02/10/2009

Ascensão de nível


«Uno dice silla o ventana o reloj, palabras que designan meros objetos, y, sin embargo, de pronto transmitimos algo misterioso e indefinible, algo que es como una clave, como un mensaje inefable de una profunda región de nuestro ser. (…) Así, aquel par de zuecos, aquella vela, esa silla, no quieren decir ni esos zuecos, ni esa vela macilenta, ni aquella silla de paja, sino Van Gogh, Vincent: su ansiedad, su angustia, su soledad; de modo que son más bien su autorretrato, la descripción de sus ansiedades más profundas y dolorosas. (…) Porque el hombre hace con los objetos lo mismo que el alma realiza con el cuerpo, impregnándolo de sus anhelos y sentimientos, manifestándose a través de las arrugas carnales, del brillo de los ojos, de las sonrisas y de la comisura de sus labios» (Ernesto Sábato, La resistencia, Seix Barral, Barcelona 2000, p. 18).


Este breve texto é uma reflexão sobre a ascensão de nível que o ser humano pode vivenciar perante tudo o que o rodeia.
Na primeira frase, o autor começa por enumerar um conjunto de realidades que à primeira vista não passam de meros objectos e, portanto, estamos num nível 1. Porém, à medida que o texto avança percebemos que essas realidades não são apenas objectos, mas são a expressão e o caminho para uma outra realidade superior – de encontro interpessoal. Assim, ascendemos ao nível 2.
De facto, numa primeira abordagem, quando me sento numa cadeira, abro uma janela, ou vejo que horas são no meu relógio, estou apenas numa atitude de nível 1 perante elas. A cadeira, a janela, o relógio são realidades que eu tenho no dia-a-dia, que usufruo e possuo. Se eu tratar estas realidades numa atitude de mero “ter” (e não me abrir a uma atitude de “ser”), então, elas não passam de objectos, ou realidades fechadas, pois não estabelecem uma relação fecunda comigo e eu com elas. São realidades neutras para mim; não falam, nem dizem nada. Por isso, percebe-se que dizer simplesmente “cadeira, ou janela ou relógio”, como salienta o autor, são “palavras que designam meros objectos”; uma vez que numa primeira abordagem estamos numa conotação de posse e domínio – nível 1.
No entanto, estas mesmas realidades (como são o exemplo da cadeira, janela ou relógio) podem transmitir “algo misterioso e indefinível” se nos elevarmos para um nível superior, ou seja, se tomarmos uma atitude de encontro e criação – nível 2. E, assim, estas realidades não são meros objectos, mas realidades abertas – tornam-se âmbitos – pois, estão abertas a certo tipo de relação fecunda com outros âmbitos e realidades. Perante âmbitos não tenho uma atitude de domínio e manejo; mas sim uma atitude de respeito, estima e fiel colaborar. Deste modo, liberto-me da ânsia de possuir e enriqueço-me ontologicamente em comunhão com os âmbitos. Por exemplo: tenho no meu quarto um quadro com uma fotografia da minha namorada e eu ao lado dela. Aparentemente estou diante de um objecto; mas se reflectir melhor concluo que aquele quadro e fotografia não são meros objectos, mas expressam uma realidade superior – ou seja, é um sinal e faz-me recordar (voltar ao coração) todo o encontro e amor que criamos. Do mesmo modo, quando o autor do texto refere que “aquele par de tamancos, aquela vela, essa cadeira, não querem dizer nem esses tamancos, nem essa vela macilenta, nem aquela cadeira de palha, mas sim Van Gogh, Vicent”, está também a ascender a um nível superior, ao nível 2. Pois, por exemplo, aquela vela não é uma simples vela, mas faz recordar a pessoa de Van Gogh. Não se está perante um objecto, mas sim perante um âmbito, uma vez que aquela vela abre e é expressão de outras realidades, como a ansiedade, a angústia e solidão de Van Gogh. Portanto, perante muitas realidades simbólicas, que aparentemente surgem como simples objectos, o ser humano não deverá reifica-las ou fecha-las, mas pelo contrário o ser humano deve deixar “falar” e “deixar-ser” essas realidades, para que estas assim se manifestem e se revelem plenamente ao ser humano de modo a configurar com elas a sua vida.
A última frase do texto inicia-se com uma frase eloquente, que é também uma boa analogia do que foi tratado nas frases anteriores: “porque o homem faz com os objectos o mesmo que a alma realiza com o corpo”. É preciso tomar nota que o ser humano é um âmbito de classe singular. O ser humano apesar de ser corpóreo e, assim, apresentar uma certa afinidade com os objectos, não está de forma alguma delimitado como os objectos; pois, funda e cria toda uma trama de relações. Pelo facto, do ser humano manifestar-se como uma realidade constituída por uma confluência de relações, não o podemos aviltar ao nível dos objectos ou realidades fechadas, uma vez que ele é por essência uma realidade aberta (um ser que se faz em comunhão com os outros). E por ser uma realidade aberta pode converter em âmbitos muitas realidades consideradas em princípio como objectos, tal como alma (a pessoa e as relações que estabelece) faz com o corpo – isto é, eleva de nível.
Em suma, torna-se necessário levar a sério o ensinamento do principezinho: “ver mais além das aparências”. Pois, normalmente as “aparências” ficam pelo nível 1, pelos objectos, pela realidade distinta de nós e estática que não nos enriquece humanamente. Se olharmos para além das aparências, ou seja, se ascendermos de nível constatamos que a realidade não é distinta de nós, mas estamos em comunhão e enriquecimento recíproco.


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