05/11/2009

Encontro personalizante e sexualidade


Encontro personalizante e sexualidade:
uma perspectiva buberiana

Resumo da minha comunicação no II Congresso Internacional de Pedagogia (Sexualidade e Educação para a Felicidade), no dia 7 de Novembro de 2009, às 11h30, na sala 1.1 da Faculdade de Filosofia da UCP (Braga):

«Para reflectir adequadamente sobre a sexualidade é primeiro necessário atender a uma questão basilar: “o que é o ser humano?”. A resposta a esta pergunta de antropologia filosófica terá necessariamente repercussões numa ética aplicada à sexualidade. Pois, sobre uma determinada concepção de humano forma-se uma consequente ética. E se não pensarmos adequadamente estas questões antropológicas poderemos cair numa ética (neste caso aplicada à sexualidade) pouco consistente.
Deste modo, debruçamo-nos sobre antropologia filosófica de Martin Buber, pois, consideramos que desenvolve uma concepção do humano bem fundamentada, bem como reflecte a vital dimensão relacional do ser humano. A relação (para além de muitas outras dimensões) é algo fundamental na existência do ser humano; como observa Buber, torno-me Eu na relação com o Tu. Nesta perspectiva, o encontro Eu-Tu é fundamentador da existência e, portanto, é neste encontro que existimos e nos realizamos enquanto pessoas.
Segundo Buber, o ser humano pode ter uma dupla atitude. Por um lado, o Eu-Tu diz respeito à relação verdadeira e personalizante. Por outro lado, o Eu-Isso alude ao relacionamento parcelar e objectivante. Estas duas atitudes não devem ser interpretadas em pura dicotomia, mas são de certa forma complementares. No entanto, sem menosprezar o mundo do Isso, Buber salienta a primordialidade fundante da relação Eu-Tu; pois, o que constitui efectivamente o ser humano são as relações e encontros personalizantes. Se o ser humano reduz toda a existência exclusivamente ao ISSO numa recusa do verdadeiro encontro, então, o mal manifesta-se; e deste mal dimana uma despersonalização e degradação. Buber adverte também que o ser humano apenas se realiza plenamente no encontro com a pura presença, Tu Eterno, ao qual nos aproximamos pela relação com cada Tu.
Seguindo esta antropologia filosófica, deduzimos que a sexualidade só recebe sentido a partir da relação Eu-Tu numa comunhão autêntica. No entanto, se o ser humano desejar eliminar do erotismo “todo contacto no qual um não está presente ao outro, e nem se presentifica a ele, mas onde cada um se limita a fruir a si mesmo através do outro, o que restaria?”. Buber alerta-nos para o perigo do erotismo enquanto redução da relação de amor à sexualidade, o facto de se utilizar e manipular o outro como mera coisa ou objecto de interesses egóticos. Na realidade não se pode amar um objecto, mas este apenas pode ser apetecido, e o facto de se estar próximo espacialmente pode não ser sinónimo de presença ou encontro. Portanto, somente quando existe abertura ao Eu-Tu pode emergir o amor, a presença e o verdadeiro encontro.
Deste modo, uma educação para a sexualidade (e não meramente para a genitalidade) precisa de ser uma educação para o amor Eu-Tu, onde o humano é veemente constituído, e no qual estão patentes valores como diálogo, fidelidade, castidade, doação mútua, responsabilidade…»


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