19/12/2010

Para uma leitura activa dos textos filosóficos


O filósofo Desidério Murcho no seu livro “A Natureza da Filosofia e o seu Ensino” propõe uma interessante metodologia de leitura de textos filosóficos que incita a um pensamento activo, vivo e crítico, e não a um mero repetir acrítico e dogmático de ideias dos filósofos mortos. Assim, o essencial é examinar criticamente as ideias dos grandes filósofos, e não ficar pelas constantes e inúmeras citações abstrusas e idolátricas.

“Quando lemos um texto de um filósofo devemos procurar o seguinte:

1. Que problema ou problemas está o filósofo a tentar resolver?
a) Como podemos formular de forma rigorosa o problema? Haverá formas subtilmente erradas de formular o problema, talvez semelhantes à correcta, mas enganadoras?
b) Por que razão é esse problema importante? Será mesmo importante? Que diferença faz? Não será apenas uma confusão? Por que razão é uma confusão? E por que razão não é apenas uma confusão?

2. Que teoria propõe o filósofo para resolver o problema?
a) Como podemos formular e articular rigorosamente essa teoria? Quais são os seus aspectos mais subtis, que por isso mesmo nos podem escapar?
b) Será essa teoria adequada para resolver o problema? Será uma teoria aceitável? Que consequências tem a teoria? Quais são os seus pontos fracos? E quais são os seus pontos fortes?
c) Que outras teorias existem para resolver esse problema? Será que a teoria que estamos a estudar é melhor do que qualquer outra? Porquê? Que vantagens tem a teoria que estamos a estudar relativamente às outras? E que desvantagens tem?

3. Que argumentos apresenta o filósofo?
a) Como podemos formular da forma mais rigorosa possível os argumentos centrais do filósofo? Quais são os aspectos mais subtis desses argumentos?
b) São esses argumentos sólidos? Ou são falaciosos? Ou baseiam-se em premissas inaceitáveis? Se são inaceitáveis, por que razão são inaceitáveis?
c) Que outros argumentos podemos avançar para apoiar ou refutar as ideias do filósofo? Apresenta o filósofo alguns contra-argumentos aos argumentos que podemos avançar contra ele? Ou ignora-os por completo?”


Fonte: Murcho, Desidério (2002). A Natureza da Filosofia e o seu Ensino. Lisboa: Plátano, pp. 91-92.


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