14/09/2009

René Girard e a História


Do livro "O Desejo como História - O sentido da cultura humana em René Girard" de José Miguel Stadler Dias Costa:

«Quanto ao tema que me propus abordar, a relação entre o desejo mimético e a história, na perspectiva da construção de uma teoria sobre o sentido da cultura humana partindo dos trabalhos de Girard, penso terem ficado estabelecidas as seguintes posições:

1. A mimésis é, desde as origens, a força gravitacional que move o humano. Uma cultura humana é um sistema de representações auto-referenciais fundadas num gesto arbitrário de exclusão e que tem, em última instância, o carácter mimético do desejo humano e a sua propensão para a violência como base constitutiva.

2. A ocultação da arbitrariedade (a méconnaissance) constitui condição do funcionamento da solução sacrificial para a violência e dela depende a perpetuação de todos os sistemas sociais, religiosos, políticos e filosóficos do homo mimeticus. Os ritos temporais, culturalmente instituídos, nascem do sacrifício e da sua capacidade para instaurar e restaurar a ordem diante das crises que ciclicamente a afectam.

3. Os seres humanos são seres religiosos. Foi essa, tudo indica, uma das principais razões da sua especificidade como espécie, da sua sobrevivência e invulgar sucesso adaptativo no horizonte da vida sobre a terra. O judeo-cristianismo aparece, no entanto, como uma interrupção inovadora no curso tradicional do fenómeno religioso e como início de uma nova concepção e vivência do tempo humano.

4. Desejo e historicidade entrecruzam-se e afectam-se mutuamente. A aceleração constante da história a partir da Modernidade é impulsionada pela libertação do desejo resultante da quebra dos interditos tradicionais. A reivindicação da autonomia, os paradoxos e ilusões gerados pelo individualismo, fazem também com que os progressos a nível do saber sejam acompanhados por novas e agravadas formas de violência.

5. A "preocupação com as vítimas" [cf. judeo-cristianismo] pode ser vista como traço unificador de uma cultura humana cada vez mais global, caminhando na direcção de uma reconciliação não violenta. O sentido da história, que não está dado ou garantido à partida mas deve ser (auto)construído, apoia-se em duas conquistas que pertencem à humanidade inteira: a libertação entendida como tarefa inesgotável, por um lado, e o esforço na diminuição dos níveis de violência, por outro.

Cada uma destas posições deverá ser encarada como uma proposta aberta à discussão e ao desenvolvimento crítico, no confronto com os dados fornecidos pelo conhecimento histórico e com os novos acontecimentos que não deixam nunca de se produzir continuamente no devir humano».


Citado de:
DIAS COSTA, J. M. - O Desejo como História. O sentido da cultura humana em René Girard. Braga: Edições da Faculdade de Filosofia, 2005, pp. 283-284.



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