01/09/2009

Filosofia Prática (2)


Para sondarmos outras sensibilidades da recente temática da Filosofia Prática entrevistamos o dr. Eugénio Oliveira que é director da Associação Portuguesa de Ética e Filosofia Prática. Ele dá-nos a sua visão interessante sobre uma filosofia mais aplicada ao concreto, à vida e existência. Vale a pena ler...

1. Qual entende ser o papel do filósofo no mundo social de hoje?
O Filósofo terá sempre que situar a sua actividade na esfera da praxis cultural e ser um impulsionador de novas mentalidades que permitam o aperfeiçoamento da humanidade. O Filósofo não poderá ser apenas um académico ou um intelectual onde o pensar possa ser estéril mas um ser que ande pelas “ ruas do mundo” compreendendo esse mesmo mundo no sentido de o tornar melhor. O Filósofo deve ser um interveniente e ter voz na sociedade em vários domínios e áreas que lhe são familiares: a educação; a política; a ciência por exemplo pois as sua competências permitem-lhe isso em questões de ética educacional, ética médica ou empresarial. Hoje, os Filósofos não se devem remeter apenas ao seu papel de professores, existe para além da docência outras actividades onde a sua utilidade é evidente. Defendo que os Filósofos devem prepararem-se para exercerem várias actividades e utilizar os seus conhecimentos ao serviço de instituições, organizações e empresas. Veja-se o exemplo de Tom Morris, de como um Filósofo, aplicando a Filosofia ao mundo dos negócios pode melhorar as empresas e ao mesmo tempo fazer disso uma profissão. Em conclusão considero que o Filósofo pode ser um catalizador de mudança na sociedade, uma mais valia na promoção de valores e de promoção da ética em diversas áreas.

2. O que é a APEFP?
A Associação Portuguesa de Ética e Filosofia Prática é uma associação de cariz sócio-cultural e científica, sem fins lucrativos e cujo fim é divulgação, promoção, formação e investigação na área da ética e filosófica prática e isto porque os elementos fundadores da Associação observaram que em Portugal e ao contrário do que acontece noutros países não existem associações deste género. Os sócios fundadores, todos com curriculum na área da Filosofia, pensaram e estruturaram a Associação de uma forma sólida para que o projecto não passasse de uma quimera. Assim, a APEFP é constituída para além dos seus órgãos sociais pelos Departamentos: Práticas Éticas e Filosóficas; Formação profissional; Educação; Estudos. Tem ainda uma Coordenação de Ética Médica e uma Comissão de Ética e Deontologia. A Direcção da APEFP pretende que este projecto seja uma mais valia a nível nacional e nesse sentido está a desenvolver um conjunto de acções que divulgam a Associação e os seus propósitos de tornar a sociedade mais conhecedora da utilidade da ética e da Filosofia prática quer para a formação cívica do ser humano quer para a sua formação cultural.
Após a sua criação e logo nestes primeiros dois meses a APEFP tem tido uma aceitação e um interesse peculiar por parte da sociedade civil e da comunicação social pelas suas actividades e dinâmica criada. A APEFP e a sua Direcção tem recebido de vários quadrantes a satisfação por este projecto, sustentado numa liderança em que a experiência no Associativismo dos seus elementos é a mais valia.

3. Em que consiste o aconselhamento filosófico?
Eu prefiro chamar Consultoria ou Assessoria Ética e Filosófica e não aconselhamento porque esse nome pressupõe ao cliente que vai a uma consulta filosófica para obter alguns conselhos para tomar as suas decisões ou resolver os seus dilemas éticos ou filosóficos e isso não e verdade. A Consultoria ética e Filosófica consiste essencialmente em aplicar os ensinamentos da Filosofia aos problemas quotidianos da vida pessoal, social e profissional.
A Consultoria Filosófica é assim uma actividade cujo profissional nesta, área, através das suas competências e usando as metodologias próprias , essencialmente centrando-se no diálogo e na empatia, consegue e ajuda a ultrapassar esses mesmos problemas.
O Consultor será um facilitador que conduz a pessoa a atingir a Ataraxia, ou seja, a tranquilidade da alma e do seu pensamento, permite dar ânimo ás ideias, discernimento, pretende fazer com que o consultante atinja um estado de felicidade e a viver melhor.

4. O que é que uma pessoa pode esperar quando se dirige a uma consulta de aconselhamento filosófico?
Eu, como Consultor Ético e Filosófico não sou mais do que um coach e assim poderei chamar também à Consultoria Filosófica Coachiing Filosófico e porquê? Porque o papel do Consultor deve ser essencialmente o de estimular o pensamento e ajudar as pessoas a remover os seus obstáculos interiores, de forma a libertar aptidões nunca antes reveladas. É isto que podem esperar os clientes, ou seja, a consultoria ética e filosófica adopta uma perspectiva optimista das pessoas, "despertando" as suas capacidades. Assim o Coach Filosófico poderá ser importante nas segintes situações:
- Quando há conflitos de valor, de expectativas.
-Quando novas decisões estão a ser procuradas por parte da empresa.
-Quando um conhecimento especializado é fundamental para reverter um padrão comportamental.
-Quando é necessário desenvolver uma cultura de inovação nas empresas;
-Quando há necessidade de formar quadros técnicos em motivação, liderança, responsabilidade social, ética e códigos de ética.
- Quando há necessidade de preparação e acompanhamento de processo de mudança
-Quando existam conflitos no ambiente organizacional
-Quando é necessário um desenvolvimento de Competências sociais
-Quando se tem necessidade de comunicar melhor consigo próprio e com os outro.

