17/08/2009

Visões de história - Visão Cristã



A visão cristã ou de Santo Agostinho assenta no pressuposto da existência de Deus. Do mesmo modo, desenvolveu a sua filosofia tendo por base a tradição helenista e a influência evidente de Platão. Portanto, pensar o cristianismo foi tomar a filosofia grega como um instrumento. Nesta visão existe uma cristianização do platonismo e do neoplatonismo.
Santo Agostinho aspira sobretudo a pensar a fé pela razão e justificar esta por aquela. Assim, crê para compreender. Crê, porque “só a fé lhe dará, pela graça, aquela razão que a própria razão não pode dar”.
Pedir à fé uma razão que ilumine a fé, é característica de uma visão de história criada por Agostinho. Concebe a história como sendo história dos pecados humanos, mas também história da salvação. Portanto, estamos perante um drama.
Neste drama, não existem espectadores, somente actores, os quais são toda a humanidade. Assim, o homem é colocado no centro do universo, para acompanhar a solidão de Deus. Contudo, surge o pecado. E a história surge desse pecado, que é liberdade abusada, e o princípio do mal.
A liberdade é uma dádiva de Deus. Mas, para o homem agir verdadeiramente em liberdade tem que ser com o auxílio de Deus. “O homem é livre, mas é livre só enquanto faz livremente o que Deus sabe que há-de fazer livremente”. Constatamos em certa medida uma liberdade predestinada e reduzida ao campo divino.
Na visão cristã, Santo Agostinho também concebe a realidade como duas cidades: a cidade terrena e a cidade divina. A cidade terrena é a cidade do diabo, é “a cidade dos anjos caídos e dos homens aos quais a graça não alcançou, a verdadeira e autêntica cidade dos ímpios, os amantes do mundo”. Por outro lado, a cidade divina é pátria celeste, é “a cidade dos anjos, que persistem e dos homens destinados à salvação”. Podemos verificar que está patente nesta concepção das cidades uma visão de predestinação. Por um lado temos o povo condenado, por outro temos o povo eleito para a salvação. Segundo Agostinho, Deus sabe desde sempre quem é condenado e quem é salvo, pois, Deus é “aquele que nem a pluma do pássaro, nem a flor da erva, nem a folha da árvore, saem sem o seu consentimento”. Portanto, Deus rege a história e não acontece nada que não estivesse já previsto por Deus.
Em suma, na visão de Santo Agostinho, a história não acaba bem, nem mal. É um drama. A história acaba bem para o povo que devendo ser condenado, foi eleito e inscrito na cidade divina desde sempre. Acaba mal, para os condenados, aqueles que não foram eleitos desde sempre para a cidade eterna, para a vida.

Achamos que é uma visão demasiado fechada, sobretudo pelo carácter determinista e de predestinação. O homem não pode fazer nada, ou é condenado ou é salvo. É quase um mero objecto de entretenimento nas mãos de Deus, talvez mesmo sem valor. Não será esta visão pouco eloquente? Não estaremos a atribuir características aterradoras a Deus, que nem Ele próprio as possui? Pensamos e estamos de acordo que em certas visões o homem concebe-as mais reais que a própria realidade.


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