didácticos podem ser muito pertinentes para um bom ensino da filosofia se tiverem uma boa ancoragem filosófica e se houver conhecimentos científicos aprofundados da parte do professor. Mas, para além destes requisitos básicos penso que será também necessário atender a outros aspectos, talvez não tão basilares, como analisar a exequibilidade (tempo e exigência) do material didáctico e se é adequado ao público-alvo que são os alunos. Um professor pode ter um excelente material didáctico a nível filosófico, mas este pode não ser totalmente adequado para alunos do ensino secundário (podendo ser antes mais pertinente para alunos do ensino superior). Por isso, é preciso ter sempre em conta os destinatários do ensino da filosofia. E quando se atende ao público-alvo, pode-se constatar que existem alguns alunos que preferem apresentações de powerpoint, outros são mais sensíveis a esquemas-síntese, outros gostam mais do recurso a exemplos, outros são mais estimulados a partir de trabalhos de grupo, outros percebem melhor através do manual escolar. Perante esta realidade parece-me que seria um erro não diversificar os materiais didácticos. Um professor que se limite apenas a utilizar o powerpoint certamente não está a ajudar todos os alunos, e será um recurso que acabará por se tornar cansativo. Ora, como os alunos têm diversas formas de aprendizagem, parece-me muito pertinente variar e diversificar os materiais didácticos de modo a alcançar um leque mais vasto de alunos e para que o ensino não se torne numa actividade maçadora ou deprimente, mas sim estimulante para todos os envolvidos.
Concluindo, serão então pertinentes os materiais didácticos no ensino da filosofia? Em pedagogia normalmente não existem receitas, mas penso que consegui argumentar que para os materiais didácticos serem pertinentes, para um bom ensino da filosofia, devem cumprir alguns requisitos mínimos fundamentais, tais como: a ancoragem filosófica, os conhecimentos científicos do professor, a adequação ao público-alvo. Plausivelmente outros requisitos serão necessários, mas sem aqueles que enunciamos nunca os materiais didácticos teriam qualquer pertinência para um ensino de qualidade da filosofia.



Agradeço aos professores de filosofia João Carlos Silva, João Paulo Maia e Rolando Almeida pelas excelentes críticas e sugestões que fizeram a esta minha reflexão, mostrando-me humildemente alguns defeitos que este texto apresenta.


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