5. O aconselhamento filosófico é uma alternativa à psicologia e à psiquiatria?
Penso que não. Não podemos ver a Consultoria Ética e Filosófica como uma alternativa, pois quer a Psiquiatria e a Psicologia têm metodologia próprias no tratamento dos seus pacientes e com mais ou menos êxito também tem a finalidade de resolver problemas. A questão da Consultoria Filosófica penso ser diferente pois o plano dos problemas a tratar são problemas do quotidiano, dilemas morais ou éticos e meramente filosóficos, ou seja, problemas normais. Vejo a Consultoria mais como uma possibilidade, mais uma ajuda possível para resolver problemas às pessoas que não do foro psiquiátrico, mas problemas que apenas com a metodologia do diálogo podem ser tratados. O Consultor Filosófico tem de ser visto como um especialista do Diálogo, como um técnico dotado de competências para fazer discernir os clientes as razões e os porquês do seu estado de alma ajudando-o a atingir a ataraxia. Assim vejo a Consultoria mais como outra possibilidade que se pode ter para resolver situações pessoais ou em empresas. Parece-me ainda que a Consultoria Filosófica será útil em algumas circunstâncias como possibilidade multidisciplinar, como por exemplo, em doentes com doenças terminais em que a Ciência já nada pode fazer e a Filosofia ser uma via de compreensão do problema.

6. Consegue-se viver de filosofia prática (aconselhamento filosófico, filosofia para crianças, ética empresarial, etc) em Portugal?
Considerando que a actividade da filosofia e da ética prática em Portugal é ainda uma novidade na sociedade civil, são áreas ainda embrionárias e onde existe um terreno enorme para progredir. Parece-me e tal como noutros países acontece, que a área da ética empresarial é a área em que, hoje e no futuro, poderá ser mais útil e como tal, quer como consultor interno ou externo, será uma profissão a ter em conta. As empresas de futuro já assumiram o caminho da responsabilidade social e do aperfeiçoamento ético e daí a assessoria ser uma necessidade pois a credibilidade da empresa passa por aí, por exemplo com a entrada de assessores nesta área para as empresas tal como tem acontecido em vários países.
Quanto à Filosofia para Crianças , embora haja alguma divulgação, Formação e algum material didáctico não constitui possibilidade de se tornar uma actividade permanente no ensino em Portugal. Ela existe apenas como sessões de demonstração em algumas escolas, ATls ou então como complemento curricular no 1º Ciclo mas em escassíssimas escolas do País. Existe sim, pessoas interessadas nesta área que têm feito um esforço na sua promoção. A Dra. Joana Sousa é talvez umas das poucas pessoas em Portugal que com a Filosofia com Crianças praticamente consegue tirar proveitos através das suas acções e Workshops.

7. Quer-nos falar sobre a filosofia para crianças, os cafés filosóficos, filosofia na empresa, e pertinência destas actividades na sociedade?
São actividades muito interessantes e com aspectos positivos pois para além de envolver a comunidade traz para o debate questões importantíssimas. Os Cafés Filosóficos têm a sua origem em 1992 em França através de Marc Sautet e proliferam hoje um pouco por todo o mundo e podem considerarem-se encontros que se realizam em espaços culturais e que permitem a todos os presentes participar de uma forma informal em debates sobre temas e assuntos da existência humana e a que todos interessa. Estes Cafés Filosóficos e que a APEFP também tem realizado deve possuir um regulamento próprio cujos presentes devem conhecer pois exige-se a cordialidade do debate e ausência de ataques pessoais, argumentando-se apenas o assunto em questão. Os Cafés Filosóficos são muito frequentados e têm tido um forte impacto na sociedade civil.
A Filosofia na Empresa começa também a ter um papel importante pois como já referi anteriormente noutra questão, hoje as empresas credíveis perceberam a importância da Filosofia dentro da empresa. O seu papel é importante ao nível da formação interna dos quadros superiores essencialmente na vertente da liderança e da motivação. Pessoalmente, considero muito importante o diagnóstico de satisfação e de ambiente ético da empresa que deve ser efectuado e que o Filósofo tem uma função importante. Tom Morris é um exemplo de como a Filosofia dentro da empresa é importante para os negócios e para a excelência da empresa. A sabedoria filosófica é um manancial inesgotável para as empresas.

8. Que perspectivas pode ter um recém-licenciado em filosofia para exercer uma profissão em Portugal?
A perspectiva do ensino deve ser colocada de parte por parte do recém licenciado em Filosofia, embora tenha no campo da Formação áreas nas quais poderá leccionar, tendo que para isso obter o CAP.
As áreas das práticas éticas e filosóficas poderá ser uma possibilidade de futuro mas a mera licenciatura em Filosofia não chega. Assim, o recém licenciado deverá obter outra certificação como por exemplo em Coaching que é uma actividade de futuro. Também a entrada em empresas em Ética empresarial ou Filosofia empresarial é uma possibilidade pois a NP 4460 obriga as empresas a respeitarem e promoverem a ética e a responsabilidade social.


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