10/09/2009

Associativismo, Juventude e Sociedade


A propósito do dia internacional da juventude, celebrado a 12 de Agosto, consideramos que é pertinente reflectir sobre um eloquente (e muitas vezes menosprezado) motor da formação juvenil: o associativismo. Tratando-se de uma temática de grande actualidade e repercussão, pretendemos neste breve texto contribuir para a reflexão sobre as incidências desta problemática, sobretudo nos “modos de vida” da juventude de hoje. Contamos também com as conclusões das Jornadas sobre “O Associativismo Juvenil e a Europa”, organizadas no IPJ de Braga em Maio, que foi um estímulo para o nosso pensamento.
Natália Fernandes, da Universidade do Minho, salienta que o associativismo hoje, ainda que carecendo bastante da participação, comporta um grande aspecto cívico, promovendo óbvias competências a nível da cidadania. Por isso, é necessário fomentar a participação nas associações, envolvendo, desde cedo, as crianças, incentivando nelas este sentimento de participação, uma vez que existimos num colectivo social e temos responsabilidades em relação a este colectivo. Esta perspectiva é, a nosso ver, fundamental, na medida em que consideramos que o ser humano só é ele mesmo na relação com o outro, o “tu”. O que constitui o humano são as relações interpessoais, o ser humano não se faz numa auto-suficiência egoísta, mas na relação de encontro, a qual certamente se treina e se aprofunda na experiência associativa. Persistir na ilusão cartesiana e moderna da soberania do individualismo traz consigo a desvalorização do sentido de pertença, do ser com os outros, do encontro, precisamente aquilo que faz a riqueza da experiência de viver o espírito do associativismo.
Nesta linha, o Presidente da Federação Nacional das Associações Juvenis, Luís Alves, foca essencialmente a mais-valia que é para os jovens estarem inseridos numa associação. Refere que nas associações os jovens enriquecem-se humanamente, ganham competências, sendo uma forma de intervir na sociedade, de despertar para o valor do altruísmo. A participação associativa envolve de modo especial uma consciência de pertença e a responsabilidade social. Em suma, advoga a vida associativa como um importante complemento na formação humana. É verdade que diversos estudos confirmam que os próprios jovens têm esta percepção da vida associativa como uma escola de virtudes cívicas, convivencialidade, aquisição de novas competências e prestação de serviço aos outros.
Jorge Cristino, da Agência Nacional para a gestão do Programa Juventude em Acção, sublinha também que a sociedade e a cultura ambiente de hoje, em geral, não estão despertas para os valores da participação, da colaboração gratuita. De facto, o panorama “do associativismo e do voluntariado juvenil não é particularmente animador. O número de jovens associados anda à volta de um quarto, mas temos de atender que uma parte muito significativa se encontra vinculada à prática desportiva, que tem pouca ou nenhuma relação com a experiência cívica”. O escasso investimento neste domínio condiciona negativamente a nossa cultura e por consequência, compromete o êxito de uma verdadeira política cultural, como o sublinha o especialista João Teixeira Lopes: “o principal problema reside, a nosso ver, na enorme dificuldade que a Segunda República tem demonstrado em lidar com o preocupante défice cultural. Domínios como a animação sócio-cultural, o associativismo cultural e a formação de novos públicos, apesar do apoio crescente do poder local, revelam níveis incipientes de investimento”. É também notória entre nós a carência de “capital social”, que se reflecte nos baixos níveis de confiança e de colaboração entre as pessoas, fomentando aquele “medo de existir” que o filósofo José Gil identificou, e impede um salutar desenvolvimento da sociedade. Superar este estado de coisas e fomentar a participação é, para Jorge Cristino, a missão do associativismo, promovendo o aperfeiçoamento pessoal e colectivo gerando competências de relacionamento com os outros, trabalho em equipa, partilha do tempo, etc. É esta aquisição informal de competências de grande repercussão social e cultural que a vida associativa traz aos jovens, facultando-lhes “um conjunto de virtudes cívicas (…) comportamentos cooperativos, respeito pelos outros, tolerância, respeito pela lei, envolvimento activo na esfera pública e reforço dos sentimentos de autoconfiança e de eficácia pessoal”.
É verdade que hoje, tal como sublinhou Jorge Cristino assistimos a uma mudança de paradigma da participação dos jovens e das associações. De facto, as novas tecnologias da informação e da comunicação proporcionam novas formas de relacionamento, como as redes do Myspace, Hi5, Facebook, entre outros. Estas redes sociais podem ajudar na integração do espírito gregário nos jovens. Porém, pensamos que estes novos modelos de comunidade também se podem transformar em obstáculo, se levarem a prescindir do encontro interpessoal, da relação face-a-face e da presença, tornando-se assim num meio de alienação do verdadeiro encontro doador de ser. Aqui fica o alerta!
Como é sabido, o nosso país possui várias associações, elas constituem um potencial de desenvolvimento impressionante que é preciso valorizar e aprofundar. Oxalá isso aconteça, com o apoio das Entidades públicas e privadas, das Instituições e Poderes Públicos; e, claro, com afluente adesão de jovens.


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