02/09/2009

Corpo-Mente



Do livro “Sentimento de Si” de António Damásio:

“Uma das razões que nos levam a admirar os bons actores é porque estes conseguem convencer-nos de que são outras pessoas, de que têm outras mentes e outros sis. Mas nós sabemos muito bem que não é verdade, sabemos que eles são fingidores competentíssimos e valorizamos o seu trabalho porque aquilo que fazem não é nem natural nem fácil.
Tudo isto é muito curioso. Por que será que não é habitual encontrarmos três ou quatro pessoas num só corpo? Seria uma enorme economia de tecido biológico. Ou por que não poderiam as pessoas com grandes capacidades intelectuais e imaginação habitar dois ou três corpos? Como seria divertido e como se abriria um mundo de infinitas possibilidades. Por que não poderiam existir, no meio de nós, pessoas sem corpo, enfim, fantasmas, espíritos, criaturas etéreas e sem cor? Pense no espaço que se poupava. Mas a verdade é que não há tais criaturas hoje em dia e nada indica que alguma vez tenham existido. Uma mente, aquilo que define uma pessoa, exige um corpo, e um corpo, uma corpo humano, claro, gera naturalmente uma só mente. A mente é de tal forma modelada pelo corpo e destinada a servi-lo que apenas uma mente pode nele surgir. Sem corpo, nada de mente. Para qualquer corpo, nunca mais de uma mente. As mentes preocupadas com o corpo ajudam a salvar o corpo. Quando a natureza fez aparecer criaturas como nós, com corpos e mentes conscientes, estas criaturas foram, tal como Nietzsche as apelidaria, «híbridos de plantas e fantasmas», a combinação de um objecto vivo com fronteiras facilmente identificáveis, por um lado, e, por outro, uma animação mental aparentemente sem fronteiras, interna e difícil de localizar. O filósofo também lhes chamou «discordâncias», dada a estranha aliança entre o claramente material e o aparentemente insubstâncial. Há vários milénios que esta aliança surpreende toda a gente e pode ser que seja, agora, até certo ponto, mais fácil de compreender do que nunca. Pode ser”.


DAMÁSIO, António R. - O Sentimento de Si. O Corpo, a Emoção e a Neurobiologia da Consciência. Mem Martins: publicações Europa-América, 2000, pp. 172-173.


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