13/01/2010

Pornografia e Prostituição


“Quer seja desnudarem-se em conjunto, entregarem-se a diversas práticas sexuais reduzidas à sua objectividade, instituindo entre eles uma nova relação já não «intersubjectiva» mas «interobjectiva» e esperando dela as diversas tonalidades da angústia, do desprazer, do aviltamento, do masoquismo, do sadismo, do gozo – deste prazer que causa o aviltamento – que estas práticas são susceptíveis de proporcionar. Sem eles próprios recorrerem a tais práticas, a elas acedendo num ver, ao qual as novas técnicas de comunicação, elas próprias formas de voyeurismo, multiplicam a possibilidade.
Esta profanação colectiva da vida é pornografia. Na pornografia aparece uma tentativa de levar ao limite a objectividade da relação erótica de tal modo que nela tudo seja dado a ver – o que, de resto, obriga a multiplicar os pontos de vista sobre os comportamentos e os atributos sexuais como se qualquer coisa na sexualidade se recusasse indefinidamente a esta objectivação total. O mesmo projecto de objectivação radical se encontra na prostituição que não é inicialmente um facto social, mas também ele uma acto metafísico cuja «publicidade», por mais limitada que seja (a prostituída é aquela que, à maneira do dinheiro, concentra no seu ser esta publicidade potencial), permanece o telos escondido. Acrescentamos que, na objectividade, qualquer um pode tomar o lugar de qualquer um: os indivíduos são permutáveis como as coisas. Razão pela qual o voyeurismo tem como consequência lógica «a troca» que muitas vezes o acompanha. É aqui que o prazer particular que causa o aviltamento, e que se encontra na prostituição, é levado ao extremo.
Dir-se-á que os fenómenos evocados pertencem a todas as sociedades. O que se encontra no fundamento de todas as sociedades é a natureza humana cuja estrutura fenomenológica, embora não tendo sido muitas vezes elucidada fenomenologicamente, nem por isso é menos constante, através dos séculos. Esta estrutura é a dualidade do aparecer. Tal é a razão pela qual as múltiplas modalidades da existência que lhe estão ligadas e dela recebem a sua última possibilidade estão, com efeito, presentes por toda a parte onde quer que haja homens. O que caracteriza o niilismo é, nesta estrutura fenomenológica global da dualidade do aparecer, o excluir o modo originário e fundamental da revelação da vida”.

HENRY, Michel – Encarnação: uma filosofia da carne. Lisboa: Círculo de Leitores, 2000, p. 243.

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